"Vocês bebem chá no seu país?"
"No Brasil? Menos que café."
"Por causa do calor?"
"Por causa do nosso temperamento. Há muita contemplação em uma xícara de chá."
"E você não tem tempo para contemplar?"
"O tempo nos irrita. Nós estamos sempre querendo reiniciar a contagem, recomeçar do zero. O Brasil deve ser o único país do mundo onde as pessoas se desejam um bom ano duas vezes ao ano. no início de janeiro e no início de março. Como se a gente estivesse o tempo todo dizendo: esquece o passado, é a partir de agora que está valendo."
"E o café será para isso?"
"O café é uma bebida de um minuto, que se bebe antes de se tomar uma decisão ou antes de se planejarem as próximas duas horas do dia. O café é uma bebida sem memória".
"E o Brasil é um país sem memória?"
João sorri, dá de ombros. Foda-se a tradição, essa é a nossa tradição."
"Falando assim até parece que você odeia o Brasil."
"Não, diz João Pedro lentamente, navegando o sachê pela xícara. "Somos inofensivos, queremos ficar de bem com todo mundo. É o que nos salva".
Caio Yurgel in: Samba sem mim. Ed.Benvirá.
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segunda-feira, 13 de junho de 2016
quarta-feira, 25 de maio de 2016
das mudanças
Mudanças despencavam sobre sua família feito fatalidades, não refletiam vontades individuais mas sim tremores coletivos, o telefone tocava às três da manhã e sua mãe já despertava com a mão no peito, Deus na ponta da língua.
Caio Yurgel in: Samba sem mim. Ed.Benvirá.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
E o que quê disso quer dizer?
"É apenas um carro", disse Kováč, debaixo do semáforo fechado.
"Talvez no resto do mundo. Não na Alemanha."
Kováč riu. "Pois a mim me agrada. É compacto, econômico, livre da pretensão fálica alemã."
João Pedro enrugou a testa, Phallische o quê?
"Complexo de potência", começou a esclarecer Kováč, mas deixou por isso mesmo, acelerou (mas não muito), duas quadras ficaram para trás.
"Macht-Komplex?", repetiu, cuidadoso, duas quadras depois, João Pedro.
Kováč manteve o silêncio por mais algumas curvas e então disse: "Um grande pensador francês, Rôlãn Bárt, afirmou certa vez que os franceses são uma civilização de vergonha e os alemães, de culpa". Pequena pausa, semáforo. "Os automóveis alemães são disso um exemplo".
Grande pausa, João Pedro: "E o que quê disso quer dizer?".
Kováč deu de ombros.
(Caio Yurgel in: Samba sem mim. Ed. Benvirá)
"Talvez no resto do mundo. Não na Alemanha."
Kováč riu. "Pois a mim me agrada. É compacto, econômico, livre da pretensão fálica alemã."
João Pedro enrugou a testa, Phallische o quê?
"Complexo de potência", começou a esclarecer Kováč, mas deixou por isso mesmo, acelerou (mas não muito), duas quadras ficaram para trás.
"Macht-Komplex?", repetiu, cuidadoso, duas quadras depois, João Pedro.
Kováč manteve o silêncio por mais algumas curvas e então disse: "Um grande pensador francês, Rôlãn Bárt, afirmou certa vez que os franceses são uma civilização de vergonha e os alemães, de culpa". Pequena pausa, semáforo. "Os automóveis alemães são disso um exemplo".
Grande pausa, João Pedro: "E o que quê disso quer dizer?".
Kováč deu de ombros.
(Caio Yurgel in: Samba sem mim. Ed. Benvirá)
sábado, 13 de fevereiro de 2016
do silêncio e o poder
Ele estava disposto a fazer seu silêncio durar mais que o dela, vencê-la na maratona do orgulho ferido, pois sabia (tinha aprendido a lição) que em todo e qualquer relacionamento informação é poder, e a parte que ama mais, e que sabe que ama mais, é a primeira a dar com a língua nos dentes e terminar sozinha. Então nada dizia. Queria, mas nada dizia.
Caio Yurgel in: Samba sem mim. Ed. Benvirá.
Caio Yurgel in: Samba sem mim. Ed. Benvirá.
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