"
Tradição antiga, muito antiga: o hedonismo foi repelido por quase todas as filosofias; só se encontra a reivindicação hedonista entre os marginais, Sade, Fourier; para a próprio Nietzshe, o hedonismo é um pessimismo.
O prazer é incessantemente enganado, reduzido, desinflado, em proveito de valores fortes, nobres: a Verdade, a Morte, o Progresso, a Luta, a Alegria etc. Seu rival vitorioso é o Desejo: falam-nos sem cessar do Desejo, nunca do Prazer;
o Desejo teria uma dignidade epistêmica, o Prazer não. Dir-se-ia que a sociedade (a nossa) recusa (e acaba por ignorar) de tal modo a fruição, que só pode produzir epistemologias da Lei (e de sua contestação), mas jamais de sua ausência, ou melhor ainda: de sua nulidade. É curiosa essa permanência filosófica de Desejo
(enquanto nunca é satisfeito): essa palavra não denotaria uma "ideia de classe"? (Presunção de prova bastante grosseira, e toda notável: o "popular" não conhece o Desejo - nada exceto prazeres.)"
(Roland Barthes in: O prazer do texto. Ed. Perspectiva, p. 67-68)