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terça-feira, 26 de abril de 2011

Žižek e Krzystof Kieslowski


A liberdade é azul
“(…) quando uma pessoa permanece traumaticamente ligada a uma relação passada, idealizando-a, elevando-a a um nível que todas as relações futuras nunca atingirão, podemos estar seguros de que essa idealização excessiva serve para ofuscar o fato de haver algo muito errado nessa relação. O único sinal fidedigno de uma relação verdadeiramente satisfatória é, após o falecimento do outro, o sobrevivente estar pronto para encontrar um novo parceiro.”

(Slavoj Žižek in: Lacrimae rerum. Ensaio: A teologia materialista de Krzystof Kieslowski. Boitempo Editorial, p. 65)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

esconde algum mistério imponderável


“Assim, por exemplo, a fantasia masculina fundamental relativa à mulher não é a sua aparência sedutora, mas a ideia se que essa aparência deslumbrante esconde algum mistério imponderável.”

(Slavoj Žižek in: Como ler Lacan. Ed. Zahar, p. 140)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Por isso corro demais...


“(...) de maneira análoga, para Lacan, quer o sujeito desejante se aproxime de seu objeto de desejo ou fuja dele, esse objeto parece permanecer à mesma distância dele. Quem não se lembra da situação pesadelar em sonhos: quanto mais corro, mais fico plantado no mesmo lugar?
(Slavoj Žižek in: Como ler Lacan. Ed. Zahar, p. 96)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

o papel fundamental do conhecimento do Outro (Zizek)


"Durante décadas, uma piada clássica cum circulou entre lacanianos para exemplificar o papel fundamental do conhecimento do Outro: um homem que acredita ser um grão de semente é levado para um hospital psiquiátrico onde médicos fazem o que podem para convencê-lo de que ele não é um grão de semente, mas um homem. Quando ele está curado (convencido de que não é um grão de semente, mas um homem) e lhe permitem deixar o hospital, imediatamente volta tremendo. Há uma galinha perto da porta e ele tem medo de que ela vá comê-lo. "Meu caro rapaz", diz o médico, "você sabe muito bem que não é um grão de semente, mas um homem". "Claro, que eu sei disso", responde o paciente, "mas a galinha sabe?" Aí reside a verdadeira aposta do tratamento psicanalítico: não é suficiente convencer o paciente sobre a verdade inconsciente de seus sintomas - o próprio inconsciente deve ser levado a assumir essa verdade."

(Slavoj Žižek in: Como ler Lacan. Ed. Zahar, p. 115)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

enfrentar as coordenadas e os impasses essenciais de seu desejo


"(...) a psicanálise não é uma teoria e técnica dos distúrbios psíquicos, mas uma teoria e prática que põe os indivíduos diante da dimensão mais radical da existência humana. (...) para Lacan o objetivo do tratamento psicanalítico não é o bem-estar, a vida social bem-sucedida ou a realização pessoal do paciente, mas levar o paciente a enfrentar as coordenadas e os impasses essenciais de seu desejo".

(Como ler Lacan, Zizek, p. 10, Ed. Zahar)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Dogville e Zizek


"(...) com Von Trier, não se trata apenas do problema da crença, no sentido de se as pessoas ainda crêem hoje, o lugar da religião hoje, etc. É também reflexivamente ou alegoricamente a questão da crença no próprio cinema. Como fazer as pessoas acreditarem hoje na magia do cinema? Em Dogville tudo é encenado em estúdio. Certo, é sempre assim no cinema, mas aqui o cenário é visto como cenário. A ação se passa em Dogville, uma cidadezinha, mas não há casas, há apenas linhas no chão, sinalizando que aqui é uma casa, aqui é uma rua. O mistério é que isso não impede nossa identificação. Ao contrário, isto nos lança ainda mais nas questões da vida interior. Não é que a crença ingênua seja minada, descontruída pela ironia. Von Trier quer tratar a magia com seriedade. A ironia é empregada para nos fazer crer. O mistério é que mesmo sabendo que é uma encenação, que é uma ficção, ainda ficamos fascinados. Essa é a magia fundamental. Testemunhamos uma determinada cena encantadora, então nos mostram que é apenas uma farsa, com maquinários por detrás, mas ainda estamos fascinados. A ilusão persiste. Há algo real na ilusão, mais real que a realidade por detrás dela".

(Do documentário: The pervert´s guide to cinema, do Slavoj Žižek)

sábado, 21 de agosto de 2010

Slavoj Žižek chegou!


Na quinta, durante o seminário do núcleo avançado de Lacan, levei um susto ao passear por uma revista de psicanálise: livro novo do Slavoj Žižek!

No mesmo momento, mandei um e-mail - Smarthphone querido! - para o Amálgama - onde escrevo resenhas de livros psi., solicitando que a Zahar me enviasse um exemplar.

Na sexta, no mestrado, vi que uma colega já o tinha. Pedi para dar uma olhada, no meio da aula do Quinet e logo vi que ele, o Zizek, citava a Erica Jong! Minha autora favorita no livro dele.

Sábado, hoje, o livro chegou aqui em minhas mãos. Sabe aquelas coisas que acontecem, que te dão a impressão de que "tudo pode dar certo"? Eu quis muito o livro na quinta, e eis-me aqui no sábado, com ele ao ladinho.

Sem maiores digressões, só vou ficar feliz e ler o Žižek!

sábado, 28 de novembro de 2009

Objetos parciais


"O fascinante dos objetos parciais, no sentido de órgãos sem corpo, é que eles encarnam o que Freud chamou de pulsão de morte. Precisamos aqui ter muito cuidado. A pulsão de morte não é uma busca budista por aniquilação. “Quero achar a paz eterna”... Não. A pulsão de morte é quase o oposto. Ela representa a dimensão daquilo que, e ficções de terror do tipo das de Stephen King, chamamos de a dimensão do não-morto, dos mortos vivos, algo que permanece vivo mesmo depois da morte. Uma coisa que é, de algum modo, imortal na sua própria mortalidade. Segue em frente, insiste, não podemos destruí-la. Quanto mais você a corta, mais ela insiste e continua viva. Essa dimensão de uma imortalidade diabólica, é o que caracteriza os objetos parciais.
O melhor exemplo para mim é o filme Os Sapatinhos vermelhos, de Michel Powell, sobre uma bailarina. Sua paixão pela dança se materializa nas sapatilhas que a controlam. Elas são literalmente os objetos mortos-vivos".

(The pervert´s guide to cinema, Zizek)

domingo, 11 de outubro de 2009

Transformando em ficção
















"Mas a escolha entre a pílula azul e a vermelha não é verdadeiramente uma escolha entre ilusão e realidade. É claro que a Matrix é uma máquina de produzir ficções, mas são ficções que já estruturam nossa realidade. Se tirarmos da realidade as ficções simbólicas que a regulam, perdemos a nossa própria realidade. Eu quero uma terceira pílula. Mas o que é a terceira pílula? Certamente não algum tipo de pílula transcendental que conduza a uma experiência religiosa tipo fast-food, mas uma pílula que me permita perceber, não a realidade por trás da ilusão, mas a realidade contida na própria ilusão. Se algo se torna muito traumático, muito violento, ou está muito cheio de gozo, as coordenadas de nossa realidade se estremecem. Precisamos transformar isso em ficção".

(The pervert´s guide to cinema, Slavoj Žižek)

sábado, 10 de outubro de 2009

É difícil se livrar de um fantasma


"Solaris é a história de Kelvin, um psicólogo que é enviado em um foguete para uma espaçonave em órbita de Solaris, um planeta recém descoberto. Há relatos de coisas estranhas ocorrendo na espaçonave. Todos os cientistas estão enlouquecendo, e então Kelvin descobre o que está acontecendo. Este planeta tem a habilidade mágica de realizar diretamente nossos mais profundos traumas, sonhos, medos e desejos. O lado mais profundo de nossa intimidade. O herói do filme encontra em certa manhã sua falecida esposa, que se suicidara anos antes. Então ele realiza não tanto seu desejo, mas seu sentimento de culpa. Quando o herói é confrontado com esse tipo de clone espectral, de sua esposa morta, apesar de ele aparentar ser profundamente acolhedor, sensível, reflexivo, etc., seu problema é basicamente como se livrar dela. O que torna Solaris tão tocante é que, ao menos potencialmente, o filme nos confronta com essa posição subjetiva trágica da mulher, sua esposa, que sabe que não tem consistência, que não possui um ser completo. Por exemplo, ela tem lapsos de memória porque ela sabe apenas o que ele sabe que ela sabe. Ela é apenas seu sonho realizado. E seu verdadeiro amor por ele é expresso em suas tentativas desesperadas de se eliminar, bebendo veneno ou sei lá o quê, só para deixar o terreno livre, porque ela supõe que ele queira isso. É relativamente fácil se livrar de uma pessoa real. Pode-se abandoná-la, matá-la, etc.Mas de um fantasma, de uma presença espectral, é muito mais difícil se livrar. Ele se fixa em você como uma presença sombria. O que temos aqui é a mitologia masculina mais básica. Esta ideia de que uma mulher não existe por si mesma. Que uma mulher é simplesmente um sonho masculino realizado, ou mesmo, como dizem os anti-feministas radicais, a culpa masculina realizada. A mulher existe porque o desejo masculino tornou-se impuro. Se um homem purifica seu desejo, livra-se do material sujo, de suas fantasias, a mulher deixa de existir. Ao final do filme, assistimos a um tipo de comunhão sagrada, uma reconciliação dele, não com sua esposa, mas com seu pai".

(The pervert´s guide to cinema, Slavoj Žižek)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Alien













"É como se contemplássemos a repetição da famosa cena de “Alien: o oitavo passageiro”, de Ridley Scott. É como se esperássemos que algum tipo terrível de bicho alienígena de feições malignas pulasse para fora. Há um desequilíbrio fundamental, uma distância, entre nossa energia psíquica denominada “libido” por Freud, essa energia vital inesgotável que persiste para além da vida e da morte, e a pobre realidade, finita e mortal do nosso corpo. Não se trata apenas de sermos patologicamente possuídos por fantasmas. A lição que devemos aprender, e que os filmes tentam evitar, é que nós mesmos somos os alienígenas. Nosso ego, nossa função psíquica, é uma força alienígena, que distorce e controla nossos corpos".

(The pervert´s guide to cinema, Slavoj Žižek)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sonhos


"A lógica aqui é estritamente freudiana, ou seja, escapamos para o sonho para evitar um impasse em nossa vida real. Porém, o que encontramos no sonho é ainda mais horrível, de modo que ao final nós literalmente escapamos de sonho de volta para a realidade. No início, os sonhos são para quem não é forte o bastante para suportar a realidade. Ao final, a realidade é para quem não é forte o bastante para enfrentar seus sonhos".

(The pervert´s guide to cinema, Slavoj Žižek)

Imagem: Grete Stern

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Metáfora de nossos infortúnios



"E creio que esta seja a metáfora de nossos infortúnios. Com frequência, quando amamos uma pessoa, não a aceitamos como de fato ela é. Aceitamos essa pessoa desde que ela caiba nas coordenadas de nossa fantasia. Nós confundimos, identificamos erroneamente essa pessoa, por isso, quando descobrimos que estávamos enganados, o amor pode rapidamente se transformar em violência. Não há nada mais perigoso, mais letal para a pessoa amada que ser amada pelo que ela não é, mas por se ajustar a um ideal. Neste caso, o amor é sempre mortificante".

(Slavoj Žižek, extraído de The Pervert´s Guide To Cinema)


Imagem: Fernand Khnopff