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segunda-feira, 29 de julho de 2013

ela continuaria a viver, o que não é insignificante


"Manter a postura de um corpo, preservar a a compostura de um rosto, primeiros passos no caminho para a sobrevivência. A dor da perda está aprisionada entre as barras de aço da aparência externa. Dilacerando músculos e ossos freneticamente, e impossibilitada de fugir, inflige ferimentos de ação prolongada. Ferimentos internos que serão levados para o túmulo e que nenhuma autópsia será capaz de revelar. Lentamente, a dor se cansa e adormece, mas nunca morre. Com o passar do tempo, vai se habituando à sua prisão e um relacionamento de respeito se estabelece entre prisioneiro e carcereiro. (...) Agora a batalha de Ingrid era com a dor da perda. E embora a dor, no final, acabasse vencendo, ela continuaria a viver, o que não é insignificante."

(Josephine Hart in: Perdas e danos. Ed. BestBolso, p. 186-187)

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

manto da perfeição artificial


"O rosto (...) apresentava uma imobilidade semelhante a uma máscara, característica da maquilagem perfeita e discreta. Entrou no quarto protegida pelo manto da perfeição artificial com que as mulheres que já são bonitas costumam se armar contra o mundo."

(Josephine Hart in: Perdas e danos. Ed. BestBolso, p. 175-176)

Imagem: Scarface

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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

das marcas


"Por favor, não volte a fazer perguntas. Contei a você como uma advertência. Tudo isso me marcou muito profundamente, deixou marcas indeléveis que não se pode apagar. Sou uma pessoa marcada. Pessoas marcadas são perigosas. Sabem que podem sobreviver."

(Josephine Hart in: Perdas e danos. Ed. BestBolso, p. 42)

Imagem: Andreas Gefeller

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domingo, 25 de novembro de 2012

penso que nos encontramos num trem, e que você desceu numa parada não-prevista e eu segui


"Está magoada, Laura? Não posso fazer nada. Estou seguindo em frente, Laura, e você não está. É só isso, realmente. É uma imagem idiota, mas às vezes eu penso que nos encontramos num trem, e que você desceu numa parada não-prevista e eu segui. Só isso. Eu continuei. Depois, passei para um vagão diferente, encontrei outros passageiros. Não sei quando vai chegar a minha parada."

(Josephine Hart in: Abandono. Ed. Record, p. 189)

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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Homem nenhum jamais bebeu champanhe após uma derrota



"Tomei o meu uísque e observei o champanhe aumentar ainda mais a alegria geral, à medida que a festa prosseguia. O uísque é uma bebida que ajuda a pôr as coisas em ordem. Homem nenhum jamais bebeu champanhe após uma derrota. Depois dessa derrota, não lhe resta mais nenhuma saída, disse a si mesmo. Também não sentia raiva ou ódio. Apenas uma aceitação, uma resignação ao sofrimento."

(Josephine Hart in: Perdas e danos. Ed. BestBolso, p. 132)

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Imagem: Jean-Baptiste Mondino

terça-feira, 31 de julho de 2012

da inocência e dos danos

"Existem pessoas neste mundo, inocentes à sua maneira, que causam danos".

(Josephine Hart in: Perdas e danos. Ed. BestBolso, p. 141)

terça-feira, 24 de julho de 2012

um visitante de velhas paisagens

Perdas e danos
"- A última coisa que ela me disse foi: "Acabou. Acabou tudo." Mas não aceito isso.
- Porque ainda não acabou para você.
- Nunca estará acabado.
- Talvez não. Talvez não. Mas agora você será apenas um visitante de velhas paisagens, de velhos quartos, de velhos sonhos. Talvez isso seja o suficiente para você."

(Josephine Hart in: Perdas e danos. Ed. BestBolso, p. 199)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

em casa

A insustentável leveza do ser
"Eu me sentira em casa. Só por um momento, mas durante mais tempo do que a maioria das pessoas. Era o suficiente, suficiente para o resto da minha vida."

(Josephine Hart in: Perdas e danos. Ed. BestBolso, p. 31)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

ela era a carta que não deveríamos ter aberto

"Ela era aquela experiência de uma fração de segundo que modifica tudo - o acidente de automóvel, a carta que não deveríamos ter aberto, o caroço no seio ou na virilha, o clarão que cega. No meu palco bem ordenado as luzes se acenderam, e talvez, finalmente, eu estivesse esperando nos bastidores para entrar em cena."

(Josephine Hart in: Perdas e danos. Ed. BestBolso, p. 35)

domingo, 27 de maio de 2012

Você já esteve feliz?

"Estou feliz. Simplesmente não consigo acreditar nisso. Estou feliz. Nunca estive feliz na minha vida, exceto durante a infância. Agora estou feliz. É uma experiência, um sentimento extraordinário. Você já esteve feliz?
- Não sei. Talvez sim. É triste, mas realmente não consigo lembrar - suspirei. - Parece tão pouco importante..."
 
(Josephine Hart in: Perdas e danos. Ed. BestBolso, p. 159)

quarta-feira, 16 de maio de 2012

da marca

"- E isso a transforma numa pessoa perigosa?
- Todas as pessoas marcadas são perigosas. A sobrevivência faz com que se tornem perigosas.
- Por quê?
- Porque não têm piedade. Sabem que outros podem sobreviver, da mesma forma que elas.
- Mas você me avisou.
- Sim.
- E isso não foi um ato de piedade?"

(Josephine Hart in: Perdas e danos. Ed. BestBolso, p. 42)

terça-feira, 15 de maio de 2012

o nascimento é, por natureza, violento

"Eu sentia, literalmente, que estava nascendo. E porque o nascimento é, por natureza, violento, nunca procurei e tampouco encontrei gentileza.
Os limites externos de nossa existência são alcançados através da violência. A dor se transforma em êxtase. Um olhar se transforma numa ameaça. Um desafio íntimo, mais profundo do que olhares ou palavras, que só Anna e eu podíamos compreender, nos arrastou, fazendo com que continuássemos, seduzidos pelo poder de criar nosso magnífico universo particular."

(Josephine Hart in: Perdas e danos. Ed. BestBolso, p. 45)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

do ver

Bonequinha de luxo
"- Ainda não. Ainda não pensei a respeito disso. Simplesmente, não consigo ver nada além de você.
- Sabe, acho que você nunca viu mesmo muita coisa. Nunca."

(Josephine Hart in: Perdas e danos. Ed. BestBolso, p. 53)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Queria sentir minha passagem pela Terra

"Mas conheci Anna. E tive que fazê-lo, e abrir aquela porta, e entrar na minha câmara secreta. Queria sentir minha passagem pela Terra, agora, já tendo ouvido a canção que canta da cabeça aos pés e experimentado a selvageria impetuosa que arrasta, rodopiando, os dançarinos para longe dos olhares chocados dos espectadores; descera cada vez mais fundo e subira cada vez mais alto no interior de uma realidade singular - a explosão estonteante do ego."

(Josephine Hart in: Perdas e danos. Ed. BestBolso, p. 44)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

dos clandestinos

"Mas durante a infância faltava-me coragem para me rebelar. Assim, me tornei uma clandestina. Buscando maneiras secretas de ser."

(Josephine Hart in: Pecado. Ed. Círculo do Livro, p. 16)

sábado, 1 de outubro de 2011

do tempo

"- Foi há muito tempo.
- E por acaso torna as coisas melhores, Andrew? O tempo? Por acaso torna as coisas melhores?
- Espero que sim, Jane. Realmente espero que sim."

(Josephine Hart in: Abandono. Ed. Record, p. 172) 

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Abandono

“- Eu sei.
- Sabe?
- Sim, Jane. Sei.
Não perguntei como e, abruptamente, me despedi. Estou fraca demais para suportar a dor de outra pessoa. Quero me concentrar na minha. O egoísmo dos recém-abandonados. Ninguém sofreu como eu sofri. Tire este sofrimento amargo de mim. Não é para mim este cálice amargo. Maldito seja. Não me obrigue a bebê-lo. Aargh. Pronto, pronto. Já acabou. Até a última gota. Muito bem. Boa garota. Você bebeu até a última gota. É a melhor maneira, creia-me. Todo este negócio de golinhos e de todo mundo segurando a mão. Uma total perda de tempo. Abra a boca. Deixe a lava entrar. Descer pela língua e pela garganta abaixo, arrancando a membrana. Bom, tudo vai soar diferente e ter um gosto diferente. Como deve ser.”

(Josephine Hart in: Abandono. Ed. Record, p. 55)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

De qualquer maneira, a experiência não nos ensina necessariamente nada.

An education
"- Eu compreendo. Não se preocupe. Com o tempo, vai melhorar.
- Não devia ser tão paciente comigo, Sarah.
- Não sei o que é o amor, se não é paciência.
- Mas, Sarah, você diz isso de tudo o que lhe peço. O que é coisa demais. Você diz: "Não sei o que é o amor se não é a bondade." "Não sei o que é o amor se não é compreensão." Talvez, Sarah, seja apenas piedade?
- O que há de errado com a piedade? Há um amor em toda a piedade. E alguma piedade em tudo o que é amor.
(...) - Como é que você sabe? Você é tão moça, Sarah.
- Todo mundo sabe essas coisas.
- Nem todo mundo sabe.
- Você está enganado. É só que nem todo mundo age de acordo com elas. De qualquer maneira, a experiência não nos ensina necessariamente nada. Algumas vezes, ocorre exatamente o oposto."

(Josephine Hart in: Abandono. Ed. Record, p. 167-168)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Existe alguma coisa que seja verdade o tempo todo?

"- Acredita que é verdade?
- Creio que é uma ideia interessante. É verdade com relação a muitos momentos da vida. Muito pouco é verdade o tempo todo.
- Existe alguma coisa que seja verdade, Srta. Samuelson, o tempo todo?
- O tempo todo? Sim. O que é agora não será depois;
- De sua autoria? - Havia aprendido a lição.
- Sim, quanto à fraseologia. O pensamento não é muito original.
- Então acredita que tudo muda?
- E então muda de novo."

(Josephine Hart in: Abandono. Ed. Record, p. 76) 

sábado, 18 de junho de 2011

sobre o amor, realmente

"Mentiras verdadeiras são essenciais para todos nós. E a maioria delas é sobre o amor, realmente."

(Josephine Hart in: Abandono. Ed. Record, p. 115)