Lima Barreto sempre lutou contra a correnteza. E o mar era forte. Mesmo considerado um Don Quixote brasileiro, enfrentou vários problemas. Nasceu em 1882, livre e mulato. Era generoso, culto, cronista e escritor de talentoso, o que incomodava muita gente. Para piorar a opinião alheia acerca dele, era alcoólatra e não fazia questão de ser o que se esperava dele na época.
O poeta Manuel Bandeira definiu-o em um verso inesquecível: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”.
Aos trinta anos, Barreto publicou seu melhor romance: Triste fim de Policarpo Quaresma, em folhetins do Jornal do Comércio e em seguida em livro. Foi escrito em apenas três meses, de supetão, em trezentas e poucas laudas. Lima Barreto só escrevia assim rápido porque em seguida se embriagava, e ficava com medo de não conseguir terminar seus contos, artigos e romances.
O escritor trabalhou na Secretaria da Guerra (emprego que os amigos conseguiram para ele), que pagava mal e pouco lhe exigia. Ficou lá até se aposentar, pela doença alcoólica. Barreto não se conformava de que todos os brancos bem nascidos de sua geração ficavam ricos e famosos, e ele não. Para esquecer a humilhação, bebia.
Ainda jovem, Barreto bebia cerveja e uísque. Depois foi para a cachaça, que consumia nos botequins mais sórdidos do Rio de Janeiro. Depois da embriaguez, dormia mesmo pelas ruas. Aos 40 anos – ele faleceu as 41 – estava acima do peso, inchado, reumático, diabético, cardiopata, hipertenso, transpirava em excesso e tinha a aparência de um morador de rua.
Muitos quiseram ajudá-lo. Monteiro Lobato, em São Paulo e sem conhecê-lo, financiou uma palestra para a qual ele fora convidado. Barreto pegou o dinheiro, bebeu todas, não compareceu na palestra e acabou dormindo na sarjeta. Pouco antes de morrer, o escritor, sem perder o humor, escreveu. “O que prejudica nossos literatos brasileiros não é a cachaça. É a burrice.”
Texto: Vanessa Souza Moraes
Fonte: Ulisses Tavares in: “Hic!stórias! Os maiores porres da humanidade”(Ed. Panda Books, 2009)