quinta-feira, 3 de abril de 2014

lembranças

"(...) minhas lembranças são lindas. Poucas. Mas lindas. Inventadas ou plagiadas?
Acho que quando curtimos de fato o momento, o momento é o próprio encanto. A distância transforma os momentos em sensações. Cheiros. Mas quando nada mais subsiste de um passado remoto após a morte das criaturas e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis - a dor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício da recordação. Ficção. Literatura. Plágio."

(Jacques Fux in Antiterapias. Ed. KBR)

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quarta-feira, 2 de abril de 2014

Um afastamento

"Mas ela não o procurava há muito tempo. A última vez que se encontraram, havia alguma coisa diferente em seu olhar. Um afastamento. Uma distância que o intrigou. Ela o olhou como um navio abandonado, sem rumo, desaparecendo no horizonte".

(Bolívar Torres in: Não muito. Ed. 7 Letras, p.8)

sexta-feira, 28 de março de 2014

Ligações perigosas


"(...) a verdadeira grandeza dessa arte não reside numa propaganda qualquer do hedonismo mas em sua análise. É essa a razão pela qual considero As ligações perigosas de Choderlos de Laclos um dos maiores romances de todos os tempos.
Seus personagens não se ocupam senão da conquista do prazer. No entanto, pouco a pouco, o leitor compreende que é menos o prazer e mais a conquista que os tenta. Que não é o desejo de prazer mas o desejo da vitória que conduz a dança. Que aquilo que aparece primeiro como um jogo alegre e obsceno se transforma imperceptível e inevitavelmente numa luta de vida e de morte. Mas o que tem em comum a luta com o hedonismo? Epicuro escreveu: "O homem sábio não procura nenhuma atividade ligada à luta."

(Milan Kundera in: A lentidão. Ed. Nova Fronteira, p. 13)

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quinta-feira, 27 de março de 2014

do esquecimento


"Minha mente se ocupava/ com coisas esquecidas".

(Shakespeare in: Macbeth)

quarta-feira, 26 de março de 2014

do que não existe

"A mesma coisa que o eterno: "Você verá quando eu deixar de amá-lo", tão verdadeiro e tão absurdo, pois de fato obteríamos muito se não amássemos mais, porém não nos preocuparíamos em obtê-lo. Exatamente a mesma coisa. Se a mulher que tornamos a ver quando já não a amamos, nos diz tudo, é porque, realmente, não é mais ela, ou não somos mais nós: a pessoa que amava já não existe. Por aí também a morte passou, tornando tudo fácil e tudo inútil."

(Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 5 - A Fugitiva. Tradução de Carlos Drummond de Andrade. Ed. Globo, p.145)

Imagem: Blue Valentine

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segunda-feira, 24 de março de 2014

Fica difícil fazer literatura tendo Gil como leitor. Ele lê para desvendar mistérios e faz perguntas capciosas, pensando que cada verso oculta sintomas, segredos biográficos. Não perdoa o hermetismo. Não se confessa os próprios sentimentos.

Ana Cristina Cesar in: Poética. Companhia das Letras, p.50.

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quinta-feira, 20 de março de 2014

Eu fugiria ao combate

"Não estava preparado para nenhum deles. Não havia sido criado para tropeços, fracassos e dificuldades. Não seria como D. Quixote, enfrentando as batalhas, inventando minhas próprias epopéias. Não. Eu fugiria ao combate. Não teria nenhuma honra e virilidade diante da dificuldade. E mais tarde descobri que nem as histórias eram tão simples assim."

(Jacques Fux in: Antiterapias. Ed. KBR)

quinta-feira, 13 de março de 2014

segunda-feira, 10 de março de 2014

da arte


"O maior benefício que devemos ao artista, seja pintor, poeta ou romancista, é o desenvolvimento de nossa empatia [...] A arte é a coisa mais próxima da vida; é um modo de aumentar a experiência e ampliar nosso contato com os semelhantes para além do nosso destino pessoal."

(George Eliot in: The natural history of german life)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

destemida e doce

“Gostava das pessoas erradas, consumidas pela paixão, admirava São Paulo e Santo Agostinho, acreditava que era preciso se fazer violência para entrar no reino celeste.
Poucas horas antes de morrer, pediu um conhaque e sorriu, destemida e doce, como quem vai partir para o céu. Santificara-se”.

(Paulo Mendes Campos in: Cisne de feltro - crônicas autobiográficas. Crônica: Maria José. Ed. Civilização Brasileira, p. 100)

Das formas breves


“Dizem que Averrós é perigoso de tão pacato. Pede, antes de tomar. Ou não toma, porque sempre lhe dão um pouco, por medo do pior. Verdade que poupa nossa casa e vem só por meu pai, solicita apenas a ele. E agora está solto. Talvez tenha escutado o que me disseram dele, o que já ouvi mais de uma vez.
- Aquilo espuma para dentro. Com pouco pode estourar.”

(Fragmento de "Averrós", conto de Jose Luiz Passos (que eu adorei!), publicado pela coleção Formas Breves)

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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

...



Ana Cristina Cesar in: Poética. Companhia das Letras, p. 304.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

incapaz de dizer

"(...)essas coisas nunca suspeitadas nos limites da nossa casa" eu quase deixei escapar, mas ainda uma vez achei que teria sido inútil dizer qualquer coisa, na verdade eu me sentia incapaz de dizer fosse o que fosse..."

(Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, p. 28, Ed. Companhia das Letras)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

do descanso


"Eu nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para "desistir"."

(Carta de Clarice Lispector – Berna, 01/07/46. Extraído de: Minhas queridas – Clarice Lispector, org. Teresa Montero, Ed. Rocco, p. 128)

Imagem: Tony Duran

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

dos monstros


Flavio Torres in: Monstros fora do armário. Não Editora, p.84.