"Não existe nada como o ciúme para absorver o ser humano. (...) O sofrimento por ciúme, ao contrário, evoluía no espaço, girava como uma broca em torno de um ponto único. Não havia nele dispersão. (...) Quando ela perdera a mãe, podia escutar música, podia até mesmo ler; quando estava com ciúme, ela não conseguia fazer nada."
(Milan Kundera in: A valsa dos adeuses. Ed. Nova Fronteira, p. 120)
domingo, 16 de outubro de 2011
sábado, 15 de outubro de 2011
da dor
“(...) como é triste lembrar do bonito que algo ou alguém foram quando esse bonito começa a se deteriorar irremediavelmente.”
(Para ler ao som de Vinícius de Moraes. Caio F. in: Pequenas Epifanias. Ed. Agir, p. 122)
(Para ler ao som de Vinícius de Moraes. Caio F. in: Pequenas Epifanias. Ed. Agir, p. 122)
Recado da adorável escritora Ana Letícia Leal - na Estação das Letras
Tratamento literário
Dia 5 de novembro começo uma nova turma de autoficção, na Estação das Letras. A ideia é motivar a escrita a partir de elementos da memória pessoal; o resultado pode ser mais ou menos ficção: o que se quer é usar objetos, imagens ou diários guardados e desencadear um novo texto. Para isto, crio exercícios a partir da minha própria experiência com as letras.
Como a leitura de Memórias da Emília, onde Lobato ironiza, pela voz da boneca, a escrita autobiográfica de homens considerados notáveis. Decidida a escrever suas memórias, a boneca inventa, entre outras, que é grande amiga de Shirley Temple, com quem chegou a estrelar um filme: “São memórias fantásticas”, justifica.[1]
Costumo falar deste livro ao iniciar uma nova turma e, certa vez, uma aluna me perguntou se deveria “dourar a pílula” como Emília, isto é, fazer sua vida parecer mais interessante. Claro que não. Milton Hatoum, por exemplo, diz ter feito o contrário em Dois irmãos.[2] No romance, fatos do passado de sua família foram reinventados para criar uma atmosfera de desilusão, onde tudo daria errado. Já Cristóvão Tezza resolveu escrever O filho eterno quando, já reconhecido pela crítica, pensou consigo mesmo que ainda precisava escrever sobre o fato de ter um filho com síndrome de Down.[3] O livro, apesar de romanceado, não parece atenuar o drama vivido.
Na outra ponta, dois exemplos de memórias não ficcionalizadas senão pelo recorte. O Feito à mão, de Lygia Bojunga, reúne textos relacionados à prática do artesanato pela autora. Na capa, uma tapeçaria feita pela mãe de Lygia. No prefácio, um texto narrando a produção quase artesanal da primeira edição do livro. A jovem Valéria Polizzi, por sua vez, ao compartilhar publicamente a experiência de ter sido uma das primeiras mulheres brasileiras infectadas pelo vírus da aids, parece buscar a sinceridade possível: “Mas acontece que eu era virgem, nunca tinha usado drogas e obviamente não sou gay. O que aconteceu então? É simples, transei sem camisinha”.[4]
No universo da oficina, são considerados de autoficção, portanto, textos situados entre a representação (impossível) na escrita de si e a simulação sem referência pessoal. A crítica é inevitável: admitindo um espectro tão largo, toda literatura seria autoficcional. Isto é, a oficina seria simplesmente “literária”. Sim! Mas entre oficinas “de contos”, “de romances”, “de crônicas”, “de literatura infantil” etc., a especificidade desta é dar a ver a cada aluno os elementos de sua memória que merecem tratamento literário. Sem limite de gênero textual.
[1] LOBATO, Monteiro. Memórias da Emília. São Paulo: Globo, 2007. p.83
[2] Segundo depoimento no projeto Rodas de Leitura, da Estação das Letras, em 14/03/2011.
[3] Segundo depoimento no projeto Rodas de Leitura, da Estação das Letras, em 13/12/2010.
[4] POLIZZI, Valéria Piassa. Depois daquela viagem. São Paulo: Ática, 2002. p.8
Leia mais em: http://diariosbordados.blogspot.com/
Dia 5 de novembro começo uma nova turma de autoficção, na Estação das Letras. A ideia é motivar a escrita a partir de elementos da memória pessoal; o resultado pode ser mais ou menos ficção: o que se quer é usar objetos, imagens ou diários guardados e desencadear um novo texto. Para isto, crio exercícios a partir da minha própria experiência com as letras.
Como a leitura de Memórias da Emília, onde Lobato ironiza, pela voz da boneca, a escrita autobiográfica de homens considerados notáveis. Decidida a escrever suas memórias, a boneca inventa, entre outras, que é grande amiga de Shirley Temple, com quem chegou a estrelar um filme: “São memórias fantásticas”, justifica.[1]
Costumo falar deste livro ao iniciar uma nova turma e, certa vez, uma aluna me perguntou se deveria “dourar a pílula” como Emília, isto é, fazer sua vida parecer mais interessante. Claro que não. Milton Hatoum, por exemplo, diz ter feito o contrário em Dois irmãos.[2] No romance, fatos do passado de sua família foram reinventados para criar uma atmosfera de desilusão, onde tudo daria errado. Já Cristóvão Tezza resolveu escrever O filho eterno quando, já reconhecido pela crítica, pensou consigo mesmo que ainda precisava escrever sobre o fato de ter um filho com síndrome de Down.[3] O livro, apesar de romanceado, não parece atenuar o drama vivido.
Na outra ponta, dois exemplos de memórias não ficcionalizadas senão pelo recorte. O Feito à mão, de Lygia Bojunga, reúne textos relacionados à prática do artesanato pela autora. Na capa, uma tapeçaria feita pela mãe de Lygia. No prefácio, um texto narrando a produção quase artesanal da primeira edição do livro. A jovem Valéria Polizzi, por sua vez, ao compartilhar publicamente a experiência de ter sido uma das primeiras mulheres brasileiras infectadas pelo vírus da aids, parece buscar a sinceridade possível: “Mas acontece que eu era virgem, nunca tinha usado drogas e obviamente não sou gay. O que aconteceu então? É simples, transei sem camisinha”.[4]
No universo da oficina, são considerados de autoficção, portanto, textos situados entre a representação (impossível) na escrita de si e a simulação sem referência pessoal. A crítica é inevitável: admitindo um espectro tão largo, toda literatura seria autoficcional. Isto é, a oficina seria simplesmente “literária”. Sim! Mas entre oficinas “de contos”, “de romances”, “de crônicas”, “de literatura infantil” etc., a especificidade desta é dar a ver a cada aluno os elementos de sua memória que merecem tratamento literário. Sem limite de gênero textual.
[1] LOBATO, Monteiro. Memórias da Emília. São Paulo: Globo, 2007. p.83
[2] Segundo depoimento no projeto Rodas de Leitura, da Estação das Letras, em 14/03/2011.
[3] Segundo depoimento no projeto Rodas de Leitura, da Estação das Letras, em 13/12/2010.
[4] POLIZZI, Valéria Piassa. Depois daquela viagem. São Paulo: Ática, 2002. p.8
Leia mais em: http://diariosbordados.blogspot.com/
Programa bacana!
Livros na Mesa
A Estação das Letras convida para o tradicional evento cultural Livros na Mesa, troca de livros e encontros de leitura com autores.
Dia 29 de outubro
14h30 - Troca de livros
15h - Encontro de leitura: Solar da Fossa, com Toninho Vaz.
Entrada Franca
Estação das Letras
Telefax: (21) 3237-3947
Endereço: Rua Marquês de Abrantes, 177 - Lojas 107/108 Flamengo - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 22230-060
E-mail: estacaodasletras@estacaodasletras.com.br
não se sabe por quê, não se sabe de nada
"As lágrimas dele jorram quase sem parar, não se sabe por quê, não se sabe de nada, se é de raiva, se é de tristeza, é assim, talvez seja a voz que o faz chorar, de raiva, ou de uma outra paixão qualquer, ou de ter que ver, de tempos em tempos, alguma coisa, talvez seja isso, talvez ele chore para não ver, embora pareça difícil atribuir-lhe uma iniciativa dessa magnitude."
(Samuel Beckett in: O inominável. Ed. Globo, p. 162)
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
sobre mitos e bolhas de sabão
"Xavière Gauthier - E talvez, justamente, em Le Marin de Gibraltar, talvez ainda pudéssemos pensar que havia um paraíso, quer dizer, o momento em que essa mulher teria conhecido o marinheiro, que não se sabe se é mítico ou real.
Marguerite Duras - Sim, ela o criou de ponta a ponta.
Xavière Gauthier - Portanto, poderia ser uma ilusão de paraíso; esse homem existe em algum lugar, sabe-se que não será encontrado. Quando ela rejeita os homens, depois de ter feito amor com eles, diz: "Não é aquele". Ela sabe que não o encontrará, mas ainda pensa que ele pode existir.
Marguerite Duras - Ela o colocou ali, na vida, como uma espécie de homem inatingível, de homem-deus."
(Marguerite Duras e Xavière Gauthier in: Boas falas - conversas sem compromisso. Ed. Record, p. 50)
Marguerite Duras - Sim, ela o criou de ponta a ponta.
Xavière Gauthier - Portanto, poderia ser uma ilusão de paraíso; esse homem existe em algum lugar, sabe-se que não será encontrado. Quando ela rejeita os homens, depois de ter feito amor com eles, diz: "Não é aquele". Ela sabe que não o encontrará, mas ainda pensa que ele pode existir.
Marguerite Duras - Ela o colocou ali, na vida, como uma espécie de homem inatingível, de homem-deus."
(Marguerite Duras e Xavière Gauthier in: Boas falas - conversas sem compromisso. Ed. Record, p. 50)
um lugar
"Donde pode nascer o amor? Talvez de uma súbita falha do universo, talvez de um erro, nunca de um ato de vontade."
Marguerite Duras
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Parece que ninguém acredita que é possível ser as duas coisas
"Mulheres bonitas intelectuais sofrem preconceito. Parece que ninguém acredita que é possível ser as duas coisas. A beleza faz com que tratem você de forma mais condescendente. À parte a longa história de disputa entre homens e mulheres, o fato de pertencermos a uma sociedade obcecada por beleza atrapalha. É angustiante, pois, muitas vezes, deixamos de promover o melhor da mulher para falar de sua beleza. Compramos um monte de produtos, perseguimos o glamour. Sempre digo que celebridades vivem em terceira pessoa porque não podem ter personalidade própria. Ao acompanhar as notícias e fotos dos famosos, estamos comprando imagens de uma pessoa que não existe, que não é real."
(Siri Hustvedt, escritora americana)
(Siri Hustvedt, escritora americana)
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Os livros dentro do livro: Entrevista com Antônio Xerxenesky
Entrevista que fiz com o escritor e editor gaúcho Antônio Xerxenesky lá no Amálgama.
Eis: http://www.amalgama.blog.br/10/2011/entrevista-antonio-xerxenesky/
Eis: http://www.amalgama.blog.br/10/2011/entrevista-antonio-xerxenesky/
nada se pode fazer na vida.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
a vida, a literatura
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
coragem, sim. porém...
"Ela devia partir em viagem esta manhã e, desde uma semana, todos os dias, eu me perguntava se teria coragem, de não lhe telegrafar que voltava. Tive essa coragem, mas sentia-me tão infeliz que me julguei a ponto de matar-me."
(Marcel Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 4 - Sodoma e Gomorra.Tradução de Mario Quintana. Ed. Globo, p. 407)
(Marcel Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 4 - Sodoma e Gomorra.Tradução de Mario Quintana. Ed. Globo, p. 407)
do que se desloca
"Xavière Gauthier - De fato, sim, mas você não acha que na vida as pessoas acham que sabem que seguem uma pessoa muito precisa, sem perceber que o que seguem é onde estiver o desejo, onde estiver o amor.
Marguerite Duras - Sim, a pessoa é um suporte passageiro. É isso que você quer dizer?
X.G. - É.
M.D. - Sim, seria sempre o mesmo amor, no início, que se deslocaria, de pessoa em pessoa."
(Marguerite Duras e Xavière Gauthier in: Boas falas - conversas sem compromisso. Ed. Record, p. 92)
Marguerite Duras - Sim, a pessoa é um suporte passageiro. É isso que você quer dizer?
X.G. - É.
M.D. - Sim, seria sempre o mesmo amor, no início, que se deslocaria, de pessoa em pessoa."
(Marguerite Duras e Xavière Gauthier in: Boas falas - conversas sem compromisso. Ed. Record, p. 92)
Era belo como uma vertigem
“A confiança que emanava dos olhos de Bertlef era como um banho maravilhoso e Ruzena desejava que esse olhar, que a inundava e a acariciava, durasse o maior tempo possível.
- É verdade? Sou assim mesmo?
- É. Eu sei.
Era belo como uma vertigem: aos olhos de Bertlef ela se sentia delicada, terna, pura, ela se sentia nobre como uma rainha. De repente, era como se estivesse recheada de mel e de plantas perfumadas. Ela se achava adorável. (Meu Deus! Nunca lhe tinha acontecido ainda achar-se tão deliciosamente adorável.)"
(Milan Kundera in: A valsa dos adeuses. Ed. Nova Fronteira, p. 164)
- É verdade? Sou assim mesmo?
- É. Eu sei.
Era belo como uma vertigem: aos olhos de Bertlef ela se sentia delicada, terna, pura, ela se sentia nobre como uma rainha. De repente, era como se estivesse recheada de mel e de plantas perfumadas. Ela se achava adorável. (Meu Deus! Nunca lhe tinha acontecido ainda achar-se tão deliciosamente adorável.)"
(Milan Kundera in: A valsa dos adeuses. Ed. Nova Fronteira, p. 164)
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