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quarta-feira, 15 de junho de 2011

sobre escrever: Saramago

“(...) Quer dizer, cada livro que eu escrevo tenta resolver um problema que eu tenho na minha relação com o mundo, na minha relação com os outros.”

(José Saramago)

domingo, 1 de agosto de 2010

A Alegria de Saramago - por Inês Pedrosa


A Alegria de Saramago

A escritora portuguesa Inês Pedrosa fala da universalidade do autor de ''Ensaio sobre a Cegueira'' e sua influência sobre a nova geração de romancistas


Uma das grandes qualidades de José Saramago - morto aos 87 anos em 18 de junho passado - era o de nunca ter sofrido daquela doença que o crítico americano Harold Bloom definia como "a angústia da influência". Vivia as obras alheias - de há quinhentos anos ou de hoje - com o genuíno orgulho de quem, acima de tudo, se identifica com a grandeza das coisas belas. Se sofria de alguma coisa, era da alegria da influência. Como diria o professor e escritor português Eduardo Prado Coelho, não tinha medo de gostar.

Começo esta memória projetiva de Saramago sob o signo da alegria, porque estou cansada das recorrentes acusações de pessimismo que lhe foram sendo feitas. Muitas e muitas vezes lhe perguntavam porque se indignava tanto, porque fazia questão de futurar em negativo, quando a vida se mostrava tão afável com ele. Saramago respondia desabridamente a estas provocações, porque não confundia a sua felicidade com a infelicidade de grande parte do mundo à sua volta. Possuía, em altíssimo grau, aquilo a que os cristãos chamam compaixão — capacidade de partilhar a paixão dos outros.

Também isso fez dele um escritor universal. Ao velho postulado segundo o qual a literatura não se faz com bons sentimentos, poderia responder: nem com sentimentos ruins. Sobretudo, a literatura não se faz com o umbigo, mas com as tripas - e ele sabia como ninguém expôr as tripas do mundo. Há muito de "instalação", no sentido plástico e contemporâneo do termo, nas alegorias que são o motor dos seus romances. Muito de "performance", também; o seu discurso é uma intersecção vibrante, torrencial, de vozes eruditas e populares.

Aquilo que parece, como tantas vezes é dito, "uma escrita difícil", torna-se transparente palavra-em-ação, quando lido em voz alta. Utilizou a vírgula como marca de democratização da palavra: no barroco arrojado de Saramago, as vozes menores habitam o mesmo espaço das vozes maiores. Os seus romances históricos são futuristas, porque proféticos e protagonizados por personagens da arraia-miúda; os seus romances futuristas são históricos, porque desenvolvem tragédias anunciadas. A sua é uma escrita de herança, como era a do Padre António Vieira, um dos seus grandes modelos - na escrita, e não só. Como Vieira, Saramago foi revolucionário e conservador, feroz e terno, um vendaval de lucidez e assombro. Gostava de gostar, sim - mas também de não gostar.

Extremamente delicado no trato, não era um homem de contenções, e menos ainda de mesuras. O professor Eduardo Lourenço escrevia, no dia seguinte à sua morte: "Aparece tarde no horizonte da ficção portuguesa, quando já ninguém o esperava, provavelmente nem ele. E isso é já em si um paradoxo e sobretudo um milagre cultural. À sua maneira, era uma versão nossa da Gata Borralheira."

Depois de consagrado Cinderelo, este Gato Borralheiro dedicou-se a levantar do chão a gata lamurienta e pobrezinha que a cultura portuguesa se acostumou a ser, apesar de possuir um armário cheio de fadas e trajes sumtuososos. As suas primeiras declarações depois da notícia do Prêmio Nobel, em 1998, foram de exaltação da literatura de expressão portuguesa, de Luís de Camões a Jorge Amado e Sophia de Mello Breyner. E deu o seu nome a um prêmio para jovens escritores - prêmio que que foi concedido a Paulo José Miranda, José Luís Peixoto, Adriana Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe e, nesta edição, João Tordo. O depoimento da escritora Hélia Correia ao jornal Público é eloquente: "Que tenho um pensamento de triunfo é o que eu gostaria de explicar. Porque há aqui triunfo: a plenitude de um cidadão inteiramente dedicado à sua polis e aos seus contemporâneos. E a plenitude de um 'poeta', daquele que faz obra e é por ela tornado glorioso".

É nessa dimensão de exemplo que a ideia de uma "geração Saramago" pode fazer sentido. As parábolas alegóricas que são a matéria e o ato da ficção saramaguiana funcionam como sonhos instigantes, um genuíno cinema da imaginação. A constante defesa do escritor em relação à transposição para o cinema real - em particular o hollywoodesco - dos seus livros é, em si mesma, outra parábola exemplar. Permitiu apenas um filme, a um particular cineasta, o brasileiro Fernando Meirelles (que filmou o meu Saramago favorito, Ensaio sobre a Cegueira).

Em nenhum dos jovens escritores laureados com o Prêmio José Saramago se sente sequer uma nota da música do mestre - mas todos eles confessam a sua admiração diante do poder imagético e da energia verbal dessa obra. Saramago é difícil de copiar; o seu trajeto ensina precisamente a não temer as influências - e , sobretudo, a não nos vergarmos a elas. Ensina-nos também a não termos pressa e a não nos deixarmos encandear pelas sereias do sucesso - e esse é um ensinamento precioso, nestes tempos em que a literatura facilmente se confunde com a indústria da moda.
Creio que a felicidade que teve a coragem de procurar e alimentar na sua vida pessoal contribuiu para que o seu espírito crescesse em liberdade, inquietação e generosidade. Respeitou o neorrealismo dos seus camaradas políticos mas criou uma voz única - clássica, barroca, cubista. Fez o mesmo com a sua cabeça e a sua existência - largou a pele da ortodoxia sem rejeitar as suas origens nem abandonar os seus ideais. Os livros que nos deixa são feitos de tudo isto - e do riso de um homem que morreu de bem consigo e com a vida. Coisa rara.

Inês Pedrosa é escritora, autora de Fazes-me Falta e Os Íntimos, entre outros.

* Extraído da revista Bravo! de julho passado.

domingo, 25 de julho de 2010

José & Pilar


"Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de te conhecer, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora".

(José Saramago para Pilar Del Río)

*O documentário "José & Pilar", dirigido pelo diretor português Miguel Gonçalves Mendes terá 10 minutos exibidos na FLIP 2010 - na mesa literária que seria de Lou Reed, que cancelou participação.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Saramago - por um dia feliz


"É certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-los, para congratular-nos, ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade que tanto se fala..."

(José Saramago)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Rodeios

"... afinal, há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte."

[José Saramago]

sábado, 17 de outubro de 2009

Saramago


"Do meu ponto de vista, há apenas um lugar onde existe deus ou o diabo, ou o bem e o mal, que é na minha cabeça. Fora da minha cabeça, fora da cabeça do homem, não há nada".

(José Saramago, Entrevista Embate com Deus, Jornal O Globo, Caderno Prosa & Verso, 17-10-09, p.6 )

Imagem: Goya