"Por isso não se deve temer no amor, como na vida habitual, tão-somente o futuro, mas também o passado, o qual não se realiza para nós muitas vezes senão depois do futuro, e não falamos apenas do passado que só se nos revela mais tarde, mas daquele que conservamos há muito tempo em nós e que de repente aprendemos a ler".
(Marcel Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 5 - A Prisioneira. Tradução de Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar. Ed. Globo, p.69)
quinta-feira, 25 de junho de 2015
quarta-feira, 24 de junho de 2015
dos excessos
Mas Walter sempre tivera uma capacidade especial de sentir tudo intensamente. Nunca conseguia o que desejava porque sentia tudo em excesso. Parecia ter em si um amplificador muito melodioso para as pequenas felicidades e infelicidades da vida.
Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 138.
Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 138.
quinta-feira, 18 de junho de 2015
Quando um cortejo se dispersa
Algo imponderável. Um presságio. Uma ilusão. Como quando um imã larga a limalha e esta se mistura toda outra vez. Como quando fios de novelos se desmancham. Quando um cortejo se dispersa. Quando uma orquestra começa a desafinar.
Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 77.
Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 77.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
náusea universal
Estava sempre disposto a amar todas essas manifestações de vida. O que nunca conseguia era amá-las sem reservas, como exigia a sensação de bem-estar social; há muito pairava sobre tudo o que ele fazia e vivia um sopro de repulsa, uma sombra de impotência e solidão, uma náusea universal, para a qual não conseguia encontrar nenhuma inclinação compensadora. Por vezes, sentia-se como se tivesse nascido com um talento para o qual não havia objetivo no presente.
Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 79.
Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 79.
terça-feira, 16 de junho de 2015
algo falta
Como acontecera na primeira viagem à Europa, teve a impressão de que algo faltava à cena: altercações, alguma desavença, uma dose de rancor, gritos, alguma irregularidade que aguçasse um pouco essa espécie de doçura arredondada, protetora...
Alan Pauls in: O passado. Cosac Naify, p. 51.
Imagem: Patricia Highsmith
Alan Pauls in: O passado. Cosac Naify, p. 51.
Imagem: Patricia Highsmith
sexta-feira, 12 de junho de 2015
o sombrio encanto
Para seu amigo, noites como aquela pareciam folhas arrancadas, animadas por toda a sorte de ideias e fantasias, mas mumificadas como tudo que é retirado de um contexto; e cheias daquela tirania do que se fixou eternamente e que se constitui o fantasmagórico encanto dos quadros vivos, como se tivessem dado um sonífero à vida, e agora ela estivesse parada ali, hirta e cheia de alusões, com contornos nítidos, mas monstruosamente desprovida de sentido no quadro geral.
Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 43.
Imagem: Jean-Pascal Imsand
Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 43.
Imagem: Jean-Pascal Imsand
quinta-feira, 11 de junho de 2015
tchau
Depois afastou-se, como uma pessoa que aprendeu a renunciar...
Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 31.
Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 31.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
do perdão
O que eu fiz de errado eu carrego comigo. Nada some porque a gente decide, porque a gente quer. Ninguém pode me tirar o mal que eu fiz pros outros. A gente precisa disso pra ser uma pessoa melhor. Perdoar é como fingir que não existe. Mas a vida é resultado do que a gente fez. Não faz sentido agir como se algo não tivesse acontecido.
Perdoar não é isso! Tu é maluco! Perdoar é livrar as outras pessoas da culpa. E fazendo isso tu também te liberta. Não é fingir que não existiu. É uma doação, uma entrega. É uma escolha que se faz. Precisa de coragem, mas vale a pena.
Não é uma escolha. Não existe escolha.
Não?
No fundo não.
Daniel Galera in: Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 419.
www.vemcaluisa.blogspot.com.br
Perdoar não é isso! Tu é maluco! Perdoar é livrar as outras pessoas da culpa. E fazendo isso tu também te liberta. Não é fingir que não existiu. É uma doação, uma entrega. É uma escolha que se faz. Precisa de coragem, mas vale a pena.
Não é uma escolha. Não existe escolha.
Não?
No fundo não.
Daniel Galera in: Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 419.
www.vemcaluisa.blogspot.com.br
terça-feira, 9 de junho de 2015
do não dizer
Ninguém diz nada de um jeito que diz muita coisa.
Daniel Galera in: Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 65.
Daniel Galera in: Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 65.
domingo, 7 de junho de 2015
se
Quando a gente se conheceu tu tinha vinte e um anos e era só isso que tu queria. Mas foi gastando. Talvez se eu tivesse a cabeça um pouco mais aberta. Se eu lesse os livros que tu me dava e gostasse. Se eu mudasse com o tempo. Se me interessasse pelo teu mundo. Se eu fosse um pouco mais parecido com alguém que eu não era.
Daniel Galera in:Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 416.
Daniel Galera in:Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 416.
sábado, 6 de junho de 2015
Ela não responde mas seu olhar se reconfigura. Agora é um olhar de despedida no qual se entrevê que ela não está se despedindo propriamente dele, porque ainda vão se ver por aí, e sim de um outro mundo idêntico a esse exceto pelo detalhe de que eles teriam ficado juntos, teriam se apaixonado e teria durado, um mundo que foi imaginado em detalhes e acalentado por algum tempo e do qual ela só está se desapegando nesse instante. Ele sente uma tristeza enorme. De repente a quer de novo. É como se o apego àquele outro mundo saltasse do corpo dela para o dele como um espírito invasor. Talvez ele esteja se sentindo agora exatamente como ela se sentia um minuto antes.
Daniel Galera in:Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 178.
Daniel Galera in:Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 178.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
desliga a tv e leia
Uma vez livre da efêmera dependência da TV, muitas pessoas acabam descobrindo que adoram passar o tempo lendo. Digo que desligar aquela máquina barulhenta vai melhorar não só sua escrita, mas também sua qualidade de vida.
Stephen King in: Sobre a escrita. Suma de letras, p. 129.
Stephen King in: Sobre a escrita. Suma de letras, p. 129.
quinta-feira, 4 de junho de 2015
da escrita
Quando você se afasta da regra "escreva sobre o que você sabe", a pesquisa se torna inevitável, e pode contribuir muito para a história. Só não deixe que o rabo acabe abanando o cachorro; lembre-se, você está escrevendo um romance, não um artigo acadêmico. A história sempre vem em primeiro lugar.
Stephen King in: Sobre a escrita. Suma de Letras, p. 196-197.
Stephen King in: Sobre a escrita. Suma de Letras, p. 196-197.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
da leitura
Nós lemos para experimentar a mediocridade e a podridão indiscutíveis; essa experiência nos ajuda a reconhecer esse tipo de coisa quando ela começa a se infiltrar em nosso próprio trabalho e a nos livrar dela. Também lemos para nos compararmos aos bons e aos grandes, para ter uma noção de tudo o que pode ser feito. E também lemos para ter contato com diferentes estilos.
Stephen King in: Sobre a escrita. Suma de letras, p. 128.
Stephen King in: Sobre a escrita. Suma de letras, p. 128.
terça-feira, 2 de junho de 2015
faz parte do mundo
A composição toda remete a algo que ele já teve e de que não sabe dizer se sente falta. Sente e não sente ao mesmo tempo. É menos a lembrança melancólica de uma ausência e mais um atestado reconfortante de que isso existe e segue fazendo parte do mundo.
Daniel Galera in:Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 212.
Daniel Galera in:Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 212.
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