“E, se um homem pode dormir salgado de mar e pela manhã se descobrir guardador de rebanho, e se um outro acordou inseto na mente de um escritor, e se dos desenhos de uma pintora floresceu um abaporu, e se numa tela imóvel irromperam formigas e um cão andaluz, e se campos e ramos e rosas pariram territórios imaginários, tu podes amanhecer tristeza, entardecer esperança e anoitecer sol.”
João Anzanello Carrascoza in: Caderno de um ausente. Cosac Naify
domingo, 10 de janeiro de 2016
sábado, 9 de janeiro de 2016
dos amigos
No jogo de bilhar da amizade, a prerrogativa fora minha: eu o tinha sorteado para ser a eterna bola da vez. Que assumisse a condição.
Silviano Santiago in: Mil rosas roubadas. Companhia das Letras, p. 27.
Silviano Santiago in: Mil rosas roubadas. Companhia das Letras, p. 27.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
da leitura
A leitura de Proust, de Blanchot, de Kafka, de Artaud não me deu vontade de escrever sobre estes autores (nem sequer, acrescento, como eles), mas sim de escrever. Nessa perspectiva, a leitura é verdadeiramente uma produção: não já de imagens interiores, de projecções, de fantasmas, mas, à letra, de trabalho: o produto (consumido) é transformado em produção, em promessa, em desejo de produção, e a cadeia engendra, até o infinito.
Roland Barthes in: O rumor da língua. Edições 70, p. 36.
Roland Barthes in: O rumor da língua. Edições 70, p. 36.
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
da ironia
A ironia irrita. Não porque ela zombe ou ataque, mas porque nos priva de certezas, desvendando o mundo com ambiguidade.
Milan Kundera
Milan Kundera
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
o tempo, sempre ele
"(...) eu ia te ensinar por que de não em não o tempo se sacia de nós, o tempo nos nega os desejos e nos avilta os sonhos, por que não existe a terra prometida senão em nós, e por que ela está cercada de continentes barrentos e istmos movediços...”
João Carrascoza in: Caderno de um ausente. Cosac Naify, p. 36
João Carrascoza in: Caderno de um ausente. Cosac Naify, p. 36
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Da dor
Um átimo de dor faz esquecer toda uma vida anterior de felicidade. O tempo bom, por outro lado, demora a se assentar nos ânimos dos que sofreram.
Estevão Azevedo in: Tempo de espalhar pedras. Cosac Naify, p. 130.
Estevão Azevedo in: Tempo de espalhar pedras. Cosac Naify, p. 130.
domingo, 6 de dezembro de 2015
Acontece que...
Acontece que ela era um ser estranho, solitário, misterioso. Difícil de conviver, mas encantadora nos bons momentos. (...) Mas ela foi se desencontrando de mim, e à medida que ela se afastava, mais e mais eu me empenhava em reconquistá-la.
Jacques Fux in: Brochadas. Ed. Rocco, p. 58.
Imagem: Cet obscur objet du désir.
P.S.: bartheanamente falando, a grande fruição do leitor: sou eu nas duas primeiras frases!
Jacques Fux in: Brochadas. Ed. Rocco, p. 58.
Imagem: Cet obscur objet du désir.
P.S.: bartheanamente falando, a grande fruição do leitor: sou eu nas duas primeiras frases!
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
da noite
.. pois há pessoas que mal amanhecem entre nós, logo anoitecem.
João Carrascoza in: Caderno de um ausente. Cosac Naify, p. 75.
João Carrascoza in: Caderno de um ausente. Cosac Naify, p. 75.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
coragem, cadê?
Quanto mais mastigava essa pasta de autocomiseração, mais lhe apetecia o sabor inédito da fuga. Mas e a coragem?
Estevão Azevedo in: Tempo de espalhar pedras. Ed. Cosac Naify, p. 84.
Estevão Azevedo in: Tempo de espalhar pedras. Ed. Cosac Naify, p. 84.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
do mutismo
As palavras têm coragem de mostrar o rosto sorridente enquanto o mutismo lhes rasga as costas a chicotadas...
João Carrascoza in: Caderno de um ausente. Cosac Naify, p. 108.
João Carrascoza in: Caderno de um ausente. Cosac Naify, p. 108.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
que fazer
Não havia nada pior, nada mais espantosamente cruel do que a sensação de não saber o que fazer de si mesma. Era impossível viver assim. Ainda uma vez, Pedro tinha razão: as pessoas não se destroem senão na razão da realidade que elas creiam. Seria bem isso? Talvez não fosse.
Lucio Cardoso in: A luz no subsolo. Ed. Expressão e Cultura, p. 124.
Lucio Cardoso in: A luz no subsolo. Ed. Expressão e Cultura, p. 124.
terça-feira, 6 de outubro de 2015
das tragédias
"(...)Qual é o sentido da vida?"
"Parece que não há nenhum", respondeu o sr. Cantor.
"Onde estão as balanças da justiça?", insistiu, infeliz.
"Não sei, senhor Michaels."
"Por que as tragédias sempre atingem as pessoas que menos merecem?"
"Não sei explicar", o sr. Cantor respondeu.
"Por que não foi comigo em vez de ser com ele?"
O sr. Cantor não tinha resposta para nenhuma daquelas perguntas. Só podia encolher os ombros".
Philiph Roth in: Nêmesis. Companhia Das Letras, p. 40.
"Parece que não há nenhum", respondeu o sr. Cantor.
"Onde estão as balanças da justiça?", insistiu, infeliz.
"Não sei, senhor Michaels."
"Por que as tragédias sempre atingem as pessoas que menos merecem?"
"Não sei explicar", o sr. Cantor respondeu.
"Por que não foi comigo em vez de ser com ele?"
O sr. Cantor não tinha resposta para nenhuma daquelas perguntas. Só podia encolher os ombros".
Philiph Roth in: Nêmesis. Companhia Das Letras, p. 40.
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
do amor
De repente, o amor vem atacá-la. Você quer lembrar das coisas ruins, mas são as boas que vêm de roldão. Você quer odiá-lo, mas o amor ainda está presente, pulsando como um coração cortado. Você quer esquecer, mas só consegue lembrar.
Erica Jong in: O vício da paixão.
Erica Jong in: O vício da paixão.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
da poesia
A poesia é o trocadilho dos anjos.
Paulo Mendes Campos in: De um caderno cinzento. Companhia Das Letras, p. 63.
Paulo Mendes Campos in: De um caderno cinzento. Companhia Das Letras, p. 63.
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