sábado, 16 de julho de 2011

A crônica da casa assassinada no teatro (RJ) - assisti ontem e recomendo muito!

A crônica da Casa Assassinada

de Lúcio Cardoso
Direção Gabriel Villela

Com: Xuxa Lopes, Cacá Toledo, Flávio Tolezani, Helio Souto Jr. , Letícia Teixeira, Marco Furlan, Maria do Carmo Soares, Pedro Henrique Moutinho, Rogério Romera, Sérgio Rufino

Faixa etária : 16 anos - em cartaz até amanhã.

Teatro da Maison de France // Avenida Presidente Antônio Carlos, 58. Rio de Janeiro // Info. (21) 2544 2533
Assista um pouco aqui

dos desejos

An education
"(...) o desejo de um futuro a ser conquistado é garantido pela memória de um passado perdido."

(Italo Calvino in: Por que ler os clássicos. Companhia de Bolso, p. 19)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Como as pessoas que somos, e que vão saindo umas de dentro das outras ao longo dos anos

"(...) pequenas promessas prontas a explodir. Mas não explodiam: seguiam sendo promessas, simples promessas de outra maçã dentro daquela maçã, como as bonecas russas que vão saindo umas de dentro das outras. Como as pessoas que somos, e que vão saindo umas de dentro das outras ao longo dos anos. Ao longo das horas."

(Adriana Lisboa in: Um beijo de colombina. Ed. Rocco, p. 14)

serve para isso

"Enquanto era preparada a Cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. 'Para que lhe servirá?', perguntaram-lhe. 'Para aprender esta ária antes de morrer'".

(Cioran)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

sim, ficariam

“Ficariam as marcas depois? Ele sabia que sim. Nenhuma cola conseguiria apagar os sinais da queda, da quebra. Ficariam sempre as arestas, ferindo feito espinhos - nem na morte a rosa se livraria da sua sina de ferir. Para sempre o sinal da junção dos pedaços, uma cicatriz fina, persistente e tortuosa que ele acompanharia com o dedo, devagar, sem nunca encontrar a saída. Porque estava num labirinto”.
 
(Caio F.)

Não é indispensável que aquele que bebe abdique da razão, mas o amante que conserva a sua não obedece inteiramente ao deus do amor

Anna Karenina
"Os cínicos e os moralistas concordam em colocar a volúpia do amor entre os prazeres ditos grosseiros, como o prazer de comer e beber, declarando-a contudo, menos indispensável do que aqueles, visto que eles podem perfeitamente prescindir dela. Do moralista tudo se espera, mas espanto-me que o cínico se tenha enganado. Admitamos que uns e outros receiem seus próprios demônios, seja porque lhes resistam, seja porque se lhes entreguem, esforçando-se por aviltar o prazer a fim de lhe tirar o poder quase terrível sob o qual sucumbem, e diminuir o estranho mistério no qual se sentem perdidos. Acreditaria nessa associação do amor à alegrias puramente físicas (supondo-se que tais alegrias existam) no dia em que visse um gastrônomo soluçar de prazer diante do seu prato favorito, tal como o amante sobre o ombro amado. De todos os jogos, o do amor é o único capaz de transtornar a alma e, ao mesmo tempo, o único no qual o jogador abandona-se necessariamente ao delírio do corpo. Não é indispensável que aquele que bebe abdique da razão, mas o amante que conserva a sua não obedece inteiramente ao deus do amor. Tanto a abstinência quanto o excesso não engajam senão o homem só. Salvo no caso de Diógenes, cujas limitações e caráter de racional pessimista definem-se por si mesmos, toda experiência sensual nos coloca em face do Outro, acarretando-nos as exigências e as servidões da escolha. Não conheço, fora do amor, outra situação em que o homem deva decidir-se por motivos mais simples e mais inelutáveis. No amor, o objeto escolhido deve valer exatamente seu peso bruto em prazer, e é ainda no amor que o amante da verdade tem maiores probabilidades de julgar a nudez da criatura. A partir do desnudamento total, comparável ao da morte, de uma humildade que ultrapassa a da derrota e a da prece, maravilho-me ao ver renovar-se, cada vez, a complexidade das recusas, das responsabilidades, das promessas, das pobres confissões, das frágeis mentiras, dos compromissos apaixonados entre nosso prazer e o prazer do Outro, tantos laços impossíveis de se romper e tão depressa rompidos! Esse jogo cheio de mistérios, que vai do amor de um corpo ao amor de uma pessoa, pareceu-me belo o bastante para consagrar-lhe uma parte de minha vida. As palavras enganam, especialmente as do prazer, que comportam as mais contraditórias realidades, desde as noções de aconchego, doçura e intimidade dos corpos, até as da violência, da agonia e do grito. A pequena frase obscena de Posidônio sobre o atrito de duas parcelas de carne, que te vi copiar nos teus cadernos escolares com aplicação de menino ajuizado, é incapaz de definir o fenômeno do amor, assim como a corda que o dedo faz vibrar não pode explicar o milagre dos sons. Essa frase insulta menos a volúpia do que a própria carne, esse instrumento de músculos, sangue e epiderme, essa nuvem vermelha de que a alma é o relâmpago."

(Marguerite Yourcenar in Memórias de Adriano. P. 20-21. Ed. Nova Fronteira)

Surrupiado daqui. 

quarta-feira, 13 de julho de 2011

"Eu tenho uma saudade às vezes fodida dela". (Vinicius de Moraes)

Para os saudosos irremediáveis.

Que fazer?
Canto.

"Eu tinha uma vontade de chegar e tocar aquela campainha na casa dela. (...) eu tenho medo que ela me receba mal pra caralho, porra." (Vinicius de Moraes)

;

"Depois da última troca de palavras, ele se retirou vagarosamente. Como um ponto e vírgula em um romance de oitocentas páginas."

(David Foenkinos in: A delicadeza. Ed. Rocco, p. 76-77)  

Um mantra

"Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada
Que eu segui
E com a minha própria lei..."

(Andrea Doria, Legião Urbana)

não são

"Não era a primeira vez que eu reconhecia que as criaturas que amam não são as mesmas criaturas que gozam".

(Marcel Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 2 - À sombra das raparigas em flor.Tradução de Mario Quintana. Ed. Globo, p. 270)

terça-feira, 12 de julho de 2011

como o Booz de Victor Hugo

500 days of Summer
"Minha simpatia um pouco prematura tinha florido demasiado cedo; e, como aquelas macieiras de que o senhor falava poeticamente em Balbec, não pôde resistir à primeira geada. (...) Infelizmente, - tornou ele, - não tenho o dom de fazer reflorir o que uma vez foi destruído. Minha simpatia pelo senhor está bem morta. Nada a pode ressuscitar. Sempre me sinto um pouco como o Booz de Victor Hugo: "estou viúvo, estou só, e tomba a noite sobre mim."

(Marcel Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 3 - O caminho de Guermantes.Tradução de Mario Quintana. Ed. Globo, p. 437-438)

Marco Antônio e Cleópatra – derrotados por Baco


Cleópatra e Marco Antônio não eram o Pink e Cérebro (os ratinhos do desenho animado), mas queriam dominar o mundo. Cleópatra, que segundo Plutarco (historiador) não era aquela beldade que o cinema mostrou. No entanto, era um poço de cultura: falava mais de dez idiomas e discutia com os sábios da corte acerca de filosofia, matemática e astronomia. De igual para igual.

A rainha do Egito, considerada a reencarnação da deusa Ísis na terra, teve dois grandes amores: Júlio César e Marco Antônio. A ambos devotou sua riqueza, lealdade, filhos e, ao final, a vida. E aonde entra a bebida aqui?

Já casado com Cleópatra, Marco Antônio viveu anos desregrados em sua corte. Resultado: virou um velho barrigudo, grande bebedor de boa birita envelhecida em tonéis de carvalho (sim, bebida em excesso acaba com qualquer grande homem). Enquanto a mulher cuidava em encomendar navios para o Egito, Marco Antônio esperava ficarem prontos e bebia.

Bebeu tanto que estava embriagado demais no dia do grande golpe de estado que havia traçado com a esposa. Cleópatra, fez de conta que desertava de sua terra. Marco Antônio esqueceu do plano, achou que a amada foi mesmo embora e rumou aos prantos atrás dela, num barco mal preparado. E assim, ambos deixaram o palco da vida para entrar para a história: Cléo, deixando-se picar por uma áspide (sobra de veneno rápido e letal) e Marco pede que um criado lhe crave uma espada (não sem antes beber duas jarras de vinho, para dormir).

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Tavares, Ulisses. Hic!stórias – os maiores porres da história da humanidade. Ed. Panda Books.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

sinfonia muda

"Não quero deixá-lo com estas palavras. Nada de dissonâncias, antes do silêncio eterno do acorde dominante."


(Marcel Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 3 - O caminho de Guermantes.Tradução de Mario Quintana. Ed. Globo, p. 439)

separar-se do resto do mundo para, por assim dizer, recriar o mundo em papel e tinta

Franco Matticchio
“- Já é suficientemente esquisito escrever livros, separar-se do resto do mundo para, por assim dizer, recriar o mundo em papel e tinta – declaro”

(Erica Jong in: Memória inventada. Ed. Record,, p. 108)

Edgar Allan Poe

Os crimes da rua Morgue e O Corvo são livros que fizeram do escritor e poeta norte-americano Edgar Allan Poe figurar entre os grandes da literatura. Grande também foi a forma como Poe esgotou rapidamente sua vida (morreu aos 40 anos, em 1849).

Grande apreciar de álcool, a bebida o fazia aflorar um outro lado de Poe, fantasioso e mentiroso. Conta-se que dava palestras e escrevia artigos que pareciam, apenas aparentavam, ter profundas reflexões e pesquisas meticulosas. No fim das contas, era tudo papo de bêbado. Poe citava autores imaginários, inventava citações em idiomas que ele desconhecia e o pior disso tudo, acreditava em seus próprios delírios.

Quase antes de morrer, estava certo de que havia descoberto a verdade mística absoluta, espalhando aos quatro ventos que era o principal filósofo do século. Não recebia o total desprezo por sua megalomania por ter criado contos e poemas verdadeiramente grandiosos.

“O que o desmoralizava eram os porres em público: passava dias vagando pela cidade, com roupas transformadas em farrapos, às vezes totalmente nu, dormindo nas sarjetas e gritando discursos sobre a evolução do universo.” (p. 244)

Por duas vezes Poe (que era viúvo e pobre) quase se casou com jovens ricas. Os noivados duravam poucos dias, como sua capacidade de deixar de beber.

Ao ser levado ao hospital onde faleceu, foi raptado e roubado no caminho. Seu estado era tão sério que nem lembrava do próprio nome. Minutos antes de morrer, proferiu as seguintes palavras: “Ó Deus!... Tudo que vemos ou julgamos ser. Não passa de um sonho dentro de um sonho?”

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Tavares, Ulisses. Hic!stórias – os maiores porres da história da humanidade. Ed. Panda Books.