quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

podemos de tempos a tempos reencontrar o ser que fomos (Proust)

“Ora, as lembranças de amor não abrem exceção às leis gerais da memória, regidas também estas pelas leis mais gerais do hábito. Como o hábito enfraquece tudo, o que melhor nos recorda uma criatura é justamente o que havíamos esquecido (porque era insignificante e assim lhe havíamos deixado toda a sua força). Eis por que a maior parte da nossa memória está fora de nós, numa viração de chuva, num cheiro de quarto fechado ou no cheiro de uma primeira labareda, em toda parte onde encontramos de nós mesmos o que a nossa inteligência desenhara, por não lhe achar utilidade, a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando todas as nossas lágrimas parecem estancadas, ainda sabe fazer-nos chorar. Fora de nós? Em nós, para melhor dizer, mas oculta a nossos próprios olhares, num esquecimento mais ou menos prolongado. Graças tão somente a esse olvido é que podemos de tempos a tempos reencontrar o ser que fomos, colocarmo-nos perante as coisas como o estava aquele ser, sofrer de novo porque não mais somos nós, mas ele, e porque ele amava o que nos é agora indiferente”.

(Marcel Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 2 - À sombra das raparigas em flor.Tradução de Mario Quintana. Ed. Globo, p. 267)

7 comentários:

  1. Reencontraremos e amaremos e choraremos, numa roda sem fim, com personagens iguais e cenários diferentes

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  2. podemos de tempos a tempos reencontrar o ser que fomos, colocarmo-nos perante as coisas como o estava aquele ser, sofrer de novo porque não mais somos nós, mas ele, e porque ele amava o que nos é agora indiferente”.


    me fez chorar.
    Beijos meus

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  3. gostei muito do blog. estou seguindo.
    um bjo


    passa no meu tbm

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  4. Vanessa li "Em busca do tempo perdido" volume um e adorei, preciso ler agora os outros volumes. Bela passagem.

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  5. a gente não pára de deixar de ser.

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  6. É com igual intensidade que o hábito tanto nos protege, quanto nos embota os sentidos.
    Triste.
    O passado tem lá seu valor, quando o olvidamos vezenquando...

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