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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Fragmento do leitor 47

Morte em Veneza
“Como se faz para viver uma vida vazia? Como se faz para viver uma vida cheia de nada?”

Personagem Benjamin (Ricardo Darín) à personagem Irene (Soledad Villamil), no filme O segredo dos seus olhos, filme argentino de Juan José Campanella, de 2009, que estreou no Brasil em 2010.

Enviado pela leitora Olga Belém.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fragmento do leitor 50

Hermann Nitsch
"(...) Levantamos e nos vestimos sem olhar um para o outro.
Fomos para a sala. Conversamos um pouco. Minha namorada
olhou para o relógio, disse tenho que ir, querido, me deu uns
beijinhos no rosto, foi embora e eu dei um tiro no peito.
Mas esta história não termina aqui. Eu devia ter atirado
na cabeça, mas foi no peito e não morri. Durante a convalescença,
Roberto me visitou várias vezes para dizer que tínhamos pouco
tempo, mas ainda podíamos fazer a cirurgia da bexiga, com êxito.
Isso foi feito. Agora eu esvazio com facilidade a bolsa de
urina. Ela fica bem escondida sob a roupa, ninguém percebe que
está ali, sobre o meu abdome. O câncer parece que foi extirpado.
Não tenho mais namorada e estou viciado em palavras cruzadas.
Deixei de ir à praia. Fui uma vez, para jogar o revólver no mar."
 
(RUBEM FONSECA in: Beijinhos no Rosto, do livro Secreções, Excreções e Desatinos. Companhia das Letras, 2001. Pág. 59.)

Enviado pelo leitor: Valder C. Magalhães Jr.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Fragmento do leitor 49

Manuel Nuñez
"(...) Ele bebeu de novo.
- O que há de mais maravilhoso é o mar, eu acho, o próprio mar - ou será a juventude? Quem sabe? Mas, e vocês aqui, vocês que tiveram as coisas que a vida pode dar, dinheiro, amor, tudo o que se pode ter em terra firme, me digam: não foi a melhor época aquela em que éramos jovens ao mar? Jovens e sem nada, no mar que nada nos dá em troca, só bordoadas e, às vezes, a oportunidade de testar nossa força, apenas isso... Não é daquela época que vocês sentem saudade?
Nós todos concordamos com ele: o homem das finanças, o homem dos negócios, o homem da lei. Todos concordamos com ele, em volta daquela mesa polida que refletia nossos rostos vincados, enrugados, rostos marcados pela fadiga, pelas decepções, pelo sucesso, pelo amor. Nossos olhos exaustos procurando ainda, procurando sempre, procurando ansiosos um sentido pra vida - sentido que, só por ser esperado, já se desvanece, desapercebido, num suspiro, num instante, levando a juventude, levando a força, levando o romance das ilusões."
      
Do conto "Juventude", de Joseph Conrad, tradução: Marilene Felinto & Heloísa Prieto, Ed. Max Limonad, São Paulo, 1985.

Enviado pelo leitor Humberto Pereira.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Fragmento do leitor 48

Anna Ancher
Explicação

Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.

Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.

Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma

[cambalhota

mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu pais, esta sombra mole,

[preguiçosa.


Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego

[vagabundo,
é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.


E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era...
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.

Quem me fez assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices, a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.

Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?

Carlos Drummond de Andrade, do livro: Alguma Poesia / Antologia Nova Reunião, 23 livros de poesia. Ed. Nova Reunião. Pág. 47)

Enviado pela leitora Jenifer Carmo, do blog http://consideracaodopoema.blogspot.com/

Para participar:
1) O fragmento (um trecho que não seja imenso) pode ser de livro ou filme (diálogo). Enviem seu fragmento favorito para meu e-mail (vanessa.sza@bol.com.br) e o título do e-mail
deve ser: Qual seu fragmento favorito? 
2) É necessário que o autor/roteirista/diretor/poeta seja publicado/conhecido, para citarmos a fonte corretamente. Autor, título do livro. Com editora e página, melhor ainda. Assim, o leitor pode ir atrás da obra.
3) O nome do leitor e o link do seu blog vão constar aqui, para a divulgação dos mesmos. Quem é leitor mas não tem blog também pode participar. No final de janeiro o fragmento que mais me tocou vai ganhar um DVD + um livro.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Fragmento do leitor 46

- Vovô, como acontece o amor?

- Ninguém sabe verdadeiramente. Mas há alguns sinais, é claro. O seu coração acelera, por exemplo. Quer sempre, sempre, ver e estar com essa pessoa. Ela significa o mundo para você. Não se preocupa com mais nada.

- Estava apaixonado pela vovó?

- Ainda estou apaixonado por ela.

Do filme: Ask Tesadüfleri Sever, direção: Ömer Faruk Sorak – 2011 / Turquia

Título em inglês: Love Likes Coincidences

Enviado pela leitora Jenifer Carmo, do blog http://consideracaodopoema.blogspot.com/

Para participar:
1) O fragmento (um trecho que não seja imenso) pode ser de livro ou filme (diálogo). Enviem seu fragmento favorito para meu e-mail (vanessa.sza@bol.com.br) e o título do e-mail
deve ser: Qual seu fragmento favorito?  
2) É necessário que o autor/roteirista/diretor/poeta seja publicado/conhecido, para citarmos a fonte corretamente. Autor, título do livro. Com editora e página, melhor ainda. Assim, o leitor pode ir atrás da obra.
3) O nome do leitor e o link do seu blog vão constar aqui, para a divulgação dos mesmos. Quem é leitor mas não tem blog também pode participar. No final de janeiro o fragmento que mais me tocou vai ganhar um DVD + um livro.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Fragmento do leitor 45

"Agora vou lhe dar uma coisa em que acreditar. Tenho precisamente cento e um anos e cinco meses e um dia" disse a rainha.
"Não posso acreditar nisso" respondeu Alice.
"Não?" Disse a rainha com muita pena. "Tente de novo: respire fundo e feche os olhos".
Alice riu. "Não adianta tentar" disse; "não se pode acreditar em coisas impossíveis."
"Com certeza não tens muita prática" disse a Rainha, "quando eu era da sua idade, sempre praticava meia hora por dia. Ora, algumas vezes já cheguei a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã."

Alice, Lewis Carroll

Colaboração da leitora: Ana Izabel Passarella Teixeira
Blog:  http://fullutilidade.blogspot.com/

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Fragmento do leitor 44

Pierre Georges Jeanniet
O livro

De manhã, quando passei à frente da loja
o cão ladrou
e só não me atacou com raiva porque a corrente de ferro
o impediu.
Ao fim da tarde,
depois de ler em voz baixa poemas numa cadeira preguiçosa do jardim
regressei pelo mesmo caminho
e o cão não me ladrou porque estava morto,
e as moscas e o ar já haviam percebido
a diferença entre um cadáver e o sono.
Ensinam-me a piedade e a compaixão
mas que posso fazer se tenho um corpo?
A minha primeira imagem foi pensar em
pontapeá-lo, a ele e às moscas, e gritar:
Venci-te.
Continuei o caminho,
o livro de poesia debaixo do braço.
Só mais tarde pensei, ao entrar em casa:
não deve ser bom ter ainda a corrente
de ferro em redor do pescoço
depois de morto.
E ao sentir a minha memória lembrar-se do coração,
esbocei um sorriso, satisfeito.
Esta alegria foi momentânea,
olhei à volta:
tinha perdido o livro de poesia.

(Gonçalo M. Tavares in: 1. Editora Bertrand Brasil, p. 23)

Enviado pelo leitor: Valder C. Magalhães Jr.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Fragmento do leitor 43

“Eis uma mulher cuja graça é natural, naturalmente consequência do que ela é, do que ela busca, do que ela faz, do que ela investe, não é graça de farmácia, que se aplica nos cabelos, que se esparge nas bochechas, que se colore nos lábios, ela – toda ela, sua graça - vem de dentro para fora, lá do fundo de um turbilhão de ânsias e desejos que, quando lhe atravessam os poros, fazem de seu corpo esta casa de campo, esta casa de praia, esta rede estendida a quem souber veranear”.

Felipe Moura Brasil - texto Novo amor, do livro "Contra a juventude", crônicas tiradas do site Tribuneiros.com

Enviado pela leitora Olga Belém.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Fragmento do leitor 42

"Está tudo tão esquisito hoje! E as coisas ontem aconteciam como era de costume. Será que eu fui trocada durante a noite? Deixe-me pensar: será que eu sou eu mesma? Tenho a ligeira lembrança que me senti um bocadinho diferente. Mas, afinal, se eu não sou a mesma, fica a pergunta, quem sou eu?"

Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll

Colaboração da leitora: Ana Izabel Passarella Teixeira
Blog:  http://fullutilidade.blogspot.com/

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Fragmento do leitor 41

Pelo que vale nunca é tarde demais... ou no meu caso cedo demais, que seja o que se  quer não há limite de tempo para começar quando quiser. Pode mudar ou ficar na mesma. Não há regra para isso. Pode escolher o melhor e o pior da vida. Espero que escolha o melhor da vida. Espero que sejam coisas que te surpreendam. Espero que sinta coisas que nunca sentiste antes. Espero que conheça pessoas de pontos de vista diferentes. Espero que viva uma vida que se orgulhe. E acha que não é capaz, espero que tenha forças... para recomeçar de novo...

Fonte: Filme O Curioso Caso de Benjamin Button
Direção David Fincher
Baseado no conto de Francis Scott Fitzgerald

Colaboração da leitora: Juliana Reis
Blog: http://diariodenotasefotografias.blogspot.com/

domingo, 25 de dezembro de 2011

Fragmento do leitor escolhido

Foi esse aqui. 

Colaboração da leitora Liana Pauluka do blog http://www.alinguagemsecretadaspalavras.blogspot.com/

Todas as demais colaborações ainda não publicadas serão postadas. A ideia seguirá em 2012.

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3) O nome do leitor e o link do seu blog vão constar aqui, para a divulgação dos mesmos. Quem é leitor mas não tem blog também pode participar. Dia 31 de janeiro o fragmento que mais me tocou vai ganhar um DVD + um livro.  

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Fragmento do leitor 40

A insustentável leveza do ser

"E uma mulher que não tem sossego não suporta nunca a idéia de ser retirada em seu caminho".

A insustentável leveza do ser - Milan Kundera - pags. 124-125 - Ed. Companhia de Bolso

Enviado pela leitora Ingrid Camargo, do blog http://balletaosvinte.blogspot.com/

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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Fragmento do leitor 39

Closer
(68.)

Outro dia, ao escutar a palavra amor, imediatamente veio-me à cabeça a criança revirando a gaveta onde sabe perfeitamente que irá encontrar o que não procura.

Do livro: Casa entre Vértebras, Wesley Peres. Ed. Record, pág. 92

Enviado pela leitora Jenifer Carmo, do blog http://consideracaodopoema.blogspot.com/

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sábado, 10 de dezembro de 2011

Fragmento do leitor 38

Guy Meachin
“Inconscientemente, parecia querer buscar em autores, filmes e música, algum tipo de consolo. Como se alguém precisasse chegar bem perto do sofá, onde estava, colocar uma das mãos no meu ombro e dizer que aquilo era normal. Que acontecia também com outras pessoas. E que iria passar.”

Eduardo Baszczyn in Desamores


Enviado pela leitora: Tainá Tebaldi Lajara.

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Fragmento do leitor 37

Ivan Olinsky
“Somei livros aos livros e a soma só deu certa porque os sonhos também sabem matemática. Tornei-me adulto à força de querer continuar menino, nos corredores e pátios de luz e penumbra que se cruzam por dentro do som das palavras. Viajei com elas até ao limite da lembrança da infância e levei comigo, que a solidão poucas vezes é boa conselheira, a lealdade e a sabedoria do vento.”

José Jorge Letria in: “Fábula do Vento ou O Sentimento Mágico da Vida”.

Enviado pelo leitor Rui Pascoal, do blog: http://tintacompinta.blogspot.com

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Fragmento do leitor 36

Eva Rubinstein
''Conseguiu entender tudo na hora em que se viu frente a frente com os alemães, que subiam pela alameda até Goletta e disparavam rajadas de ''cospe-fogo'' entre as moitas. Então, deitado no chão, começou a disparar mosquetaços um atrás do outro e entendeu o por que fazia. Entendeu que aqueles homens lá embaixo eram soldados que o haviam prendido porque ele não estava com os documentos regularizados, eram vigilantes da Todt que marcavam suas horas, eram o tenente do serviço que o fazia limpar as latrinas, eram todas essas coisas juntas, mas era também o patrão que o mandava capinar com a enxada a semana inteira antes que ele fosse ser soldado, eram os rapazinhos que o fizeram tropeçar na calçada na vez em que ele fora à cidade para a feira, eram até mesmo o seu pai, naquele dia em que lhe dera um tabefe. E era também Margherita, Margherita que já estava ali quase gozando com ele e depois tinha voltado atrás, não propriamente Margherita mas aquela coisa que fizera Margherita voltar atrás: esse era um pensamento ainda mais difícil que os outros, mas naquele momento ele entendia. Depois parou para pensar por que os homens lá embaixo atiravam nele, berravam para ele e desabavam sob seus tiros. E entendeu que eram homens iguais a ele; eram malucos de brigar com ele, que não tinha nada a ver com isso, e por isso ele atirava, mas se todos estivessem com ele, ele não teria atirado neles mas nos outros, não sabia direito em quem, e Margherita teria vindo com ele. Mas como era possível que os inimigos fossem estes e não aqueles, bons ou maus, como ele ou contra ele; por que ele estava aqui, no lado certo, e eles estavam lá, no lado errado: isso Natale não entendia - era o vôo de patos; era isso e mais nada''.
 
Italo Calvino in: Como um vôo de patos, do livro ''Um General Na Biblioteca'' Companhia das letras, 2001. tradução: Rosa Freire dÁguiar. Página 49

Enviado por: Ricardo Rodrigo França Da Silva.

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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Fragmento do leitor 35

"Tínhamos acabado de jantar. Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande
comerciante e açambarcador notável, fumava como quem não pensa. A conversa, que
fora amortecendo, jazia morta entra nós. Procurei reanimá-la, ao acaso, servindo-me
de uma idéia que me passou pela meditação. Voltei-me para ele, sorrindo.

- É verdade: disseram-me há dias que V. em tempos foi anarquista...

- Fui, não: fui e sou. Não mudei a esse respeito. Sou anarquista.

- Essa é boa! V. anarquista! Em que é que V. é anarquista?... Só se V. dá à palavra
qualquer sentido diferente...

- Do vulgar? Não; não dou. Emprego a palavra no sentido vulgar.

- Quer V. dizer, então, que é anarquista exatamente no mesmo sentido em que são
anarquistas esses tipos das organizações operárias? Então entre V. e esses tipos da
bomba e dos sindicatos não há diferença nenhuma?

- Diferença, diferença, há... Evidentemente que há diferença. Mas não é a que V.
julga. V. duvida talvez que as minhas teorias sociais sejam iguais às deles?...

- Ah, já percebo! V., quanto às teorias, é anarquista; quanto à prática...

- Quanto à prática sou tão anarquista como quanto às teorias. E quanto à prática sou
mais, sou muito mais, anarquista que esses tipos que V. citou. Toda a minha vida o
mostra."

O Banqueiro Anarquista - Fernando Pessoa


Enviado pelo leitor Dário B. do blog: http://www.estranhamobilia.blogspot.com


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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Fragmento do leitor 34

"Se eu não nascesse lá, com aquela luz grossa da cidade, com aquele soar de mangueiras, eu seria outra pessoa, não seria eu, nós somos a nossa história, nós somos o que nós nascemos, o que nós comemos, o que nós vivemos e o que nós inventamos."

Ferreira Gullar - no programa Roda-Viva, em março de 2011, quando perguntado sobre São Luís, Maranhão, sua cidade de origem.

Enviado pela leitora Olga Belém.


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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Fragmento do leitor 33


A mulher mais bonita do mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão", Temas e debates, 2002


Enviado pelo leitor José Ferreira, do blog http://omarpareceazeite.blogspot.com/


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domingo, 4 de dezembro de 2011

Fragmento do leitor 32

"Talvez um dia eu seja uma pessoa mais equilibrada. Dessas que não se abalam tanto com os problemas. Que sabem administrar com inteligência a maioria das situações. Mas, por enquanto, confesso que não consigo. Basta uma coisa dar errado para estragar todas as outras. Um desequilíbrio literal. Imagino meu humor como uma pilha de latas em um corredor de supermercado. Estão todas lá: umas em cima das outras. Organizadas. Alinhadas. Aí vem uma criança teimosa e tira uma das latas de baixo. A do meio! E, em dois segundos, está tudo no chão. Era impossível que continuassem de pé sem aquela lata.
Ando meio triste. Uma criança teimosa passou por aqui um dia desses e levou o que queria.
Tirou uma lata e foi embora. Sei que vou ficar bem. No fim, as coisas sempre se ajeitam. Mas dá um trabalho organizar tudo de novo! Ter de pegar lata por lata e empilhar outra vez... Uma a uma. Bem devagar. Até achar o tal do equilíbrio."
 Eduardo Baszczyn in Desamores

Enviado pela leitora: Tainá Tebaldi Lajara.


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