A poesia é o trocadilho dos anjos.
Paulo Mendes Campos in: De um caderno cinzento. Companhia Das Letras, p. 63.
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sexta-feira, 2 de outubro de 2015
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
da arte
A arte é uma rede de comunições no tempo; há subestações de alta potência, Homero, Dante, Shakespeare, Bach, Goya... E há fiações, fusíveis, parafusos, isolantes: singelos e indispensáveis.
Paulo Mendes Campos
Imagem: Anna Eva Bergman.
Paulo Mendes Campos
Imagem: Anna Eva Bergman.
domingo, 23 de agosto de 2015
do mar
Achava bonito, por uma ressonância simbólica e pessimista, o verso de García Lorca: "También se muere el mar". Pois li há pouco, numa entrevista de Cousteau, o grande oceanógrofo francês, esta afirmação deduzida de provas científicas: "O mar está morrendo".
Paulo Mendes Campos in: De um caderno cinzento. Companhia Das Letras, p. 97.
Paulo Mendes Campos in: De um caderno cinzento. Companhia Das Letras, p. 97.
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
dos ponteiros do relógio
Perdemos a inocência quando aprendemos a olhar as horas do relógio. O tempo do adulto é um imposto cobrado pela inteligência do mundo, um freio de que fomos libertos na infância e de que podemos nos livrar ainda em estados excepcionais de paixão, de contemplação puríssima, de intoxicação e de loucura.
Paulo Mendes Campos in: De um caderno cinzento. Companhia Das Letras, p. 101.
Paulo Mendes Campos in: De um caderno cinzento. Companhia Das Letras, p. 101.
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
do sabiá
Sabiá. Sabiá é um bom sujeito. Sabiá, se ele não fosse passarinho, era amigo da gente, aposto. Quando ele come fruta não é como sanhaço que come sem vergonha. Sabiá não, só não pede licença porque não sabe. E gosta também de andar no chão, passeando, como se não soubesse voar. É muito delicado e não gosta de humilhar ninguém. Sabiá foge quando a gente chega perto. É claro que foge. Mas é tão devagarzinho como se estivesse pedindo desculpa.
Paulo Mendes Campos in: De um caderno cinzento. Companhia Das Letras, p. 86.
www.vemcaluisa.blogspot.com.br
Paulo Mendes Campos in: De um caderno cinzento. Companhia Das Letras, p. 86.
www.vemcaluisa.blogspot.com.br
sábado, 25 de julho de 2015
O presente é pura tensão, a vizinhança da ansiedade
Teu movimento é a tua saúde. Se a flecha não parte, és tu que ficas. É indispensável que a flecha esteja a caminho do alvo que, bem ou mal, miraste. Tua mente se deteriora se não te comprometes com o futuro. O resto é supérfluo. O passado é só a certeza de que existe no futuro uma outra janela, uma outra pessoa, melhor ou pior, outro tipo de amor ou tédio. O presente é pura tensão, a vizinhança da ansiedade, caso a flecha não parta. Se afrouxares a corda do presente, adoecerás em ti mesmo. Portanto, faz projetos. Planeja a viagem; muda de casa; marca hora no dentista.
Paulo Mendes Campos in: De um caderno cinzento. Companhia Das Letras, p. 25.
Paulo Mendes Campos in: De um caderno cinzento. Companhia Das Letras, p. 25.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
destemida e doce
“Gostava das pessoas erradas, consumidas pela paixão, admirava São Paulo e Santo Agostinho, acreditava que era preciso se fazer violência para entrar no reino celeste.
Poucas horas antes de morrer, pediu um conhaque e sorriu, destemida e doce, como quem vai partir para o céu. Santificara-se”.
(Paulo Mendes Campos in: Cisne de feltro - crônicas autobiográficas. Crônica: Maria José. Ed. Civilização Brasileira, p. 100)
Poucas horas antes de morrer, pediu um conhaque e sorriu, destemida e doce, como quem vai partir para o céu. Santificara-se”.
(Paulo Mendes Campos in: Cisne de feltro - crônicas autobiográficas. Crônica: Maria José. Ed. Civilização Brasileira, p. 100)
sábado, 3 de novembro de 2012
A vida - fora os erros de revisão.
"(...) O amor - fora do alcance da razão.
(...) A vida - fora o que não coube.
(...) O amor - fora de si.
(...) O vida - fora de ordem.
(...) O amor - do lado de fora
(...) O amor - fora o perigo duma recaída.
(...) A vida - for o que der e vier.
(...) O amor - fora o que passou despercebido.
(...) A vida - fora o que a gente esqueceu
A morte - fora de cogitação.
O amor - fora o que nunca se diz a ninguém.
(...) O amor - fora as noites passadas em claro.
(...) O amor - fora o trabalho que dá.
(...) A vida - fora os erros de revisão.
(...) A vida - fora certas crises de neurastenia.
(...) O amor - fora o que ela/ele não disse.
(...) A vida - fora o que vem nas entrelinhas.
O amor - fora o que se perdeu.
A vida - fora o tempo que se passa dormindo.
O amor - fora o tempo que se passa dormindo.
(...) A vida - fora os emolumentos.
O amor - fora algum reajuste posterior.
(...) O amor - nove foras nada.
(...) O amor - fora o que aconteceu antes.
(Paulo Mendes Campos in: O amor acaba - crônicas líricas e existenciais. Crônica: A vida, a morte, o amor, o dinheiro. Ed. Civilização Brasileira, p. 237-238)
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sexta-feira, 8 de junho de 2012
Contigo a parte de mim mais infeliz e fiel
"Já não entendo teu clamor, ó confusa adolescência. Morreu contigo o sol denso da tragédia. Morreu contigo o pássaro rubro amigo de meu ombro. Morreu contigo meu inconformismo cruel, minha dignidade na desgraça. Contigo a parte de mim mais infeliz e fiel."
(Paulo Mendes Campos in: Cisne ne feltro - crônicas autobiográficas. Crônica: Vídeo tape da insônia. Ed. Civilização Brasileira, p. 134)
(Paulo Mendes Campos in: Cisne ne feltro - crônicas autobiográficas. Crônica: Vídeo tape da insônia. Ed. Civilização Brasileira, p. 134)
terça-feira, 5 de junho de 2012
Que se passa no coração entre duas pancadas? - Paulo Mendes Campos
"Matei várias mortes. Muitas delas eram diáfanas como as asas da mais tênue borboleta; não existem palavras para relatar esses duelos microscópicos, instantâneos, sutis. Que se passa no coração entre duas pancadas?
Há no entanto mortes grosseiras que entram em nós, mortes rudes..."
(Paulo Mendes Campos in: O amor acaba - crônicas líricas e existenciais. Crônica: Encenação da morte. Ed. Civilização Brasileira, p. 159
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Pequenas ternuras - Paulo Mendes Campos
“(...) quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; (...) quem se se detém no caminho para contemplar a flor silvestre; (...) quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso amoroso; quem procura numa cidade os traços da cidade que passou, (...) quem jamais negligencia os ritos da amizade; (...) quem não se envergonha da beleza do pôr-do-sol ou da perfeição de uma concha; (...) quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; (...) todos eles são presidiários da ternura e, mesmo aparentemente livres como os outros, andarão por toda parte acorrentados, atados aos pequenos amores da grande armadilha terrestre”.
(Paulo Mendes Campos in: O amor acaba - crônicas líricas e existenciais. Crônica: Pequenas ternuras. Ed. Civilização Brasileira, p. 147-148)
(Paulo Mendes Campos in: O amor acaba - crônicas líricas e existenciais. Crônica: Pequenas ternuras. Ed. Civilização Brasileira, p. 147-148)
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
...
"Durante a viagem até o gerente, fui lendo. Não gosto de ir a um banco sem levar livro de poesia. Dá mais coragem."
(Paulo Mendes Campos in: O amor acaba - crônicas líricas e existenciais. Crônica: O acidente. Ed. Civilização Brasileira, p. 159)
(Paulo Mendes Campos in: O amor acaba - crônicas líricas e existenciais. Crônica: O acidente. Ed. Civilização Brasileira, p. 159)
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Porque o excesso de consciência é como o excesso de luz
"É que o adolescente não é um poeta, é uma vítima da poesia. A lógica com que procurava salvar do naufrágio o meu passado levou-me ao limite extremo do abismo lógico. Singular é que o presente só me interessava pela sua possibilidade de converter-se em passado, e assim, aparentemente, o exercício de viver só poderia ser para mim um cansativo comércio com a morte. Perdendo o minuto que passa, podia preservá-lo, recolhê-lo entre minhas lembranças, e só então aprender a sua fulgurante autenticidade. Confesso que mesmo o futuro, o que ainda não se transfigurou em saudade, pesava-me como se fosse vida desperdiçada. (...) Porque o excesso de consciência é como o excesso de luz; o fulgor obsessivo do presente fatiga alguns espíritos. Os objetos que se colocam em meu ângulo de visão, por simples e familiares que sejam, me obrigam a um excesso de concentração mais do que fisicamente doloroso. É como se estivesse no teatro, assistindo a uma peça conhecida, justamente no momento em que nos crispamos para ver o personagem praticar o seu irreparável erro. (...) O passado é o espaço de cada um. O que aconteceu é tarefa já cumprida, vida que se obteve de percepções ilusórias, reino tranqüilo dos emotivos. Eis por que estremeço todas as manhãs, quando o mundo se impõe a mim outra vez. No decorrer de um dia há ciladas suficientes para que o passado de um homem se transforme com violência. Preciso viver com atenção, escolher os meus passos, trocar este gesto por aquele, dizer esta e não aquela palavras, silenciar, ver, sentir para não comprometer o que vou inventando para a memória. Admito no entanto que às vezes o presente já tenha um suavidade de lembrança."
(Paulo Mendes Campos in: O amor acaba - crônicas líricas e existenciais. Crônica: O reino das lembranças. Ed. Civilização Brasileira, p. 223-224)
(Paulo Mendes Campos in: O amor acaba - crônicas líricas e existenciais. Crônica: O reino das lembranças. Ed. Civilização Brasileira, p. 223-224)
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Meu verso se faz trôpego e medido - PMC
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| Bill Brandt |
(Paulo Mendes Campos in: O amor acaba - crônicas líricas e existenciais. Crônica: Tens em mim tua vitória. Ed. Civilização Brasileira, p. 263-264)
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Byron, aos 23 anos - Paulo Mendes Campos
"(...) Paulo teve um início muito promissor. "Na carreira literária, a glória está no começo", ele ponderou mais tarde. "O resto da vida é aprendizado intensivo para o anonimato, o olvido". De fato, embora fosse um poeta lírico de rara qualidade, Paulo Mendes Campos nunca desfrutou de verdadeira fama. Mas quando Clarice o conheceu, ele era, nas palavras de outro amigo, "Byron, as 23 anos".
(Benjamin Moser in: Clarice,
Ed. Cosacnaif, p. 246)
P.S.: para quem não sabe, Paulo foi a grande paixão (realizada, porém com impossibilidades) da vida de Clarice Lispector. Ah, e se algum leitor pensar: - Mas e o Lúcio Cardoso?
Lúcio Cardoso era gay.
Paulo Mendes Campos não era gay - só era casado.
Este post explica um pouco.
(Benjamin Moser in: Clarice,
Ed. Cosacnaif, p. 246)
P.S.: para quem não sabe, Paulo foi a grande paixão (realizada, porém com impossibilidades) da vida de Clarice Lispector. Ah, e se algum leitor pensar: - Mas e o Lúcio Cardoso?
Lúcio Cardoso era gay.
Paulo Mendes Campos não era gay - só era casado.
Este post explica um pouco.
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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
No entanto...
sábado, 29 de maio de 2010
DEFINITIVO

"Ela o amou até morrer", sua amiga Rosa Cass lembrava. Mesmo que o caso não tenha durado muito e que Paulinho tenha optado pela esposa e pela família, para Clarice não foi fácil aceitar. Dali a mais de uma década escreveu um conto... (...) Num tom mais lírico, Clarice podia estar pensando em Paulinho quando escreveu: "Às vezes no amor ilícito está toda a pureza do corpo e alma, não abençoado por um padre, mas abençoado pelo próprio amor".
(Sobre o relacionamento de Clarice Lispector com Paulo Mendes Campos. Clarice, de Benjamin Moser, p. 370)
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