segunda-feira, 15 de outubro de 2012

alienando-se das próprias lembranças


"Leila parecia estar se desvanecendo, recuando para as curvaturas de um mundo que seguia adiante no tempo, alienando-se das próprias lembranças".

(Lawrence Durrel in: O quarteto de Alexandria - Mountolive. Ed. Ediouro: 2006, p. 43)

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domingo, 14 de outubro de 2012

sempre houve confusão entre ficção e filosofia


"Entrevistadora
O senhor acha que a ficção deveria transmitir lições?

Cheever
Não. A ficção se destina a iluminar, explodir, renovar. Não acho que exista qualquer filosofia moral posterior na ficção além da qualidade. Profundidade de sentimentos e agilidade sempre me pareceram muito importantes. As pessoas procuram moral na ficção porque sempre houve confusão entre ficção e filosofia.)

(As entrevistas da Paris Review Volume 2. John Cheever. Ed. Companhia das Letras, p. 96)

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sábado, 13 de outubro de 2012

identificação e projeção, nos livros


"Fazemos investimentos passionais individuais em inúmeras fantasias que elaboramos, seja de olhos abertos, seja dormitando. Podemos realmente nos comover pensando na morte de uma pessoa que amamos, ou sentir reações físicas imaginando ter com ela uma relação erótica, e igualmente, por processos de identificação e projeção, podemos nos comover com a sorte de Emma Bovary ou, como aconteceu a algumas gerações, somos levados ao suicídio pelas desventuras de Werther ou de Jacopo Ortis."

(Umberto Eco in: Sobre a literatura. Ensaio: Sobre algumas funções da linguagem. Ed. Record, p. 17)

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Imagem: A insustentável leveza do ser

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

e no susto...


"Logo depois, ficaria assustada com esse sentimento. Mas contra os sentimentos ninguém pode fazer nada, estão aí e escapam a qualquer censura. Podemos nos censurar por um ato, uma palavra pronunciada, não podemos nos censurar por um sentimento, simplesmente porque não temos nenhum poder sobre ele."

(Milan Kundera in: A identidade. Ed. Companhia de Bolso, p. 32-33)

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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

do instinto

"Se a obra de arte proviesse da intenção de fazê-la, podia ser produto da vontade. Como não provém, só pode ser, essencialmente, produto do instinto."

(Fernando Pessoa)

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Imagem: Gauguin

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Algo sempre faltava - a carne, imagino, que o perfume meramente envolvia. - Lawrence Durrel


"Há pouco tempo, quando por um motivo qualquer tive dificuldades em encontrar-me com ela, senti tantas saudades que fui até Pientratoni comprar um frasco de seu perfume. Em vão. A gentil balconista espargia gotas de todas as marcas sobre minhas mãos, e vez por outra achei ter descoberto qual delas Justine usava. Mas não. Algo sempre faltava - a carne, imagino, que o perfume meramente envolvia. Faltavam as marés daquele corpo. Somente quando, tomado pelo desespero, mencionei o nome de Justine, a garota apanhou o primeiro perfume que havíamos experimentado. 'Por que não me falou logo de início?', reclamou, com um ar de mágoa profissional; seu tom de voz sugeria que todos, menos eu, sabiam qual era o perfume usado por Justine. Mas era irreconhecível. Ainda assim, fiquei surpreso ao descobrir que Jamais de la vie não estava nem entre os mais caros, nem entre os mais exóticos dos perfumes."

(Lawrence Durrel in: O quarteto de Alexandria - Justine. Ed. Ediouro: 2006, p. 181)

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terça-feira, 9 de outubro de 2012

que liga o leitor a um livro


"Expor-se: entender que ler é, também, ser lido. Nada se assemelha ao contato silencioso e misterioso, mas intenso, que liga o leitor a um livro. Trata-se de uma experiência íntima, secreta, em que a inteligência e a sensibilidade se expandem, mas também, se apequenam."


(José Castello in: A literatura na poltrona. Ed. Record, p. 25)

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Imagem: Frank Mason

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Com afeto e mau humor - I


"- Catarina, estou fodido - Antônio olha para o teto branco.
- Essa é a mais bela declaração de amor que eu ouvi na vida - Catarina beija o ombro dele.
- Começou a acreditar em amor?
- Não foi exatamente o que eu disse, o que quis dizer... Espera - levanta-se de súbito e pega uma pilha de livros.
- Hein? Volta para cá - ele puxa o lençol para trazê-la de volta. Catarina se desvencilha, com dois passos à direita.
- Calma...
- Aonde você vai, Catarina?
- Preciso dar uma olhada no seminário vinte do Lacan - ela pega os óculos Prada ao lado do laptop.
- Lacan?! Agora?! - incrédulo diante da frase dela.
- Sim... É sobre o amor... - mexe nos livros, sem encontrar.
- Precisas de teoria para traduzir um sentimento?
- Sim, preciso sim...
Antônio esfrega as mãos no rosto. Desolador."

(Vanessa Souza e Rapha Micelli in: Com afeto e mau humor. Dentro de algum tempo, nas livrarias)

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domingo, 7 de outubro de 2012

falham as palavras


"Assim como falham as palavras quando queremos exprimir qualquer pensamento,/ Assim faltam os pensamentos quando queremos pensar qualquer realidade."

(Alberto Caeiro)

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sábado, 6 de outubro de 2012

Como podia sentir saudade se ele estava na frente dela?


"Saudade? Como podia sentir saudade se ele estava na frente dela? Como se pode sofrer com a ausência de alguém que está presente? (Jean-Marc saberia responder: pode-se sofrer de saudade na presença do amado se se entrevê um futuro em que o amado já está então, invisivelmente, presente.)"

(Milan Kundera in: A identidade. Ed. Companhia de Bolso, p. 32)

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ficções e mentiras não são a mesma coisa


"Mas é claro que ficções e mentiras não são a mesma coisa. E, no entanto, se as ficções e os poemas não nos invadissem, se não nos agitassem e viessem tumultuar nosso interior, para que mais poderiam servir? Para render direitos autorais? Para enriquecer editores e editoras? Para alimentar a fome da crítica e da imprensa literária? Para a felicidade dos livreiros?"

(José Castello in: A literatura na poltrona. Ed. Record, p. 36)

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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

insaciável da escrita


"Como é insaciável o vício abrasivo de escrever."

(Gabriel García Márquez)

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experiência estética é secreta


"A experiência estética é secreta porque é interior; ela é pessoal porque a literatura só toma corpo na mente e nos nervos de cada leitor. Submetido ao impacto de um livro, cada leitor a ele se abre (ou se fecha) e permite (ou recusa) um golpe."

(José Castello in: A literatura na poltrona. Ed. Record, p. 34)

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Imagem: Mónica Pironi

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

teia da vida


"Não vai cortar jamais a teia da própria vida: vaidosos não se matam, medrosos também não."

(Evandro Affonso Ferreira in: Minha mãe se matou sem dizer adeus. Ed. Record, p. 22)

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Imagem: Rankin

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

tempos imemoriáveis


"Fico deitado aqui, enquanto o tempo passa, refletindo sobre isso. Toda sorte de tempo escorre pela ampulheta, "tempos imemoriáveis", "tempo devido" e "tempo perdido"; o tempo do poeta, do filósofo, da grávida, do calendário..."

(Lawrence Durrel in: O quarteto de Alexandria - Justine. Ed. Ediouro: 2006, p. 58)

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