domingo, 10 de julho de 2011

a contradição que existe em procurar a realidade nos quadros da memória...

The red shoes
"Como preveniu no final de No caminho de Swann: "[...] a contradição que existe em procurar a realidade nos quadros da memória... [...] a recordação de uma certa imagem não é mais que a saudade de um determinado instante; e as casas, os caminhos, as avenidas, infelizmente são fugitivos como os anos."

(Jonah Lehrer in: Proust foi um neurocientista - Como a arte antecipa a ciência. Ed. Best Seller, p. 134)

a batida - perfeita

"Conseguia manter o silêncio, mas temia que seu coração, batendo tão forte como estava, fizesse barulho demais".

(David Foenkinos in: A delicadeza. Ed. Rocco, p. 100) 

sábado, 9 de julho de 2011

transformando o tédio em melodia

À deriva

"Algo que correspondia à maravilha dos contos, dos momentos perfeitos. Momentos que se gravam na memória no mesmo instante em que são vivenciados."

(David Foenkinos in: A delicadeza. Ed. Rocco, p. 189)

Ouça

lembrar para adornar

"Quanto mais você se lembra de algo, menos precisa se torna essa memória."

(Jonah Lehrer in: Proust foi um neurocientista - Como a arte antecipa a ciência. Ed. Best Seller, p. 134)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Notas velhas, cartas de amor, fotografias, recibos

Blue Valentine
"Mesmo uma cômoda entulhada com lembranças,
Notas velhas, cartas de amor, fotografias, recibos,
Deposições judiciais, cachos de cabelo em tranças,
Esconde menos segredos do que o meu cérebro
[poderia produzir.
É como uma tumba, um cemitério de indigentes
[cheio de corpos,
Uma pirâmide onde os mortos deitam-se às
dezenas.
Eu sou um cemitério que a lua abomina."

(Charles Baudelaire)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Francis Scott Fitzgerald – beber para escrever

“Não consigo ficar sóbrio tempo suficiente para achar graça em ficar sóbrio”, disse certa vez o escritor Francis Scott Key Fitzgerald. Não há melhor lugar para ele do que estar nessa série dos grandes beberrões da história. Até completar 25 anos, no início da década de vinte, Fitzgerald foi incansável em atingir três objetivos: ter sucesso como escritor, casar com Zelda e ficar rico.
Só conseguiu ficar Zelda. Dinheiro era problema sério para ele, e o pouco que tinha gastava em bebidas.
A fama de beberrão do escritor era notória. Quando Zelda disse ao seu pai, um juiz conservador, que Scott era a pessoa mais doce do mundo quando estava sóbrio, seu progenitor exclamou:
- Ele nunca está sóbrio!
Zelda, seu grande amor, bebia mais do que Fitzgerald! Casaram e a vida foi povoada de brigas, batidas de carro e toda espécie de confusão. Segundo os amigos, um casal selvagem e lendário. Entre um tropeço e outro, Scott escrevia.
Entre um livro brilhante e outro, e muitos copos de gim ou uísque, Fitzgerald escrevia muito material ruim: roteiros, artigos, contos... Não importava quanto dinheiro ganhasse, ele vivia muito acima do padrão que suas posses arcavam. Passou a vida no vermelho, não se privando de luxos.
Um dos biógrafos do escritor afirma que, feitas as contas, sobrava a Scott uma hora do dia para escrever. As restantes eram dedicadas a festas, apagões e brigas com Zelda. No final da década de 30, com a saúde muito comprometida, Fitzgerald trocou o gim pela cerveja. A troca foi a seguinte: um litro de gim por 48 cervejas diárias. Só parou de beber no último ano da sua vida, porque tinha medo de não conseguir concluir “O último magnata”, seu último romance. Em uma carta para o amigo Edgar Allan Poe Jr., Fitzgerald confessou estar conformado com sua situação: “Parece ser o destino de todos os bêbados que, no fim, tenham de abandonar não só a bebida, mas muitas outras coisas boas.”

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Ulisses Tavares in: “Hic!stórias! Os maiores porres da humanidade” (Ed. Panda Books, 2009)

terça-feira, 5 de julho de 2011

não, não vivi

"Sonhara que nunca vivera aquele instante, pois sentia, claramente, que seriam necessários vários meses para se recuperar daqueles poucos segundos."

(David Foenkinos in: A delicadeza. Ed. Rocco, p. 78)

Lima Barreto - série dos... amantes de Baco



Lima Barreto sempre lutou contra a correnteza. E o mar era forte. Mesmo considerado um Don Quixote brasileiro, enfrentou vários problemas. Nasceu em 1882, livre e mulato. Era generoso, culto, cronista e escritor de talentoso, o que incomodava muita gente. Para piorar a opinião alheia acerca dele, era alcoólatra e não fazia questão de ser o que se esperava dele na época.
O poeta Manuel Bandeira definiu-o em um verso inesquecível: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”.
Aos trinta anos, Barreto publicou seu melhor romance: Triste fim de Policarpo Quaresma, em folhetins do Jornal do Comércio e em seguida em livro. Foi escrito em apenas três meses, de supetão, em trezentas e poucas laudas. Lima Barreto só escrevia assim rápido porque em seguida se embriagava, e ficava com medo de não conseguir terminar seus contos, artigos e romances. 
O escritor trabalhou na Secretaria da Guerra (emprego que os amigos conseguiram para ele), que pagava mal e pouco lhe exigia. Ficou lá até se aposentar, pela doença alcoólica. Barreto não se conformava de que todos os brancos bem nascidos de sua geração ficavam ricos e famosos, e ele não. Para esquecer a humilhação, bebia.
Ainda jovem, Barreto bebia cerveja e uísque. Depois foi para a cachaça, que consumia nos botequins mais sórdidos do Rio de Janeiro. Depois da embriaguez, dormia mesmo pelas ruas. Aos 40 anos – ele faleceu as 41 – estava acima do peso, inchado, reumático, diabético, cardiopata, hipertenso, transpirava em excesso e tinha a aparência de um morador de rua.
Muitos quiseram ajudá-lo. Monteiro Lobato, em São Paulo e sem conhecê-lo, financiou uma palestra para a qual ele fora convidado. Barreto pegou o dinheiro, bebeu todas, não compareceu na palestra e acabou dormindo na sarjeta. Pouco antes de morrer, o escritor, sem perder o humor, escreveu. “O que prejudica nossos literatos brasileiros não é a cachaça. É a burrice.”


Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Ulisses Tavares in: “Hic!stórias! Os maiores porres da humanidade”(Ed. Panda Books, 2009)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

estamos sempre cinco minutos atrasados com relação às nossas conversas sobre o amor

"Tinha se atrapalhado todo. Fora, acima de tudo, incapaz de lhe dizer o que realmente estava sentindo... (...) Eis, mais ou menos, o que ele gostaria de ter dito. Mas as coisas são assim mesmo: estamos sempre cinco minutos atrasados com relação às nossas conversas sobre o amor."

(David Foenkinos in: A delicadeza. Ed. Rocco, p. 133) 

Como?

"Na cama, percebeu que não conseguiria pegar no sono: como avançar na direção dos sonhos quando acabamos de sair de um deles?"

(David Foenkinos in: A delicadeza. Ed. Rocco, p. 99) 

Pollock: bebendo e pintando todas


O pintor Jackson Pollock, precursor do expressionismo abstrato americano era um grande gênio bebum. Sua obra só começou a fazer sucesso depois que conhece a também pintora Lee Krasner, que casou-se e deu suporte psíquico para Pollock, que tinha sérios problemas com alcoolismo. Em 1945 mudaram-se para uma pequena fazenda em Long Island, que foi lá que o pintor despontou em sua criação.

Pollock gostava de pintar ao som de jazz, em volume bem alto. O experimentalismo foi marcante em sua obra. No entanto, pode-se atribuir muito o sucesso do pintor à sua esposa. Ela abandonou a própria carreira para proporcionar condições para Jackson trabalhar – e beber, de manhã, tarde e noite.

Pior, quando bebia muito, Pollock pegava a chave do carro e ia para o bordel mais próximo. Lee escondia a chave do carro ou quebrava a garrafa de bebida, quando seus argumentos não eram bons o bastante para persuadi-lo de permanecer em casa.

A esposa não aguentou e pediu o divórcio. Pollock arranjou outra mulher, mais jovem e tolerante (que não escondia as chaves do carro, não entendia de arte e achava bacana viver com um maduro e talentoso artista). A nova mulher também não se importava com o alcoolismo do pintor, problema que carregava desde os 13 anos de idade. O resultado, é conhecido: Pollock dirigiu bêbado e morreu em um acidente de carro, quando colidiu em um poste de concreto, na saída de casa.

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Ulisses Tavares in: “Hic!stórias! Os maiores porres da humanidade”(Ed. Panda Books, 2009)

domingo, 3 de julho de 2011

Não se devia nunca evitar uma dor quando ela é ainda apenas potencial.

El Greco
"Pensou, sobretudo, que não fazia sentido ele continuar com medo, que fora ridículo ao recuar daquela maneira, proteger-se. Não se devia nunca evitar uma dor quando ela é ainda apenas potencial. Mais uma vez, ele continuava a pensar, até para responder a ela, quando ela, na verdade, já tinha saído fazia vários minutos. (...) Nada, ali, era trágico. Sabia que havia pequenas lotações que faziam o trajeto ente a ilha do sofrimento e a ilha do esquecimento, além daquela outra ilha, mais distante ainda, a da esperança."

(David Foenkinos in: A delicadeza. Ed. Rocco, p. 124)

Noel Rosa e a cerveja medicinal


Noel Rosa era um verdadeiro boêmio. Boa parte de suas mais de duzentas composições foram de fato vividas. E bebidas. Desde os 18 anos de idade Noel dormia durante o dia e saia, no começo da noite, para trabalhar nos botecos. Seu expediente ia até às seis da manhã no escritório de seu Vicente (português amante de samba) onde atendia o telefone, recebia amigos e parceiros e produzia suas melodias.

De saúde instável, Noel, tuberculoso, esperava a febre baixar e voltava ao botequim para se encher de cerveja gelada (a predileta chamava-se Cascatinha) e fumar um cigarro após o outro.
De acordo com seu médico, dr. Edgar, quando Rosa foi interpelado por um amigo, horrorizado ao vê-lo doente e bebendo cerveja, o compositor respondeu:

“- A cerveja gelada não me pode fazer mal, nem trazer minha tosse e minha febre de volta. Muito pelo contrário. O gelo, como sei que você também sabe, paralisa os micróbios. Congelados, os bichinhos sossegam. Como você vê, cerveja gelada é um santo remédio.
E a outro amigo mais insistente, preocupado com sua saúde, que não engoliu essa sua teoria:
- Está certo você. Garçom, me traz outra cerveja, mas quente!” (p. 76)

Já quase no final da vida, muito doente, Noel foi flagrado bebendo cerveja com doses de conhaque. Como nunca foi bom de garfo, explicou que estava se alimentando, já que a cerveja contém lúpulo e cevada, ingredientes calóricos que equivaliam a uma refeição. Quando questionado o motivo de misturar conhaque, ele devolveu que não se devia beber de estômago vazio. Uma vida tão desregrada que não durou muito, Noel morreu as 26 anos.

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Ulisses Tavares in: “Hic!stórias! Os maiores porres da humanidade”(Ed. Panda Books, 2009)

sábado, 2 de julho de 2011

Ernest Hemingway: entre livros e bebedeiras


Ernest Hemingway foi um grande escritor. E um grande bebedor também. Começou sua vida etílica cedo, aos 19 anos, quando era repórter de um jornal em Kansas City, nos Estados Unidos. A adrenalina de ser repórter não lhe bastava, queria mais. Resolveu trabalhar como motorista de ambulância, durante a Primeira Guerra Mundial.

Feriu-se seriamente e se curou. Não aprendendo a lição, foi correspondente da Guerra Civil Espanhola (1937) e, em seguida, da Segunda Guerra Mundial. Enquanto os repórteres se escondiam das balas, ele lutava e escrevia, apesar de civil. Morou um tempo em Havana, onde ficou conhecido por bolar drinques fortes à base de rum.

Fez sucesso na Europa e Estados Unidos. Suas reportagens eram viscerais. Na escrita de seus romances, escolheu temas que o apeteciam na vida real: bebidas, brigas entre homens, sexo, touradas, pescarias e caçadas. Ernest tirava de seus cinco sentidos a inspiração. A tensão do pescador atormentado em O velho e o mar, ao que consta, foi vivida na década de 50, depois do escritor ter bebido todas em um bar, distribuído socos em quatro contrabandistas que o desafiaram e encarado, em seu diminuto barco, três dias de tempestade. Depois de ser atacado por tubarões, pescar um atum maior que sua própria estatura ele resmunga, ao retornar, que a viagem fora péssima. “A bebida acabou no segundo dia”, disse.

Dizem que gostava tanto de beber que passou a usar uísque como loção de barba. Nas touradas que freqüentava na Espanha e Portugal, costumava pular a arquibancada e ir atrás dos animais, com uma garrafa nas mãos. Era salvo sempre. Sua saúde, com tantas aventuras, ia se esfacelando. Depressivo, sobreviveu a um desastre aéreo na África. Saiu da floresta carregando um cacho de bananas e uma garrafa de gim (que conseguiu salvar antes que o avião explodisse). Ganhou o Pulitzer em 1953 e suicidou-se em 1961.

Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Ulisses Tavares in: “Hic!stórias! Os maiores porres da humanidade” (Ed. Panda Books, 2009)

Gostava de rir, gostava de ler

"Nathalie era discreta (...) Gostava de rir, gostava de ler - duas ocupações raramente simultâneas, no seu caso, pois preferia as histórias tristes."

(David Foenkinos in: A delicadeza. Ed. Rocco, p. 7)