domingo, 10 de abril de 2011

Quer ser, mas...

"O neurótico obsessivo quer ser o máximo, mas na metade do tempo se acha uma merda".

(Maria Anita Carneiro, psicanalista - aula de Estruturas Clínicas do mestrado - 08/04/11)

e meio repentinamente olhou de outro jeito

"Nesse instante havia tanta doçura no olhar do príncipe, seu sorriso estava tão isento de qualquer matiz, por ínfimo que fosse, de antipatia oculta, que o general parou de súbito e meio repentinamente olhou de outro jeito para o seu visitante; toda a mudança do olhar se deu em um abrir e fechar de olhos."

(Fiódor Dostoiévski in: O idiota. Tradução de Paulo Bezerra. Ed. 34, p. 47)

O que já é muito

"Você não pode salvar as pessoas. Você pode tentar ajudar que elas queiram se salvar." -> sobre o trabalho do psicanalista.

(Maria Anita Carneiro, psicanalista - aula de Estruturas Clínicas do mestrado - 08/04/11)

sábado, 9 de abril de 2011

Também não existia algo como uma lembrança inócua

"O Esquecimento Profundo não existia. Clarice sabia. Nunca fora capaz de esculpi-lo - de reivindicá-lo para si. Também não existia algo como uma lembrança inócua, uma ferida cauterizada. Um bicho sem as presas e sem os dentes, sendo, apenas. A pacificação do passado com tudo aquilo que ele comportava. Existia uma cidade na memória de Clarice, uma cidade destruída pela guerra ou por terremoto. Agora, havia construções novas e o entulho já fora removido e os mortos, enterrados - porém, haveria como reverter aquela memória? Como atualizá-la?"

(Adriana Lisboa in: Sinfonia em branco. Ed. Rocco, p. 214)

O futuro da psicanálise

The virgin suicides
"A ideia é que a subjetividade se acabe e seremos todos felizes com os livros de autoajuda. A psicanálise tem muito futuro porque o sujeito sempre será infeliz."


(Maria Anita Carneiro, psicanalista - aula de Estruturas Clínicas do mestrado - 08/04/11)

por mais que você planeje, projete e conspire...

Lac aux dames
"Por mais que você saiba, por mais que você pense, por mais que você planeje, projete e conspire, você não é superior ao sexo. O sexo é um jogo muito arriscado. Um homem não teria dois terços dos problemas que tem se não se metesse em aventuras para conseguir foder. É o sexo que perturba nossas vidas naturalmente ordenadas. (...) Todas as vaidades, sem excessão, voltam para zombar de você".

(Philip Roth in: O animal agonizante. Ed. Companhia das Letras, p. 34)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

em que sentia que minha vida podia ser feliz...

"(...) no momento em que eu experimentava um prazer exepcional, em que sentia que minha vida podia ser feliz... (...) como aderia inteiramente ao odor de mulher que estava na mesa próxima... (...) como estava colado à sensação presente... (...) abelha entorpecida pelo fumo do tabaco, que já não tem o empenho de preservar a provisão de seus esforços acumulados e a esperança de sua colméia."

(Marcel Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 2 - À sombra das raparigas em flor.Tradução de Mario Quintana. Ed. Globo, p. 456)

Clarice crônicas - minha resenha no Amálgama


Resenha minha de Clarice Crônicas

quinta-feira, 7 de abril de 2011

...


“Percebia que ela como todo mundo não era tomada senão pela marca que deixam as pessoas passando em nossa vida.”

(Lúcio Cardoso in: A luz no subsolo. Ed. Brasiliense, p. 132)

por ser agressivo, por ser louco e por ser comum

Un amour de Swann
"Como ciumento sofro quatro vezes: porque me reprovo por sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade; sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum".

(Roland Barthes in: Fragmentos de um discurso amoroso)

como se a dor fosse catalogada

Volver
"Ah, com que persistência se é o mesmo indivíduo, de que maneira idêntica o sofrimento se impõe, como se a dor fosse catalogada, e por desgraça nos tombasse em cima sempre do mesmo modo. E era tão absolutamente igual ao que sempre fora, que levantei a cabeça, surpreso de que tivesse me compreendido."

(Lúcio Cardoso in: Crônica da casa assassinada. Ed. Record, p.359-360)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ninguém sabe despedir-se de nada - Inês Pedrosa

"(...) mas é a sua alma de navegadora, que está trazendo estas ondas de felicidade quotidiana para dentro do deserto da minha vida. Não se arrependa de ficar, Clara querida. Precisa mesmo de se despedir desse Sebastião? Para quê carregar essa nossa curta existência com despedidas? Ninguém sabe despedir-se de nada - não inventámos a eternidade para evitarmos as despedidas?"

(Inês Pedrosa in: A eternidade e o desejo. Ed. Alfaguara, p. 166)

há uma coisa para preencher a diferença

"E ainda nos casos em que a multiplicação dos poucos méritos pessoais pelo amor-próprio não baste para assegurar a cada um a dose de felicidade, superior à concedida aos demais que lhe é necessária, há uma coisa para preencher a diferença: a inveja. E se a inveja se expressa em frases desdenhosas, cumpre traduzir "não quero conhecê-lo" por "não posso conhecê-lo". Esse o sentido intelectual da frase, mas o seu sentido passional é realmente "não quero conhecê-lo". Sabe-se que isso não é verdade; e no entanto não é dito por mero artifício, é dito porque é sentido, e já isto basta para anular a distância, isto é, para tornar feliz."

(Marcel Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 2 - À sombra das raparigas em flor.Tradução de Mario Quintana. Ed. Globo, p. 415-416) 

dos avessos



"Teresa de verdade virou de mentirinha, foram tantos avessos e direitos que perdi a conta, cheguei à conclusão de que ela era double-face."

(Adriana Lisboa in: Um beijo de colombina. Ed. Rocco, p. 66)

não tinha o hábito de pensar as coisas até as últimas consequências

Elegy

"Não havia o menor vestígio de sadismo em Consuela. Nem mesmo o sadismo da indiferença, que muitas vezes acompanha a perfeição naquele grau. Ela era careta demais para ser cruel, bondosa demais. (...) Por sorte, Consuela, como a maioria das pessoas, não tinha o hábito de pensar as coisas até as últimas consequências e, embora ela tivesse conseguido fazer acontecer tudo o que houvera entre nós, jamais compreendeu tudo o que havia acontecido. Se tivesse compreendido, e se, além disso, tivesse a menor tendência a gostar de atormentar um homem alucinado de paixão, eu teria sido devastado, inteiramente posto a pique por minha própria Baleia Branca."

(Philip Roth in: O animal agonizante. Ed. Companhia das Letras, p. 104)