sexta-feira, 15 de março de 2013

não existe nada mais real do que esse irreal



"(Como cada um de nós, Klima atribuía realidade apenas àquilo que penetrava em sua vida por dentro, progressivamente, organicamente, enquanto aquilo que vinha do exterior, bruscamente e fortuitamente, ele via como uma invasão do irreal. Infelizmente, não existe nada mais real do que esse irreal.)"

(Milan Kundera in: A valsa dos adeuses. Ed. Nova Fronteira, p. 132)

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quinta-feira, 14 de março de 2013

cai para sempre, insubstituível


"Antigamente um bonde branco fazia o trajeto de Baiona a Biarritz, engatava-se a ele um vagão aberto, em teto... (...) Hoje, nem o vagante nem o bonde existem mais, e a viagem de Biarritz é uma chatice. Isto não é para embelezar miticamente o passado, nem para dizer a saudade de uma juventude perdida, fingindo-se de saudade de um bonde. Isto não é para dizer que a arte de viver não tem história: ela não evolui: o prazer que cai, cai para sempre, insubstituível. Outros prazeres vêm, que não substituem nada. Não há progresso nos prazeres, apenas mutações."

(Roland Barthes por roland barthes. Ed. Cultrix, p. 56)

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quarta-feira, 13 de março de 2013

o ato de escrever corresponde a uma necessidade trágica e feroz



(Marguerite Duras in: Outside. Ed. DIFEL, p. 41)

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segunda-feira, 11 de março de 2013

toda a ilusão


"Era impossível resistir (...) ao riso da Cláudia: era infantil, cristalino, nada ainda e tinha desgastado. Cabia lá dentro toda a ilusão do mundo."

(Miguel Sousa Tavares in: No teu deserto)

sexta-feira, 8 de março de 2013

Eu me refugiava nos livros de histórias.

Eu apanhava, mas persistia. E sofria com o forte sentimento de rejeição e de inadequação.
Por causa disso, desde muito cedo comecei a me refugiar na leitura. Não nos poemas que escrevia para chamar a atenção, e que eram de qualidade bastante duvidosa. Eu me refugiava nos livros de histórias. Embarcava em qualquer narrativa sobre fadas e princesas, passava a viver o que eu lia num exercício de pura evasão. Eu lia compulsivamente, adorava, sorvia e vivia emocionalmente de leitura. Mais tarde, quando fui estudar História, os castelos de Reis e Rainhas eram como castelos das minhas histórias. Acho que foi essa sensação que despertaria a minha paixão pela História, uma das mais longas e permanentes da minha vida.

(Tuna Dwek in: Maria Adelaide Amaral: a emoção libertária. Coleção Aplauso Perfil, Editora Imprensa Oficial)

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quinta-feira, 7 de março de 2013

Sim, deveriam


"As melhores cenas da minha vida não aconteceram, mas deveriam."

(Vanessa Souza in: Cadernos de Luísa)

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segunda-feira, 4 de março de 2013

Bem, então deve ser...



"Lembro-me do rosto sério e pálido de Piers, ao dizer certo dia: "Bem, então deve ser amor". Rob teria achado graça, creio, nesse tom, que se parecia ao de um médico fazendo um diagnóstico - como se poderia dizer: "Bem, então deve ser câncer".

(Lawrence Durrel in: O príncipe das trevas ou Monsieur. O quinteto de Avignon I. Ed. Estação Liberdade, p. 62)

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domingo, 3 de março de 2013

passado furta-cor

"Então acham que o passado, porque já foi, está acabado e imutável? Ah não, sua vestimenta é feita de um tafetá furta-cor, e cada vez que nos voltamos para ele podemos vê-lo com outras cores."

(Milan Kundera in: A vida está em outro lugar. Ed. Círculo do Livro, p. 130)

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sexta-feira, 1 de março de 2013

Mas tu não poupas as palavras: tu escreves.


"- E porque é que ficam calados depois?
- Porque já não têm mais nada de importante para dizer.
Fiquei a pensar na tua resposta: "Ficam calados porque já não têm mais nada de importante para dizer." E fiquei a pensar no que me tinhas dito antes, sobre os sahraoui: "Como não têm nada, absolutamente nada, poupam tudo. Poupam a água, a comida, poupam as energias viajando de noite para evitar o calor. Até poupam nas palavras."
- Mas tu não poupas as palavras: tu escreves. Todas as noites gastas uma hora a escrever um diário nesse teu caderno ...
- Escrever não é falar.
- Não? Qual é a diferença?
- É exactamente o oposto. Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares demais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.
Anos mais tarde, já estava doente, voltei a lembrar-me dessa nossa conversa. Tinha acabado de te escrever uma carta - mais uma, talvez a terceira - que nunca te cheguei a mandar e que destruí depois. E, escrevendo, poupei as coisas que gostaria de te ter dito e que gostaria que tivesses ouvido. Cheguei quase a convencer-me de que bastava escrever-te para tu me ouvires, mesmo que nunca tenha chegado a pôr a carta no correio. Porque era tão sentido e tão magoado, tão distante, o que te dizia nessas carta que quase acreditei que tu não podias deixar de me ouvi. Não é verdade, pois não? Devia ter falado contigo, mas, se calhar, já era tarde, então. Já tantas coisas tinham passado pela minha vida, entretanto! A meada era já demasiado grande e longa para poder retomar o fio, onde quer que fosse. Queria que me ouvisses e que falasses comigo. Ma não te queria ver, não queria que me visses."

(Miguel Sousa Tavares in: No teu deserto, p. 30)

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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O momento mais bonito foi um delírio e jamais existiu

Trecho de “Demasiado tarde”, por Vanessa Souza. Escrito na primavera de 2012.

“Quase um ano depois, recebo um e-mail de Santiago. Falava de ausência, pedia explicações e usava uma palavra demasiado forte: desprezo. Des-pre-zo. Não prezo mais? A palavra neon no meio de tantas outras, sem muito sentido. Palavras jogadas no vazio de uma mensagem virtual. Lamentos dignos de fado. Respondi que não havia desprezo algum, que havíamos nos afastado e que eu estava levando minha vida. Nenhum cálculo exato e mirabolante para ferir o outro. Viver apenas, o que sempre me custava um esforço imenso. Devo ter escrito que gostava dele e desejado coisas boas e clichês, palavras de açúcar. Recebi como resposta um: - Estou no Brasil. Estranho, meu coração não parou. Santiago informou que queria me ver, perguntou se eu podia ir até ele. Não me senti tentada. Ele não era mais uma possibilidade. Em seguida ele me ligou, reiterando o desejo do encontro. Sem pensar muito, fui. No caminho até o aeroporto, um trânsito caótico. Meu avião decolou quando eu chegava, fiquei horas esperando o próximo. Com raiva, mandei uma mensagem colérica para ele, sobre trânsito e esperas sem fim. Desde que Benjamin me deixou, era cada vez mais difícil enxergar a leveza e a beleza. Quem pagava o preço eram os incautos que cruzavam meu caminho. Tendo consciência disso, tentava passar a maior parte do tempo apenas com minha própria companhia. No entanto, apesar de nunca ter sido genuinamente boazinha, havia uma centelha de doçura no fundo dos meus olhos verdes. Uma gentileza sutil em meus gestos. Nos últimos tempos meus olhos curiosos guardavam uma inquietude que beirava ao tédio. Os gestos eram contidos, as palavras ácidas previamente calculadas antes de serem proferidas.
Sim, Santiago havia despertado coisas tão boas quando surgiu em minha vida. Vontades grandiosas. Sentimentos superlativos. Quero-cuidar-de-você-de-mim-quero-ser-feliz. Quando partiu, levou consigo esse pedaço doce de mim. Agora queria a mesma Letícia de antes? Sim. A eterna busca pelo tempo perdido e jamais recuperado. Não leste Proust, rapaz? Irremediável. O momento mais bonito foi um delírio e jamais existiu.
Lá estava ele a me esperar no aeroporto vestido com um sorriso tímido e aqueles cabelos reluzentes de comercial de shampoo. Não o beijei, não o abracei. Fiquei parada diante dele, sem saber bem o que fazer. Queria sentir de novo aquele ardor de outrora. Nada aconteceu. Parecíamos dois estranhos. Personagens que esqueceram suas falas, atores de uma peça antiga com lapsos de memória, dançarinos esperando o passo seguinte sem música – sim, a canção cessou.
Santiago tinha o semblante tenso, triste, cansado. Eu estava irritada e com vontade, ah, tanta vontade, de dizer qualquer coisa que pudesse magoá-lo.
Nem o prato no restaurante ele acertou, a refeição veio repleta de um tempero que ele detestava. Ficou tateando os legumes com desânimo, tentando livrar-se do molho viscoso. Em vão.
Era sexta, ainda. Eu deveria voltar para casa no domingo. Eu não deveria ter ido. Tive receio dos dois dias que viriam. Fim de semana desastroso, anunciava o trânsito em fúria, o avião perdido, os olhares exaustos dos que já viram quase tudo, a comida no prato naufragando em molho espesso.
Santigo, gentil como sempre, cobriu-me de elogios. Também disse, reticente, entre um gole e outro de vinho, que eu parecia estar com raiva do mundo, das pessoas. E abre o manual simbólico do jogo-do-contente para me dar algumas lições.
- Letícia, você acredita que coisas negativas possam atrair coisas negativas?
Ah, não, não piore a noite. Tudo sempre pode ficar pior.
- Eu acredito em poucas coisas – respondo ríspida.”

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Imagem: 500 days of Summer

Ou em todas

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

a dependência infantil do amor


"Quanto maior o artista, maior a fraqueza emocional, maior a dependência infantil do amor".

(Lawrence Durrel in: O príncipe das trevas ou Monsieur. O quinteto de Avignon I. Ed. Estação Liberdade, p. 199)

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Existe, evidentemente, uma literatura urbana?


"- Existe, evidentemente, uma literatura urbana?
- Sim, a que se inspira nestes últimos modelos, Alain-Fournier à parte. Descreve o aborrecimento nas cidades, a solidão do indivíduo nos meios urbanos, sua revolta, suas aventuras."

(Marguerite Duras in: Outside. Ed.DIFEL: 1981, p. 40)

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domingo, 3 de fevereiro de 2013

refugios


Lawrence Durrel in: O príncipe das trevas ou Monsieur. O quinteto de Avignon I. Ed. Estação Liberdade)

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