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quinta-feira, 24 de julho de 2014

e


(...) ele disse e parou, e eu sabia por que ele tinha parado, era só olhar o seu rosto, mas não olhei, eu também tinha coisas para ver dentro de mim...

Raduan Nassar in: Lavoura arcaica. Companhia das Letras, terceira edição, p. 26.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

incapaz de dizer

"(...)essas coisas nunca suspeitadas nos limites da nossa casa" eu quase deixei escapar, mas ainda uma vez achei que teria sido inútil dizer qualquer coisa, na verdade eu me sentia incapaz de dizer fosse o que fosse..."

(Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, p. 28, Ed. Companhia das Letras)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

nem a banheira do Pacífico teria água bastante pra lavar o vocabulário


"(...) era pois na infância (na minha), eu não tinha dúvida, que se localizava o mundo das ideias, acabadas, perfeitas, incontestáveis, e que eu agora - na minha confusão - mal vislumbrava através da lembrança (ainda que viesse inscrito no reverso de todas elas que "a culpa melhora o homem, a culpa é um dos motores do mundo"), ao mesmo tempo em que acreditava, piamente, que as palavras - impregnadas de valores - cada uma trazia, sim, no seu bojo, um pecado original (assim como atrás de cada gesto sempre se escondia uma paixão), me ocorrendo que nem a banheira do Pacífico teria água bastante pra lavar (e serenar) o vocabulário..."

(Raduan Nassar in: Um copo de cólera. Ed. Companhia das Letras, p. 80-81)

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Imagem: André Kertész

domingo, 30 de janeiro de 2011

Oficina com José Castello e Maria Helena Lembruger (Lavoura Arcaica)

O crítico e colunista do Prosa & Verso José Castello e a psicanalista Maria Helena Lembruger participarão da oficina literária "Extremos", no Espaço Sesc, em Copacabana, entre 14 e 17 de fevereiro. Eles vão ler em voz alta o livro "Lavoura Arcaica", de Raduan Nassar, e estimular o público a fazer comentários e relatar sentimentos provocados pela obra. A oficina é gratuita e acontece das 19h às 22h. Mais informações no fone: (21) 2547-0156.

Fonte: Prosa & Verso (O Globo).

sábado, 22 de janeiro de 2011

embalando nos braços a decisão de não mais adiar a vida (Raduan Nassar)


“(...) bastava que eu soubesse que o instante que se passa, passa definitivamente, e foi numa vertigem que me estirei queimado ao lado dela, me joguei inteiro numa só flecha, tinha veneno na ponta desta haste, e embalando nos braços a decisão de não mais adiar a vida, agarrei-lhe a mão num ímpeto ousado.”

(Raduan Nassar in: Lavoura Arcaica. Ed. Companhia das Letras, p. 103-104)

sábado, 25 de setembro de 2010

Sobre o tempo


"(...) o tempo é generoso, o tempo é farto, é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens tristes, o consolo aos desamparados, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o repouso aos sem sossego, a paz aos intranquilos, à umidade às almas secas".

(Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, p. 58-59)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Caos


"(...) o mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame de nossas cercas".

(Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, p. 56)


Em algumas horas este blog muda de endereço:
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terça-feira, 21 de setembro de 2010

Arte - Raduan Nassar


"(...) não conheci ninguém que trabalhasse como você, você é sem dúvida o melhor artesão do meu corpo".

(Um copo de cólera, Raduan Nassar, p. 73)

Aliás.... a partir do dia 22 deste mês, quarta-feira, este blog muda de endereço:
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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

muitos trabalham, mas não conseguem apaziguar a fome


" - É para satisfazer nosso apetite que a natureza é generosa, pondo seus frutos ao nosso alcance, desde que trabalhemos por merecê-los. Não fosse o apetite, não teríamos força para buscar o alimento que torna possível a sobrevivência. O apetite é sagrado, meu filho.
- Eu não disse o contrário, acontece que muitos trabalham, gemem o tempo todo, esgotam suas forças, fazem tudo que é possível, mas não conseguem apaziguar a fome".

(Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, p. 159, Ed. Companhia das Letras)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Atrás da máscara - Raduan Nassar

Atrás da máscara

"Nós buscamos outras realidades porque não sabemos como desfrutar da nossa; e saímos de dentro de nós mesmos pelo desejo de saber como é o nosso interior."
(Montaigne)


Raduan Nassar não suportou ser um grande escritor e desistiu da literatura para criar galinhas. Trocou a criação estética, que é complexa e desregrada, pela mecânica suave da avicultura, e parece muito satisfeito com isso, tanto que, resistindo a todos os apelos, se recusa a voltar atrás em sua decisão. Meteu-se assim em uma situação embaraçosa na qual o exterior (a figura do escritor) e o interior (o ato de escrever) se confundem, armadilha em que, de modo mais discreto, todos os escritores de alguma forma estão presos, e que não chega a configurar uma escolha, mas um destino. Raduan abandonou a ordem do verbo, que está sempre contaminada pelo vazio e pelo espanto, para retornar à ordem natural dos animais, que é mais silenciosa, mas também mais previsível. Ovos, poedeiras, rações, pequenas pestes podem ser controlados; a escrita, não.

O sucesso de seus dois primeiros livros, Lavoura arcaica e Um copo de cólera, parece ter excedido em muito aquilo que Raduan esperava de si, e, ultrapassado pela própria obra, ele tomou a decisão de recuar. O sucesso, em seu caso, tornou-se uma carga: ele é aquele que não suporta vencer e, assim que a vitória se configura, precisa fracassar para se tornar menos infeliz. Restou a sombra de algo intolerável, a literatura, que, vista sem as pompas da reputação e da fama, tem a aparência de uma emboscada. Escrever não é só seguir uma rotina, manter-se atento e cumprir as regras dos manuais.

Mas por que terá Raduan, ao tomar a decisão de abandonar a literatura, conservado para si a imagem de escritor? Por que terá resolvido ser um homem com duas sombras — uma do escritor consagrado, outra do sujeito que desistiu de ser escritor? Raduan não é um Rimbaud, que, ao resolver que a escrita não o interessava mais, virou a página de sua biografia e, trocando de máscara, foi viver como um mercenário na África. Ao contrário, mesmo desistindo da literatura, ele não deixou de se apresentar, quase obstinadamente, como um escritor militante. Raduan é, ninguém tem dúvida, um grande escritor. Por isso, a solução que deu a seu impasse chega a parecer, às vezes, mentirosa. Quem estará dizendo a verdade: o Raduan que desistiu da literatura e se tornou só um homem silencioso com suas galinhas, ou o Raduan que, mesmo sem escrever, insiste em se ver como um escritor?" (...)

(Do livro *Inventário das Sombras, de José Castello, Editora Record, Rio de Janeiro, 1999, "Atrás da Máscara", pág. 173)

* Mais uma dica de leitura imperdível. Eu leio o Castello todo sábado, no caderno de literatura do O Globo. Também fiz um curso que ele ministrou, há tempos. Inventário das Sombras é um livro demasiado especial - para mim.

um movimento nas dobras dos teus cabelos


"Me dê tua mão, Ana. Tantas coisas que esperam. Desse teu gesto dependem minhas atitudes, minha conduta, minhas virtudes. Tudo, Ana, tudo começa no teu amor. Ele é a semente. O teu amor para mim é o princípio do mundo. Me ajude Ana, me diga alguma coisa, me diga uma palavra, me basta um leve aceno de cabeça, um movimento nas dobras dos teus cabelos, ou na sola dos teus pés... (...) Tenho vontade de varar teus santos, teus anjinhos, de dar uma dentada no coração do teu Cristo".

(Do filme: Lavoura Arcaica, inspirado na obra de Raduan Nassar)

O tempo, o tempo e suas águas inflamáveis.


"O tempo, o tempo e suas águas inflamáveis. Esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ai daquele, dizia o pai, que tenta deter com as mãos o seu movimento, será consumido por suas águas. Ai daquele, aprendiz ou feiticeiro, que abre sua camisa para o confronto, há de sucumbir nas suas chamas. O tempo e suas mudanças, presente em cada sítio, em cada palmo, em cada grão, e presente também em cada instante, em cada letra dessa minha história passional, transformando a noite escura do meu retorno numa manhã cheia de luz".

(Do filme: Lavoura Arcaica, inspirado na obra de Raduan Nassar)

dominando a todos com seu violento ímpeto de vida..


"(...) dominando a todos com seu violento ímpeto de vida... (...) me atirando sem piedade numa insólita embriaguez, me pondo confesso sem antecedentes, me fazendo ver com espantosa lucidez as minhas pernas de um lado, os braços de outro, todas as minhas partes amputadas se procurando na antiga unidade do meu corpo. Que demônio mais versátil!".

(Do filme: Lavoura Arcaica, inspirado na obra de Raduan Nassar)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

E eu que não sabia que o amor requer vigília


"Ainda com meus olhos fechados, quando voltei a tatear na palha, Ana não estava mais ali. E eu que não sabia que o amor requer vigília. Não há paz que não tenha um fim, nem taça que não tenha um fundo de veneno".

(Do filme: Lavoura Arcaica, inspirado na obra de Raduan Nassar)

minha lâmina, era meu arrepio, meu sopro, meu assédio


"Era Ana, Pedro. Era Ana minha fome, minha enfermidade. Era Ana minha loucura, era o meu respiro. Era Ana a minha lâmina, era meu arrepio, meu sopro, meu assédio. Era eu o irmão acometido, era eu o irmão exasperado, era eu o irmão de cheiro virolento, era eu que tinha na pele a gosma de tantas lesmas, a baba derramada do demo".

(Do filme: Lavoura Arcaica, inspirado na obra de Raduan Nassar)

que instante terrível é esse que marca o salto


"O tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes terrível demônio, absoluto, conferindo qualidade à todas as coisas. É ele ainda hoje e sempre quem decide. E por isso que me curvo cheio de medo, e erguido em suspense me perguntando qual o momento, qual o momento preciso da transposição? Que instante, que instante terrível é esse que marca o salto, que massa de vento, que fundo de espaço concorre para levar ao limite, o limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia a dia, para ser vida dos subterrâneos da memória".

(Do filme: Lavoura Arcaica, inspirado na obra de Raduan Nassar)

Estamos indo sempre para casa



"Se acaso distraído eu perguntasse: para onde estamos indo? Estamos indo sempre para casa".

(Do filme: Lavoura Arcaica, inspirado na obra de Raduan Nassar)