terça-feira, 5 de abril de 2011

Amor, tempo e Drummond

Dancing lady

AMOR E SEU TEMPO


Amor é privilégio de maduros

estendidos na mais estreita cama,

que se torna a mais larga e mais relvosa,

roçando, em cada poro, o céu do corpo.


É isto, amor: o ganho não previsto,

o prêmio subterrâneo e coruscante,

leitura de relâmpago cifrado,

que, decifrado, nada mais existe


valendo a pena e o preço do terrestre,

salvo o minuto de ouro no relógio

minúsculo, vibrando no crepúsculo.


Amor é o que se aprende no limite,

depois de se arquivar toda a ciência

herdada, ouvida. Amor começa tarde.

(Carlos Drummond de Andrade)

singulares e inevitáveis atalhos

The Bridges of Madison County
"(...) uma pessoa jamais se assemelha a um caminho reto, mas espanta-nos com os seus singulares e inevitáveis atalhos de que os outros não se apercebem e por onde nos é penoso ter de passar.'

(Marcel Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 2 - À sombra das raparigas em flor.Tradução de Mario Quintana. Ed. Globo, p. 555) 

É tão difícil escapar dos sonhos que os outros têm quanto a nós

Ellen Von Unwerth
"Meu pai uma vez me disse que temia a imaginação de minha mãe. "Ela tem vivido", disse ele, "numa casa totalmente construída pelo sonho que faz de mim. Será que algum dia escaparei?" É tão difícil escapar dos sonhos que os outros têm quanto a nós. É uma forma de assassinato."

(Josephine Hart in: Abandono. Ed. Record, p. 143) 

quero uma verdade inventada

"Não quero a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada."

(Clarice Lispector in: Água Viva. Ed. Nova Fronteira, p. 22)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

mas como?

"Conhecemos o caráter dos que nos são indiferentes, mas como poderíamos apanhar o de uma criatura que se confunde com a nossa vida, que em breve não mais separamos de nós mesmos e sobre cujas motivações não cessamos de fazer ansiosas hipóteses, perpetuamente retocadas?"

(Marcel Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 2 - À sombra das raparigas em flor.Tradução de Mario Quintana. Ed. Globo, p. 553) 

Mas eu me importo com as pessoas! - Beckett

"O engraçado foi quando um acadêmico americano falou de Beckett: "Ele não está nem aí para as pessoas. Ele é um artista.". Aí Beckett levantou a voz no meio do alvoroço do chá da tarde e gritou: "Mas eu me importo com as pessoas! Eu me importo!"

(James e Elizabeth Knowlson (org.), in: Beckett Remembering: Remembering Beckett)

Escrever e Marguerite Duras


Ethan Jack Harrington
“Escrevia todas as manhãs. Mas sem horário certo. Nunca. Exceto quanto à cozinha. Sabia quando precisava vir porque a panela estava fervendo ou para que a comida na queimasse. Quanto aos livros, também era assim. Juro. Tudo, eu juro. Nunca menti em um livro. Nem na vida. Exceto para os homens. Nunca. E isso porque minha mãe me assustou com a mentira de que as crianças mentirosas acabavam sendo mortas.”

 (Marguerite Duras in: Escrever. Ed. Rocco, p. 31)

domingo, 3 de abril de 2011

exceto as poucas verdades (Proust)

The blind side
"Não sabia nada, nesse sentido integral em que nada saber equivale a não compreender nada, exceto as poucas verdades que o coração pode alcançar diretamente."

(Marcel Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 2 - À sombra das raparigas em flor.Tradução de Mario Quintana. Ed. Globo, p. 274)

a assombrosa capacidade


“Laura, que tinha desenvolvido a assombrosa capacidade de falar muito e não dizer nada.”

(Carola Saavedra in: Toda terça. Ed. Companhia das Letras, p.141)

Que fazer? Qual gesto?

"Eu estava dentro de uma cruel iluminação, sob o impiedoso olhar das coisas. Como sabem ler todos os indícios, os pensamentos secretos, condenar-me-iam pela menor intenção. No entanto, eu precisava de amor. Que fazer? Qual gesto? Muita dor permanecia contida em mim. Se eu lhe abrisse uma única e diminuta comporta, sua onda iria precipitar-se em meus gestos e cumprir quem sabe o quê."

(Jean Genet in: Pompas fúnebres. Ed. Nova Fronteira, p. 43)

mesmo quando já não se achava comigo, sentia-me ligado a ela

"Tão poderosa, tão incisiva era a ação da sua presença, que mesmo quando já não se achava comigo, sentia-me ligado a ela; ando, e meus passos como que correspondem a uma música oculta que nos une, e então sei que ela me pertence, como eu a ela, e que isto é uma lei e que nenhuma força poderia nos subtrair. Ah, como éramos fortes, como éramos poderosos em nosso entendimento."


(Lúcio Cardoso in: Crônica da casa assassinada. Ed. Record, p.344)

sábado, 2 de abril de 2011

o que tornava sua felicidade quase dolorosa

"Na verdade o seu amor era um amor atormentado. Vivia sob a impressão de que em breve sobreviria um acontecimento que o arruinaria para sempre. Ela não tinha, como Cira, como outras tantas mulheres, a consciência de sua força sobre os sentimentos de Pedro - pelo contrário, não possuíra nenhuma segurança, o que tornava sua felicidade quase dolorosa."

(Lúcio Cardoso in: A luz no subsolo. Ed. Expressão e cultura, p. 57)

Amor foge a dicionários


As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,

Não precisas ser amante,

e nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

e com amor não se paga.


Amor é dado de graça,

é semeado no vento,

na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários

e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo

bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,

não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,

feliz e forte em si mesmo.


Amor é primo da morte,

e da morte vencedor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante de amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

esse quieto que não significa a paz (Lúcio Cardoso)


"Quem não conhece a tristeza não pode saber o que era esse esvaziamento do ser, essa ausência de si mesmo, esse quieto que não significa a paz, mas o sossego de regiões condenadas, e que apesar de tudo ainda não conhecem a morte."

(Lúcio Cardoso in: Crônica da casa assassinada. Ed. Record, p.363)

A cada manhã a mesma angústia


“O medo estava espalhado por todas as paredes da casa. A cada manhã a mesma angústia, uma vontade de que o tempo passasse logo, de que o tempo não passasse.”

(Tatiana Salem Levy in: A chave da casa. Ed. Record, p. 30)