“O amor não termina - esquece de começar. (...) O amor que não esqueço é justamente o que não se sei os motivos do seu fim. O amor que permanece é aquele que não sei como começou. (...) Provoco mais ausências do que presenças. Minha profissão é criar ausência. (...) É mais difícil virar a página de um livro velho. (...) Quem ama sem violência não conhece a ternura para consolar. Há dias em que todas as estações se encontram. (...)A realidade possível vira prosa; a realidade impossível é poesia. (...)O fundo do poço é água voando. Brigo com os fatos para favorecer a imaginação.”
(Crônica "Chaleira do mar", in: O Amor Esquece de Começar, Carpinejar, p. 93-94)
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domingo, 6 de maio de 2012
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Acerca dos aromas: Carpinejar
“O cheiro é mais do que um verbo e sua conjugação errada; é um nome. Um desenho sem chão porque a árvore se contenta em subir para o sol.”
(Carpinejar in: O amor esquece de começar. Crônica: O cheiro. Ed.Bertrand Brasil, p. 124)
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
O desejo é não saber o que vai acontecer depois
“(...) A distância mais difícil de ser superada é a do costume: a psicológica, a que não permite abraços efusivos e brincadeiras, que paralisa e planifica os sentimentos com os anos de convivência.
(...) Sem reagir à vida, não há experiência, há acomodação. Não é de estranhar que o medo de ver um nascimento é maior do que ver uma morte.
(...) O desejo é não saber o que vai acontecer depois.”
(Carpinejar in: O amor esquece de começar. Crônica: Distância e distanciamento, Ed.Bertrand Brasil, p. 42-43)
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
O amor é insaciável (Carpinejar)

“Não existe amor errado. Existe somente amor que não se convenceu.
(...) Não concordo com o hábito de ser pessimista para não sofrer depois. O pessimista sofre duas vezes, antecipando e cumprindo. O otimista, no máximo, sofre uma única vez. E nem sempre se aprende com o sofrimento. Já vi gente que sofre barbaridade e não muda nada. Sofre e termina mais egoísta, mais cético, mais isolado, mais frio. Pode-se aprender com alegria, não? A alegria ensina, ainda mais depois das dificuldades.
(...) O amor é insaciável. Quanto mais obtém mais quer. Diferente da amizade que não aposta alto e se contenta em proteger o que obteve em vida. A amizade larga a roleta ao empenhar um único lance. O amor não. O amor se endivida até pedir falência. O amor tem uma fome obscena, pois devora a própria memória se necessário, devora a própria imaginação se preciso.”
(Carpinejar in: O amor esquece de começar. Crônica: Bodas ou apocalipse? Ed.Bertrand Brasil, p. 98-99)
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
deixe apenas

“(...) Pode me tirar a compreensão, o perdão, os ossos contados como dias nas paredes da carne. (...) Pode me tirar o egoísmo e a paixão, a cultura que adquiri às pressas, a serenidade para julgar, a severidade do combate. Podes me tirar as metáforas, a fuga, minha saída do sangue. (...) Pode me tirar os excessos do mínimo, o idioma, meu receio de ficar sozinho. (...) Pode me tirar o colo, a sesta, a audição das escadas. Podes me tirar o desejo e pôr a inquietação em seu lugar. (...) Pode me tirar a liberdade que confundi com justiça porque nenhuma das duas se conheceu a tempo. (...) Não há castigo infinito. Não há dor infinita. Um dia a gente termina para começar, começa para terminar, refaz o percurso como se nada tivesse acontecido antes. Deixe-me apenas uma cadeira de palha, amarela, para olhar com piedade o que fui e me deslumbrar com as ruínas."
(Carpinejar)
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Exigimos - Carpinejar

"Exigimos muito de quem amamos. Vejo sinceramente que exigimos aquilo que não exigimos nem da gente.
(...) Uma pausa em silêncio para remontar as idéias e já estamos sendo inquiridos pela estranheza. Repetir mais de uma vez um nome feminino e inauguramos uma adversária. Não ouse dormir cedo ou aparecer tarde, que é certo de que não valoriza o convívio e aproveita a vida com os amigos".
(Crônica: Afiado demais - de: Mulher Perdigueira, Carpinejar, Ed. Bertrand Brasil, p. 117-118)
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Imprevisível - Carpinejar
“(...) Seja imprudente porque, quando se anda em linha reta, não há histórias para contar.
(...) Ligue sem motivo para o amigo, leia o livro sem procurar coerência, ame sem pedir contrato, esqueça de ser o que os outros esperam para ser os outros em você.
(...) Cometa bobagens. Ninguém lembra do que foi normal.
Que as suas lembranças não sejam o que ficou por dizer. É preferível a coragem da mentira à covardia da verdade”.
(Crônica "Imprevisível", in: O Amor Esquece de Começar, Carpinejar)
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Sobre ternura
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Não há raivoso burro - Carpinejar

"(...) - O que sinto? Não sei o que sinto, estou pensando agora no que sinto e não estou gostando nem um pouco.
(...) - Ai me achega uma preguiça do que não vivi.
(...) Para destruir, montamos e desmontamos o dicionário com afinco, puxamos as piores fragilidades para sangrar. Criamos até neologismos. No momento da briga, ninguém segura o verbo. Não há raivoso burro. Não há raivoso com língua presa. Não há raivoso gago. Um Padre Antonio Vieira acorda na acusação apontando os dedos ao destino.
No momento da paz, o verbo é travado. Parece que não precisamos fazer mais nada, a não ser recorrer às exclamações. Observamos nossa namorada e nos tranquilizamos com "bonita", "linda", "maravilhosa", "incrível", "fabulosa". Ela vai se tornando igual às outras. Não criamos gentilezas novas, não nos esforçamos para a homenagem. Não duvidamos do que sopramos para fora.
Se ela derruba os livros no chão, apontaremos que ela é atrapalhada. Por que não dizer que ela transborda?".
(Crônica: Preguiçoso no elogio - de: Mulher Perdigueira, Carpinejar, Ed. Bertrand Brasil, p. 101-102)
sábado, 25 de setembro de 2010
O ansioso tem direito a três fobias

Fobia das Fobias
"O ansioso tem direito a três fobias. Mais do que isso, é ambição e vira doença.
(...) Sofro por antecipação, o que me põe a ensaiar a cena para diminuir o sofrimento. (...) Ao invés de sofrer na hora, sofro um dia inteiro pensando na hora que vou sofrer.
Carrego uma postura catastrófica. Sou dramático nas amenidades, sóbrio nas tragédias".
(Crônica: Fobia das fobias - de: Mulher Perdigueira, Carpinejar, Ed. Bertrand Brasil, p. 128)
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Carpinejar e as culpas

"(...) Família é boa para gerar traumas, aproveitemos, traumas são as únicas lembranças que não serão esquecidas.
(...) A culpa nos torna atentos, missionários dos cílios. O homem só é romântico com a culpa.
(...) Homem culpado é humilde e amoroso como um chapéu na cadeira, um avental no gancho. O sexo é muito mais intenso e voraz com a culpa. Trepa-se como se fosse a última vez sempre.
(...) Culpa, ó palavra bonita, gostosa de se repetir, dádiva próxima do perdão.
(...) Culpa é voltar para o lugar que nascemos. É se arrepender antes de fazer e continuar fazendo. Uma teimosia que nos leva à perfeição dos erros. Um erro perfeito é virtude.
(...) Sem culpa, não existe literatura, sequer leitor angustiado pelo final da história".
(Crônica: Deixem minha culpa em paz - de: Mulher Perdigueira, Carpinejar, Ed. Bertrand Brasil, p. 183-185)
P.S.: a partir do dia 22 deste mês, quarta-feira, o blog muda de endereço:
http://www.vemcaluisa.blogspot.com/
Vou repetir até todos os leitores lembrarem.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Como moedas
domingo, 12 de setembro de 2010
Não confio em sujeito com felicidade de sobra

O Humor do Fodido
(Fabrício Carpinejar)
"(...) O otimista é frouxo, repete as mesmas frases evasivas e genéricas como “precisa acreditar” ou “tenha esperança”. O pessimista é pessoal, persuasivo, abrirá seus segredos com desembaraço. O otimista rende somente auto-ajuda. O pessimista proporciona alta literatura.
Guardo deslumbramento auditivo diante das pessoas que não respondem tudo bem no cumprimento. Enchem as vogais para declarar “tudo péssimo”. Puxo a cadeira mais próxima e me sento com reverência porque percebo que descobri um corajoso no mundo, que vai se confessar com absoluta sinceridade, que tem vida própria e casa alugada.
(...) Orgulho-me desse humor muito brasileiro, incomparável. Daquele cara que deu tudo errado e ainda está achando graça. Sofreu enchente, deslizamento, seca, foi corneado e não se entrega. Não fechará o negócio, a cara, a amizade. É o que não tem motivos para rir e está rindo. Seu riso é perigoso. Seu riso é ofensivo. Seu riso é o caráter do pulmão.
Não confio em sujeito com felicidade de sobra. Será avarento e indiferente. Quem tem esconde. Unicamente peço dinheiro emprestado ao amigo que já faliu. É um pré-requisito que não costuma falhar.
Eu me interesso pela falta de explicação da alegria. Viva o humor do fodido. É o único que sobrevive às tragédias. Não ficará traumatizado, arrumará uma piada no acidente. Não ficará encastelado no quarto, pagará uma rodada ao pessoal do balcão.
(...) Meus grandes amigos são mórbidos. Compraram o jazigo na juventude. Os que pensam na morte cedo demoram a morrer. Preparam-se com tanta antecedência que perdem a hora".
(Mulher Perdigueira, Carpinejar, Ed. Bertrand Brasil, p. 87-89)
domingo, 29 de agosto de 2010
Não ter cartas para queimar - Carpinejar

"Não ser amado é perder a possibilidade de contestar o próprio destino. É morrer de uma saúde incurável. É participar do mundo como se ele estivesse sempre por ser criado. É colar o fogo porque não há carta para ser queimada".
(Crônica "De banho tomado", in: O Amor Esquece de Começar, Carpinejar, p. 87)
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Como se me fizesse mal deixar os pensamentos guardados - Carpinejar

"Desde o princípio, pulsa a obrigação de demonstrar o que sinto. Obrigação. Como se me fizesse mal deixar os pensamentos guardados. Estraga-me, corrói-me, a incerteza me abóia.
Remorso não se guarda em bolso, não se pede troco".
(Crônica "De banho tomado", in: O Amor Esquece de Começar, Carpinejar, p. 135)
domingo, 22 de agosto de 2010
a sinceridade de quem sente fome

"Gostaria de cumprir realmente uma surpresa, sem a ânsia de contar a metade pelo caminho.
(...) Gostaria de reparar quando ela emprega uma palavra diferente e cuidar para não gastar tanto as velhas.
(...) Gostaria de ter sempre a sinceridade de quem sente fome".
(Crônica "Fui o que ainda posso ser", in: O Amor Esquece de Começar, Carpinejar, p. 47-49)
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Sem fim, sem mapa - Carpinejar

"Quando a gente ama, não há fim, não há mapa, não há tristeza sozinha, não há taxímetro estipulando preço. As paredes dão licença. As estátutas conspiram datas. As datas mudam de lugar. É uma corrida solta, dispersa, distraída como uma alegria nova".
(Crônica "Pode chorar em minha boca", in: O Amor Esquece de Começar, Carpinejar, p. 273-274)
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