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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Concurso Amantes da Gastronomia


Concurso Amantes da Gastronomia

A Malagueta Comunicação, em parceria com a Livraria Apicius, Have a Nice Beer e Favus Design está promovendo o concurso cultural “Amantes da Gastronomia”. Para participar é muito fácil: envie uma frase criativa contendo as palavras “comida” e cultura”, através do link http://www.favus.com.br/amantes-da-gastronomia/

O autor da frase mais bacana leva um Kit exclusivo de churrasco, contendo: uma tábua de bambu com bandeja para carnes, um livro “Carnes e churrascos” de Marcos Bassi (Ed. Senac), um DVD “A magia do churrasco - de Marcos Bassi” e uma faca para churrasco Tramontina (linha Century Polywood), além de dois meses de Associação do Clube de Cervejas Especiais Have a Nice Beer. As inscrições estão abertas até 06/02/2013. Participe!

http://www.malaguetanews.com.br/

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Eu quero! PicNic


# Recomendo muito! O trabalho da querida Lis Rudge é lindo e delicioso. Uma ótima ideia (além dos materiais serem retornáveis ou reciclados depois) inspirada no comfort food. Em princípio, parece ser para os pequenos. Porém, vou contratar a Lis para minha próxima celebração, certamente. Comidinha leve e bonita, do jeito que eu gosto :)

http://www.picnic-eventos.com/

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Charles Bukowski: Velho Safado e beberrão

Escritor alemão naturalizado norte-americano (1921-94) é lembrado – para além de sua obra – por seu apelido, que ele próprio deu a si: Velho Safado. Alcoólatra, preguiçoso, mulherengo, imprevisível, Bukowski transformou sua vida louca em literatura (com sucesso).
Charles não foi o único escritor bebum. No entanto, suas histórias sempre gravitavam em torno de garrafas de rum, cerveja, gim, vinho ou outro álcool de má qualidade. Também de má qualidade era sua saúde: problemas de hemorróidas, fígado, rins, pulmões…
Os biógrafos do escritor contam passagens curiosas de sua vida. Uma delas ocorreu em setembro de 1972, quando ele aceitou se apresentar para 800 estudantes em São Francisco. Aceitou pelo dinheiro que ganhou, já que odiava o público. Bukowski bebeu durante o vôo, beu no táxi, bebeu antes de entrar no palco e bebeu durante a apresentação.  Bêbado, leu dois poemas e xingou os alunos que se atreveram pela tamanha audácia de fazer perguntas sobre literatura. Os estudantes retribuíram vaias, gritos e atirando garrafas. A encrenca não acabou por aí.
“No apartamento dos organizadores, logo tratou de acertar um murro em outro escritor mais bêbado que ele, mordeu a orelha de um crítico, ofendeu um fotógrafo e, de quebra, ainda tentou acertar com uma frigideira a cabeça de sua namorada, que, inutilmente, o havia puxado para a cozinha na tentativa de acalmá-lo.” (p. 119)
Os amigos do escritor contam que Bukowski mantinha recortes de jornal sobre os Alcoólicos Anônimos colados perto de sua escrivaninha. De vez em quando ele fazia o teste do AA, com dez perguntas que mostram se alguém precisa de tratamento.  Fazia o teste e comentava com os amigos que não era alcoólatra, pois pararia de beber quando quisesse, nem que fosse por apenas um dia.

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Tavares, Ulisses. Hic!stórias – os maiores porres da história da humanidade. Ed. Panda Books.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Marco Antônio e Cleópatra – derrotados por Baco


Cleópatra e Marco Antônio não eram o Pink e Cérebro (os ratinhos do desenho animado), mas queriam dominar o mundo. Cleópatra, que segundo Plutarco (historiador) não era aquela beldade que o cinema mostrou. No entanto, era um poço de cultura: falava mais de dez idiomas e discutia com os sábios da corte acerca de filosofia, matemática e astronomia. De igual para igual.

A rainha do Egito, considerada a reencarnação da deusa Ísis na terra, teve dois grandes amores: Júlio César e Marco Antônio. A ambos devotou sua riqueza, lealdade, filhos e, ao final, a vida. E aonde entra a bebida aqui?

Já casado com Cleópatra, Marco Antônio viveu anos desregrados em sua corte. Resultado: virou um velho barrigudo, grande bebedor de boa birita envelhecida em tonéis de carvalho (sim, bebida em excesso acaba com qualquer grande homem). Enquanto a mulher cuidava em encomendar navios para o Egito, Marco Antônio esperava ficarem prontos e bebia.

Bebeu tanto que estava embriagado demais no dia do grande golpe de estado que havia traçado com a esposa. Cleópatra, fez de conta que desertava de sua terra. Marco Antônio esqueceu do plano, achou que a amada foi mesmo embora e rumou aos prantos atrás dela, num barco mal preparado. E assim, ambos deixaram o palco da vida para entrar para a história: Cléo, deixando-se picar por uma áspide (sobra de veneno rápido e letal) e Marco pede que um criado lhe crave uma espada (não sem antes beber duas jarras de vinho, para dormir).

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Tavares, Ulisses. Hic!stórias – os maiores porres da história da humanidade. Ed. Panda Books.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Edgar Allan Poe

Os crimes da rua Morgue e O Corvo são livros que fizeram do escritor e poeta norte-americano Edgar Allan Poe figurar entre os grandes da literatura. Grande também foi a forma como Poe esgotou rapidamente sua vida (morreu aos 40 anos, em 1849).

Grande apreciar de álcool, a bebida o fazia aflorar um outro lado de Poe, fantasioso e mentiroso. Conta-se que dava palestras e escrevia artigos que pareciam, apenas aparentavam, ter profundas reflexões e pesquisas meticulosas. No fim das contas, era tudo papo de bêbado. Poe citava autores imaginários, inventava citações em idiomas que ele desconhecia e o pior disso tudo, acreditava em seus próprios delírios.

Quase antes de morrer, estava certo de que havia descoberto a verdade mística absoluta, espalhando aos quatro ventos que era o principal filósofo do século. Não recebia o total desprezo por sua megalomania por ter criado contos e poemas verdadeiramente grandiosos.

“O que o desmoralizava eram os porres em público: passava dias vagando pela cidade, com roupas transformadas em farrapos, às vezes totalmente nu, dormindo nas sarjetas e gritando discursos sobre a evolução do universo.” (p. 244)

Por duas vezes Poe (que era viúvo e pobre) quase se casou com jovens ricas. Os noivados duravam poucos dias, como sua capacidade de deixar de beber.

Ao ser levado ao hospital onde faleceu, foi raptado e roubado no caminho. Seu estado era tão sério que nem lembrava do próprio nome. Minutos antes de morrer, proferiu as seguintes palavras: “Ó Deus!... Tudo que vemos ou julgamos ser. Não passa de um sonho dentro de um sonho?”

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Tavares, Ulisses. Hic!stórias – os maiores porres da história da humanidade. Ed. Panda Books.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Francis Scott Fitzgerald – beber para escrever

“Não consigo ficar sóbrio tempo suficiente para achar graça em ficar sóbrio”, disse certa vez o escritor Francis Scott Key Fitzgerald. Não há melhor lugar para ele do que estar nessa série dos grandes beberrões da história. Até completar 25 anos, no início da década de vinte, Fitzgerald foi incansável em atingir três objetivos: ter sucesso como escritor, casar com Zelda e ficar rico.
Só conseguiu ficar Zelda. Dinheiro era problema sério para ele, e o pouco que tinha gastava em bebidas.
A fama de beberrão do escritor era notória. Quando Zelda disse ao seu pai, um juiz conservador, que Scott era a pessoa mais doce do mundo quando estava sóbrio, seu progenitor exclamou:
- Ele nunca está sóbrio!
Zelda, seu grande amor, bebia mais do que Fitzgerald! Casaram e a vida foi povoada de brigas, batidas de carro e toda espécie de confusão. Segundo os amigos, um casal selvagem e lendário. Entre um tropeço e outro, Scott escrevia.
Entre um livro brilhante e outro, e muitos copos de gim ou uísque, Fitzgerald escrevia muito material ruim: roteiros, artigos, contos... Não importava quanto dinheiro ganhasse, ele vivia muito acima do padrão que suas posses arcavam. Passou a vida no vermelho, não se privando de luxos.
Um dos biógrafos do escritor afirma que, feitas as contas, sobrava a Scott uma hora do dia para escrever. As restantes eram dedicadas a festas, apagões e brigas com Zelda. No final da década de 30, com a saúde muito comprometida, Fitzgerald trocou o gim pela cerveja. A troca foi a seguinte: um litro de gim por 48 cervejas diárias. Só parou de beber no último ano da sua vida, porque tinha medo de não conseguir concluir “O último magnata”, seu último romance. Em uma carta para o amigo Edgar Allan Poe Jr., Fitzgerald confessou estar conformado com sua situação: “Parece ser o destino de todos os bêbados que, no fim, tenham de abandonar não só a bebida, mas muitas outras coisas boas.”

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Ulisses Tavares in: “Hic!stórias! Os maiores porres da humanidade” (Ed. Panda Books, 2009)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Lima Barreto - série dos... amantes de Baco



Lima Barreto sempre lutou contra a correnteza. E o mar era forte. Mesmo considerado um Don Quixote brasileiro, enfrentou vários problemas. Nasceu em 1882, livre e mulato. Era generoso, culto, cronista e escritor de talentoso, o que incomodava muita gente. Para piorar a opinião alheia acerca dele, era alcoólatra e não fazia questão de ser o que se esperava dele na época.
O poeta Manuel Bandeira definiu-o em um verso inesquecível: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”.
Aos trinta anos, Barreto publicou seu melhor romance: Triste fim de Policarpo Quaresma, em folhetins do Jornal do Comércio e em seguida em livro. Foi escrito em apenas três meses, de supetão, em trezentas e poucas laudas. Lima Barreto só escrevia assim rápido porque em seguida se embriagava, e ficava com medo de não conseguir terminar seus contos, artigos e romances. 
O escritor trabalhou na Secretaria da Guerra (emprego que os amigos conseguiram para ele), que pagava mal e pouco lhe exigia. Ficou lá até se aposentar, pela doença alcoólica. Barreto não se conformava de que todos os brancos bem nascidos de sua geração ficavam ricos e famosos, e ele não. Para esquecer a humilhação, bebia.
Ainda jovem, Barreto bebia cerveja e uísque. Depois foi para a cachaça, que consumia nos botequins mais sórdidos do Rio de Janeiro. Depois da embriaguez, dormia mesmo pelas ruas. Aos 40 anos – ele faleceu as 41 – estava acima do peso, inchado, reumático, diabético, cardiopata, hipertenso, transpirava em excesso e tinha a aparência de um morador de rua.
Muitos quiseram ajudá-lo. Monteiro Lobato, em São Paulo e sem conhecê-lo, financiou uma palestra para a qual ele fora convidado. Barreto pegou o dinheiro, bebeu todas, não compareceu na palestra e acabou dormindo na sarjeta. Pouco antes de morrer, o escritor, sem perder o humor, escreveu. “O que prejudica nossos literatos brasileiros não é a cachaça. É a burrice.”


Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Ulisses Tavares in: “Hic!stórias! Os maiores porres da humanidade”(Ed. Panda Books, 2009)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Pollock: bebendo e pintando todas


O pintor Jackson Pollock, precursor do expressionismo abstrato americano era um grande gênio bebum. Sua obra só começou a fazer sucesso depois que conhece a também pintora Lee Krasner, que casou-se e deu suporte psíquico para Pollock, que tinha sérios problemas com alcoolismo. Em 1945 mudaram-se para uma pequena fazenda em Long Island, que foi lá que o pintor despontou em sua criação.

Pollock gostava de pintar ao som de jazz, em volume bem alto. O experimentalismo foi marcante em sua obra. No entanto, pode-se atribuir muito o sucesso do pintor à sua esposa. Ela abandonou a própria carreira para proporcionar condições para Jackson trabalhar – e beber, de manhã, tarde e noite.

Pior, quando bebia muito, Pollock pegava a chave do carro e ia para o bordel mais próximo. Lee escondia a chave do carro ou quebrava a garrafa de bebida, quando seus argumentos não eram bons o bastante para persuadi-lo de permanecer em casa.

A esposa não aguentou e pediu o divórcio. Pollock arranjou outra mulher, mais jovem e tolerante (que não escondia as chaves do carro, não entendia de arte e achava bacana viver com um maduro e talentoso artista). A nova mulher também não se importava com o alcoolismo do pintor, problema que carregava desde os 13 anos de idade. O resultado, é conhecido: Pollock dirigiu bêbado e morreu em um acidente de carro, quando colidiu em um poste de concreto, na saída de casa.

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Ulisses Tavares in: “Hic!stórias! Os maiores porres da humanidade”(Ed. Panda Books, 2009)

sábado, 2 de julho de 2011

Ernest Hemingway: entre livros e bebedeiras


Ernest Hemingway foi um grande escritor. E um grande bebedor também. Começou sua vida etílica cedo, aos 19 anos, quando era repórter de um jornal em Kansas City, nos Estados Unidos. A adrenalina de ser repórter não lhe bastava, queria mais. Resolveu trabalhar como motorista de ambulância, durante a Primeira Guerra Mundial.

Feriu-se seriamente e se curou. Não aprendendo a lição, foi correspondente da Guerra Civil Espanhola (1937) e, em seguida, da Segunda Guerra Mundial. Enquanto os repórteres se escondiam das balas, ele lutava e escrevia, apesar de civil. Morou um tempo em Havana, onde ficou conhecido por bolar drinques fortes à base de rum.

Fez sucesso na Europa e Estados Unidos. Suas reportagens eram viscerais. Na escrita de seus romances, escolheu temas que o apeteciam na vida real: bebidas, brigas entre homens, sexo, touradas, pescarias e caçadas. Ernest tirava de seus cinco sentidos a inspiração. A tensão do pescador atormentado em O velho e o mar, ao que consta, foi vivida na década de 50, depois do escritor ter bebido todas em um bar, distribuído socos em quatro contrabandistas que o desafiaram e encarado, em seu diminuto barco, três dias de tempestade. Depois de ser atacado por tubarões, pescar um atum maior que sua própria estatura ele resmunga, ao retornar, que a viagem fora péssima. “A bebida acabou no segundo dia”, disse.

Dizem que gostava tanto de beber que passou a usar uísque como loção de barba. Nas touradas que freqüentava na Espanha e Portugal, costumava pular a arquibancada e ir atrás dos animais, com uma garrafa nas mãos. Era salvo sempre. Sua saúde, com tantas aventuras, ia se esfacelando. Depressivo, sobreviveu a um desastre aéreo na África. Saiu da floresta carregando um cacho de bananas e uma garrafa de gim (que conseguiu salvar antes que o avião explodisse). Ganhou o Pulitzer em 1953 e suicidou-se em 1961.

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Ulisses Tavares in: “Hic!stórias! Os maiores porres da humanidade” (Ed. Panda Books, 2009)

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Camille Claudel - Conhaque + amor desmedido = tragédia

No início do ano escrevi umas matérias inspiradas num livro que conta a vida de pessoas notáveis, sob o ponto de vista etílico. Vou publicá-las aqui a partir de hoje.



Conhaque + amor desmedido = tragédia

Atire o primeiro remédio para ressaca (creio que não seja de bom tom citar uma marca conhecida aqui) quem nunca tomou um porre (refiro-me aos maiores de idade, que fique claro). É uma experiência única, até para saber se vale a pena ou não os próximos goles. A bebida alcoólica faz parte da história da humanidade. Na Suméria e no Egito já se fazia vinho e cerveja. Quem não tem uma boa história de esbórnia etílica para contar? Ainda que seja de um amigo...

Ulisses Tavares, jornalista-publicitário-roteirista-entre-outras-profissões, contou várias destas histórias no livro “Hic!stórias! Os maiores porres da humanidade” (Ed. Panda Books, 2009).

A primeira bêbada encantadora da série é a talentosíssima, bela e trágica escultora francesa Camille Claudel. Com 19 anos, no início do século XX, Camille vai para Paris estudar artes. Seu trabalho fantástico (esculturas em mármore) chamou a atenção do escultor Auguste Rodin – já famoso e autor da obra “O pensador”. Rodin já tinha mais de 40 anos e era conhecido pelo seu apreço pelo vinho e noitadas. Apreciador das artes, Rodin fez de Camille sua discípula e amante fixa.

Durante anos foi Camille quem finalizou as obras mais significativas de Rodin, além de ter servido de modelo para elas. Quinze anos com Camille, e Rodin não havia deixado sua esposa submissa, Rose. Além disso, não deixava que Camille assinasse as obras feitas a quatro mãos, além de agredi-la moral e fisicamente. Camille abandonou Rodin. No entanto, instalou um estúdio próximo ao dele. Também adotou comportamentos destrutivos: a cada verão acabava com as obras que havia produzido no inverno.

“Ao que se sabe, usava o álcool, especialmente conhaque, para se aquecer do frio de Paris e para esquecer sua paixão. Resultado de tanto conhaque é que, aos quarenta anos, aparentava ser uma decrépita velhinha maltratada. Foi então resgatada pela família e internada em um manicômio, que, na época, era pior que as cadeias brasileiras de hoje.” (Tavares, p. 83)

Em 1943, 25 anos depois da internação, Camille morre no hospício. Como todo grande artista, não teve reconhecimento em vida. Amor demais e conhaque demais foram letais para uma alma perturbada e criativa.

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Ulisses Tavares in: “Hic!stórias! Os maiores porres da humanidade” (Ed. Panda Books, 2009)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Relíquias culinárias de Machado de Assis


"(...) Quando o assunto era o resgate das tradições culinárias do Rio, Machado enaltecia com fervor a publicação de mais um título brasileiro. Um ano antes do lançamento de “O Confeiteiro Popular”, o escritor assinou em 2 de junho de 1898, na revista O Cruzeiro, a seguinte crítica: “É fora de dúvida que a literatura confeitológica sentia necessidade de mais um livro em que fossem compediadas as novíssimas fórmulas inventadas pelo engenho humano para o fim de adoçar as amarguras deste vale de lágrimas”. No mesmo texto ele diz que “o princípio social do Rio de Janeiro é o doce de coco e a compota de marmelos”.

Para ler na íntegra o texto da jornalista Juliana Dias, entre aqui.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Vou alugar uma criança para levar, rs

Já que eu não tenho uma, e achei muito bacana as aulas propostas pelo Estilo Gourmet – Saber Culinário.

Dica para quem mora no Rio: Oficina Pequeno Chef - 10 e 22 de julho.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Filósofo esquecido


Esqueci de incluir este escrito na série: Ventre dos filósofos. Às vezes, ainda é tempo de lembrar-se - e redimir-se.

Charles Fourier: doce utopia

O filósofo e economista francês Charles Fourier (1772-1837) foi um dos teóricos do socialismo utópico do século XIX. Para a gastronomia, a proposta de Fourier era organizar a voracidade geral. Ou seja, organizar a gulodice de todas as classes sociais, idades e sexos. Esta sabedoria higiênica tinha como objetivo implantar o excesso, do supérfluo e da abundância.

“Para assegurar o consumo de supérfluos, serão obrigados a estudar os detalhes das conveniências individuais, diferenciadas segundo os temperamentos; teoria que exige a ajuda de quatro ciências: química agronômica, médica e culinária”. (Théorie des quatre mouvements, Obras completas de Charles Fourier, Ed. Anthropos, 1966-1968).

A administração dessa produção, segundo o filósofo, seria feita por uma classe especial de cientistas: os gastrósofos. O gastrósofo deveria ter mais de 80 anos e ser competente nas matérias que compõe sua disciplina. Devem entender muito de nutrição, agricultura, medicina, ser sábio e um grande provador. Este “profissional” seriam os médicos particulares de cada indivíduo, e conservadores de sua saúde.

bocacrianca.jpgPara as crianças, Charles tem um cuidado especial na alimentação. Segundo ele, em especial as meninas, são fracas em gulodices. A harmonia para os pequenos, seria alimentá-los com compotas e geléias, aliadas ao pão, uma base para alimentação rica e feliz. Fourier pretendia aplicar a pedagogia alimentar às crianças, desde cedo, fazendo com que elas participassem de debates gastronômicos sobre a preparação da comida. Assim, as crianças terão gradualmente contato com a nova ciência que é a gastrosofia.

Quanto às preferências pessoais, Fourier era especialmente obcecado por pastéis, bolinhos, vol-au-vent e abóboras. Ele não economiza nas críticas às práticas nutritivas de seu tempo. Dizia que o espaguete dos italianos era uma cola rançosa. Os parisienses, adotavam pratos estrangeiros, falsificam os alimentos, aqueciam as carnes. Quase não é preciso salientar aqui que o “doce delírio de uma alimentação”, que Fourier tinha a intenção de propor, não foi levado adiante. Utopia, apenas utopia.

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: O ventre dos filósofos, de Michel Onfray

Publicado originalmente em: http://www.informativomalagueta.com.br/edicao.asp

sábado, 15 de maio de 2010

Sartre – a inapetência e a ojeriza


Jean-Paul Charles Aymard Sartre (1905-1980) filósofo francês, escritor e crítico, conhecido representante do existencialismo tinha repulsa aos crustáceos. Ele os descrevia como insetos cuja consciência problemática o perturbava.

“É um alimento escondido num objeto e que necessita ser extirpado. É principalmente nessa noção de extirpar que me enoja, o fato de a carne do bicho estar tão calafetada pela casca que seja preciso utilizar instrumentos para extraí-la em vez de soltá-la por inteiro. É algo que se apega ao mineral”. (A cerimônia do Adeus, Simone de Beauvoir, Ed. Nova Fronteira)

Influenciado pelo nojo aos “bichos obscuros”, Sartre plantou os alicerces de algo que poderia ser chamado de metafísica do buraco. No Diário de uma guerra estranha, ele delimita por vezes as teorias de Freud que associam o buraco à fecalidade, à satisfação e o bem estar. Assim, fez do buraco a falta que exige seu preenchimento.

Em O ser e o nada, Jean-Paul faz uma análise fenomenológica da alimentação. Segundo ele, essa tendência do ser humano de preencher é um dos princípios que leva ao ato de comer. Comer, além de outros motivos, serve para tampar o homem.

Quantidade e qualidade não faziam a menor diferença ao filósofo, naquilo que caísse em seu prato. Simone afirma que ele comia qualquer coisa, a qualquer hora, de qualquer jeito.

Em 1973, e com a saúde debilitada pelo álcool, tabaco e a falta de cuidado com a alimentação, quis ter uma experiência com mescalina. O objetivo era nobre – para ele: desejava medir em si mesmo os efeitos produzidos por um alucinógeno na formação das imagens de um indivíduo. Beauvoir, sua fiel escudeira, conta o resultado da intrépida experiência, tal como Sartre a narrou.

“Dos dois lados dele, por trás (dele) fervilhavam caranguejos, polvos, seres fazendo caretas”, (A força da idade, Simone de Beauvoir, Ed. Nova Fronteira)

Foi a vingança dos crustáceos! Sartre alucinou que lagostas o perseguiam, e que ele combatia com polvos, que certamente o derrotariam.

Jean-Paul poderia ser rotulado como um homem que tem nojinho de comer. Quase tudo. Também não gostava de tomates, nem frutos em sua forma natural. Ah, de pão, certa vez, ele afirmou que gostava. A mãe dele deve ter sofrido com tanta inapetência.

A série inspirada no livro O ventre dos filósofos – crítica da razão dietética, de Michel Onfray acaba por aqui. Dos glutões aos que comiam sem vontade, um breve panorama sobre como estes grandes homens se alimentavam. Além de descobrir como eles queriam mudar a sociedade, através da alimentação.

Texto: Vanessa Souza
Fonte: O ventre dos filósofos – crítica da razão dietética, Michel Onfray, Ed, Rocco, 1990.

Publicado originalmente em: http://www.informativomalagueta.com.br/edicao.asp

Marinetti – Marx da gastronomia


Filippo Tommaso Marinetti (1876 - 1944), escritor, poeta, editor, ideólogo, jornalista e ativista político italiano, iniciador do movimento futurista via a gastronomia como um instrumento de um total desejo de mudança. A cozinha de Marinetti é o similar de Marx, em relação à organização do proletariado numa classe revolucionária: pela alimentação, é possível criar a essência de uma nova vida.

marinetti.jpg“Nós, os futuristas, desprezamos o exemplo da tradição para inventar a qualquer preço uma coisa nova que todos julgam insensata. Mesmo reconhecendo que homens mal ou grosseiramente alimentados puderam realizar grandes feitos no passado, nós sabemos esta verdade: pensamos, sonhamos e agimos segundo o que comemos e bebemos”, disse Filippo.

Um dos alimentos renegados por Marinetti, era a massa. Segundo ele, elas enrodilhavam os italianos e os prendiam ao passado. O fim das massas seria o fim da submissão do corpo à lentidão. A morte das massas, para ele, resultaria no renascimento do corpo, particular e político.

No entanto, houve quem não gostasse da ideia. Preocupadas em preservar as massas, um grupo de mulheres de Áquila fez circular um abaixo assinado que foi enviado a Marinetti. Em Nápoles, o povo foi às ruas para defender o alimento. Em Turim, houve um congresso de cozinheiros se opondo ao ativista.

O tato também é importante para a experiência gastronômica ser singular. Filippo queria que os garfos e façam fossem esquecidos e que se comesse com as mãos. A audição também não é esquecida: para Marinetti, a conversa e a política à mesa devem ser esquecidas. Todos os esforços devem ser concentrados nas sensações do bem comer.

Os nomes dos pratos também não foram esquecidos pelo pensador. Dessa forma, um salsichão cru descascado servido diretamente num prato contendo café bem quente misturado a grande quantidade de água de colônia seria carinhosamente chamado de “porco-excitado”.

Texto: Vanessa Souza
Fonte: O ventre dos filósofos – crítica da razão dietética, Michel Onfray, Ed, Rocco, 1990.
Publicado originalmente em: http://www.informativomalagueta.com.br/edicao.asp

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Nietzsche: teoria, só teoria


Para o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche(1844-1900), uma das questões que poderia salvar a humanidade é a alimentação. Em resumo, poderia ser formulada em uma frase a alimentação para ele: como realmente o indivíduo deve se alimentar para chegar ao máximo de sua força, no sentido do Renascimento, da virtude isenta de todo elemento moral.

Nietzsche.jpgNa ótica nietzchiana, a alimentação determina o comportamento e eleger seu alimento é elaborar a essência. Melhor dizendo, não se escolhe o regime alimentar e sim encontra-se o que é mais adequado às necessidades do organismo.

“A dietética é a ciência da aceitação do reino da necessidade por intermédio da inteligência: trata-se de compreender o que melhor convém ao corpo e não de escolher ao acaso, seguindo critérios que ignoram a necessidade física”. (ONFRAY, p. 90)

Nietzsche repudia a alimentação do homem moderno, que acha que pode comer quase tudo. Uma de suas críticas mais ferrenhas vai para a cozinha alemã: sopas antes das refeições, carnes cozinhas em excesso, legumes gordurosos, sobremesas pesadas… Tudo isso regado à cerveja – que ele é contra e atribui a ela toda a lentidão da civilização. O pão, para o filósofo, também deve ser suprimido, por apagar o gosto dos alimentos. Os legumes feculentos, devem sair de cena. O arroz, consumido em excesso, era para Nietzsche um convite ao ópio. As razões para tudo isso? Absolutamente obscuras, já que nenhum costume oferece argumentos nesse sentido.

O vegetarianismo também não é solução para o alemão, sendo os vegetarianos, para ele, seres que necessitam de um regime fortificante. Em suma, a dietética nietzschiana é a ciência da medida: nem excesso de arroz e batatas, nem carência de carne ou uso de bebidas alcoólicas.

No entanto, ao contrário do que pregava, há registros de muitos excessos na alimentação pessoal do filósofo. Em 1880, grande parte da correspondência que trocou com sua mãe consistia em encomendar salsichas e presunto. Quatro anos depois, com o corpo em ruína, contentava-se em almoçar uma maçã. No ano seguinte, almoçava pão de cevada e leite. Em 1886, pobre e doente, privilegiava os laticínios na sua dieta. Mesmo com a saúde deteriorada, não perde o gosto por presunto e salsichas. Grande ironia é lembrar das palavras do filósofo em Considerações Inatuais: “Estimo um filósofo na medida em que é capaz de dar um exemplo”. Grande embuste o brilhante Friedrich, nunca colocou em prática a dietética que teorizou.

Texto: Vanessa Souza
Fonte: O ventre dos filósofos – crítica da razão dietética, Michel Onfray, Ed, Rocco, 1990.
Publicado originalmente em: http://www.informativomalagueta.com.br/edicao.asp

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Kant e o etilismo ético


O filósofo alemão Emmanuel Kant (1724-1804) era chegado em uma bebidinha alcoólica. Quando fez 30 anos de idade, festejou tanto num botequim que quase não conseguiu encontrar o caminho de volta para casa. Kant gostava tanto de beber e comer que seu amigo, o conselheiro Von Hippel, disse-lhe certa que ele iria acabar escrevendo uma crítica da cozinha.

Quando um prato agradava a Kant, ele pedia a receita a quem o preparava. Não fazia questão de alimentos complicados, mas gostava de carne macia e pão e vinho de boa procedência. Comia devagar e demorava a levantar da mesa após as refeições.

Em Metafísica dos Costumes, o filósofo propõe que em estado de embriaguez, o homem deve ser tratado como um animal, não como homem. Para ele, o álcool é comparado à droga e às substâncias que impedem a sabedoria, a dignidade e o autodomínio.

“Este aviltamento é atraente porque traz por um momento a felicidade de sonho, a liberação das preocupações e até mesmo forças imaginárias. Mas é nefasto porque leva em seguida ao abatimento, à fraqueza e, o que é pior, à necessidade de voltar a esse meio de embrutecimento e mesmo de aumentar a dose”. (Metafísica dos costumes, Kant, Editora Tecnoprint)

Para Kant, a voracidade é pior do que a embriaguez – talvez para justificar a própria. O filósofo tinha um cozinheiro e quando recebia hóspedes, anotava na véspera seus pratos favoritos e pedia que o cozinheiro os preparasse.

Segundo o pastor Reinhold Bernhard Jachmann, os cardápios de Kant eram simples: consistiam em três pratos, queijo e manteiga. Gostava de caldo de vitelo, sopa de cevada e de aletria e carnes assadas. Geralmente começava suas refeições com peixe e colocava mostarda em quase todos os pratos. Apreciava muito manteiga e queijo ralado. Uma idiossincrasia do filósofo: seus dentes eram muito ruins. Por isso, mastigava demoradamente a carne e só engolia o caldo. Cuspia o resto e escondia ao lado do prato, ou embaixo das cascas de pão.

Assim que acabava a refeição, o filósofo “bebia um trago”, em suas próprias palavras. Bebia meio copo de vinho tinto açucarado, aquecido com cascas de laranja. Ele acreditava que o vinho estimulava o bom funcionamento dos intestinos. Ao fim da vida, octogenário, reclamava quando as fatias de pão com manteiga eram cortadas de maneira irregular. “Quero forma, forma precisa”, dizia.

Texto: Vanessa Souza
Fonte: O Ventre dos Filósofos, Michel Onfray
Publicado originalmente em: http://www.informativomalagueta.com.br/edicao.asp

Rousseau: teoria espartana do alimento


Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) foi considerado um dos maiores pensadores europeus no século XVIII. Sua obra inspirou reformas políticas e educacionais, e tornou-se, mais tarde, a base do chamado Romantismo. No que se refere à gastronomia, ou melhor, à renúncia dela, ele foi o pensador mais emblemático.

Rousseau alimentava-se para sobreviver. Caso não fosse necessário para manter-se vivo, é provável que ele dispensasse os alimentos sem grande esforço.

Por isso, Jean-Jacques desenvolve uma teoria espartana do alimento. Gastrósofo socialista, o filósofo refere-se ao populismo de tal modo que temos a impressão de ler a argumentação plebéia típica a respeito da alimentação: o luxo da burguesia é a razão da pobreza dos camponeses.

“Queremos molho em nossas cozinhas; eis por que tantos doentes não têm sopa. Queremos licores sobre nossa mesa; eis por que o camponês só bebe água. Queremos empoar nossas perucas; eis por que tantos pobres não têm pão”. (Discours sur les sciences El les arts, Discours sur l´origine de l´iinégalité parmi les homes, Obras completas de Plêiade, editora Bernard Gagnebin e Marcel Raymound)

Para o pensador suíço, a alimentação do nômade é simples, natural. Já a do sedentário é complicada, artificial. Rousseau opõe essas duas lógicas para desejar um renascimento da alimentação nas origens. Comer, para o pensador, é consumir o rústico e o simples, só aceitar os alimentos que não necessitam preparação – ou preparação mínima. Já o uso do álcool, para Rousseau, é uma prática civilizada.

Não ingerir carne, para o filósofo, era uma questão de caráter. No entanto, poderíamos lembrar ilustres vegetarianos, que tinham sede de carne humana. Um deles? Adolf Hitler. Rosseau, de fato, enganou-se.

Fonte: O ventre dos filósofos – crítica da razão dietética, Michel Onfray, Ed, Rocco, 1990.
Texto: Vanessa Souza
Publicado originalmente em: http://www.informativomalagueta.com.br/edicao.asp

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Diógenes: carne sangrenta



Nascido em Sínope em 444 antes de Cristo, e discípulo de Antístenes, o grego Diógenes Laércio foi o fundador da filosofia cínica. Segundo Michel Onfray, autor de O ventre dos filósofos, a exigência do cinismo é submeter o cotidiano a uma forma improvisada, porém sóbria e pura, livre das escórias e da afetação que são parentes da civilização.

carnecrua.jpgO desejo cínico é sabotar a confiança nos ideais que são também os princípios da ilusão: o sagrado, a convenção, o hábito, a passividade. O cínico prega o prazer simples. Chamado de filósofo do barril, Diógenes fará um uso pedagógico dos alimentos. Seu projeto é a volta a uma selvageria primária, sendo a alimentação marcada por este desejo.

“Ao cozido consensual da instituição nutritiva, Diógenes opõe o niilismo alimentar no mais alto grau, marcado principalmente pela recusa do fogo, de Prometeu, como símbolo da civilização. O primeiro princípio da dietética cínica é o cru”. (ONFRAY, p. 31)

Enquanto os outros consomem carne cozida, Diógenes quer carne sangrenta. Além disso, ele inclui também o vegetarianismo prático. O filósofo, segundo colegas da época, é retratado como um pacato colhedor de figos, raízes e frutas, e bebe água fresca das nascentes. Diógenes dizia querer escolher o alimento que poderia encontrar com mais facilidade.

De acordo com Onfrey, nenhuma existência chega à beleza sem uma morte à altura. Uma das versões da morte de Diógenes – há mais de uma – diz respeito a um polvo cru. O filósofo ousou comer um polvo cru para rejeitar a preparação das carnes cozidas. Sendo observado por muitos homens, Diógenes envolveu-se na capa do polvo e disse, dramaticamente: “É por vocês que arrisco minha vida, que corro este perigo”. E assim, morreu.

A alimentação para Diógenes teve a função de reivindicar o natural: ela expressa a recusa de um mundo, ao mesmo tempo que mostra o desejo de um outro, o da simplicidade. O polvo e o filósofo ilustraram como não pode haver dietética inocente.

Fonte: O ventre dos filósofos – crítica da razão dietética, Michel Onfray, Ed, Rocco, 1990.
Texto: Vanessa Souza
Publicado originalmente em: http://www.informativomalagueta.com.br/edicao.asp