quinta-feira, 4 de março de 2010

A força alienante


"Platão dizia que Eros, o deus do amor, possuía uma dupla natureza, um filho de Afrodite Pandemos, a deusa do amor carnal, e de Afrodite Urânia, dos amores etéreos. Esta afrodite era uma divindade perigosa; tinha poderes tão grandes que, irada, irada com Zeus por uma bobagem, foi capaz de vingar-se dele obrigando-o a perseguir ninfas e mulheres mortais e, consequentemente, a descuidar-se de Hera, sua esposa. Isto prova que os antigos já estavam convencidos de que a força alienante do amor era capaz de fazer até o próprio rei de todos os deuses cair no ridículo".

(Paixões - amores e desamores que mudaram a história, Rosa Montero, p. 12)

Sobre sonhos


Olhei pro amanhã e não gostei do que vi
Sonhos são como deuses
Quando não se acredita neles, deixam de existir
Lutei por sua alma, mas admito que perdi

(Admito que perdi, Paulinho Moska)

De um diário de Cazuza


"Olhar o mundo com a coragem de um cego.

Ler da tua boca as palavras com a atenção do surdo.

Falar com os olhos e as mãos como fazem os mudos".

(Cazuza)

Um herói


"O que é um herói? Basicamente, alguém que venceu seus medos".

(Henry Miller)

Eis que de tanto pedir, Caio F. encontra


Li lá no site da Paty e roubei!

"Sempre acreditei que toda vez que a gente entra numa igreja pela primeira vez, vê uma estrela cadente ou amarra no pulso uma fitinha de Nosso Senhor do Bonfim, pode fazer um pedido. Ou três. Sempre faço. Quando são três, em geral, esqueço dois. Um nunca esqueci. Um sempre pedi: amor.

Nunca tinha tido um amor. O quê? Aos 35 anos, agitando desse jeito? Explico: claro que tive dúzias e dúzias, outro dia até tentei contar e me perdi na altura do número cento e trinta e muito. Mas tudo rapidinho, assim, uma hora, um dia, uma semana, um mês, pouco mais. Nunca, digamos, UM ANO. Então quando alguém suspirava e dizia cara estou saindo de um caso de DEZ anos, meu olho arregalava de pura inveja. Histórias mais compridinhas, claro que rolaram. Maria Clara, por exemplo, mas a gente morava, eu em Sampa, ela no Rio, amor-ponte-aérea. Caríssimo. Isso, das moças. Dos moços, aquele bailarino americano em London, London, quatro/cinco meses. Talvez seis? Numa tarde de compras e roubos em Portobello Road me deu de presente um cacto (perfeito!) e me deixou plantado até hoje. Esse era amor-de-metrô, último trem entre Hammersmith e Euston. Onde andará? (“Onde andará?” é das perguntas mais tristes que conheço, sinônimo de se perdeu.)
Eis que de tanto pedir, insistir, acender vela, fazer todos os feitiços para Santo Antônio e Oxum e concentrar, rezar, mentalizar, eis que pintou. Ano passado me baixou um encosto de São Francisco de Assis, joguei (literalmente) pela janela quase tudo que tinha e, com duas malas, parti para o Rio. Não queria mais me prender a nada. Nem a Sampa, bem-amada. Numa ida a Porto Alegre, em agosto, deu-se. Explosão: à primeira vista. Tudo o que dissemos, depois de um longo suspiro de alívio, foi: eu amo você. Pasmem: verdade das verdadeiras. Ousadias do coração que saca, na hora, a intensidade do lance. E não disfarça. Bueno, tinha pintado.

Então tá. Romance comme il faut: dias numa casinha no meio de bosques em Gramado. Depois a volta ao Rio e, como dizia Ana Cristina Cesar (Aninha, Ana C., a bela, que falta você me faz menina fujona!), “amizade nova com o carteiro do Brasil”. Laudas e laudas de cartas de amor, uma por dia, duas por dia, dez por dia. Fotos, poemas, juras interurbanas. Voltei. Nós fomos os dois para o Rio. Dois meses lá: o amor resistia, mas nenhum estava a fim de pegar no pesado. Então fazer o quê? Dividir quarto pensão na Lapa, andar de ônibus, comer espiga de milho e misto quente? Nenhum acreditava em teu-amor-e-uma-cabana, também não era preciso teu-amor-e-um-rolls-royce (seria ótimo), mas pelo menos uma vitrolinha para fazer amor ao som do Bolero, de Ravel (amor tem desses lugares-comuns quase inconfessáveis). Voltamos. Verão em Torres. Camas de trinta horas. Passeios. Dunas, praia da Guarita. Filme. A sunga verde de lycra.
De repente uma luzinha vermelha começou, cigarro no escuro, a piscar dentro de mim. Foi no carnaval que passou. Suspeitas: porra, eu me afastei de tudo, de todos, joguei tudo pro alto e só quero esse amor, nada mais me interessa, se esse amor me faltar (pode?) eu só tenho isso, é o único laço que me prende à vida - e se faltar, Deus, se faltar o que faço? Noites paranóicas, medo Ritchie. E… se dançar? Aí dançou. Foi dançando. Não sei bem como. Uma tarde peguei nas suas mãos e, bem cruel (punhais: como a gente sabe apunhalar com engenho e arte, crava devagarinho a lâmina, depois revira, dentro da ferida), pedi assim: olha bem dentro dos meus olhos e me responde à seguinte pergunta: “Você não me ama mais?”.

Silêncio tão espesso que consegui ouvir o ruído do movimento de rotação da Terra. Feito nas novelas das seis, eu abri a boca quando ouvi a resposta. Um lento Não. Um claro Não. Um seguro Não. Um límpido Não. Um tranquilo Não. Um sem dúvida alguma Não. Um afirmativo Não. Repete, pedi. Repetiu. Pede-se não enviar flores, pensei. Fechei a porta. Fiquei só, chovia. Com requintes de autopiedade, limpei devagarinho com feltro um disco da Elis, deitei no chão e ouvi umas cem vezes “Se quiser falar com Deus”. Quando já ia abrir o gás, corri para o telefone e pedi ao Zé Márcio Penido em Sampa: socorro. Vem, ele disse. Santo amigo. Fui, na mesma hora. Me estonteei, vi todos os filmes, todas as peças, revi todos os amigos, ouvi todos os discos, namorei o que deu. Tinham sido NOVE MESES de fidelidade, no amor-amor, é sempre supernatural. Quando decidi estou-ótimo-fullgás-total-posso-voltar, voltei. The reencontro: quando dei por mim estava dizendo as coisas mais duras e agressivas e cruéis e impiedosas e injustas e ferinas e baixas e grossas que uma pessoa pode dizer à outra.
Comecei a me perder pela cidade. Selecionei vinte gatos & gatas mais lindos do pedaço, dez semifinalistas, cinco finalistas, transei todos. Saí sem parar. De bar em bar, telefone tocando sem parar. Explodindo de vitalidade e saúde e sedução: capacidade de superação. Puxa, gente, como sou maravilhoso, como sou maduro e equilibrado, como sei dar a volta por cima, como não sou careta, como sou moderno e liberadésimo. Aí, desabou. Dez dias. De manhã bem cedo, chegando da vida, percebi uma pequena rachadura na parede externa do edifício. Avançava lentissimamente. Ao meio-dia rachou de alto a baixo. O edifício veio ao chão: me interna, pedi pra mãe, estou infeliz pra caralho. Peguei o pacote de cartas que tinha pedido de volta (fiz absolutamente todos os números, o problema é que a platéia estava vazia: ninguém aplaudiu minha melhor sequência de sapateado), coloquei aos pés de Ogum.
E agora, Caio F.? Agora, estou amanhecendo. Ah, me digo, então era assim. Essa coisa, o amor. Já conheço? Já conheço. Mas como é mesmo que se chama? Também não estou certo se estarei mesmo amanhecendo. Talvez, sim, anoitecendo, essas luzes penumbrosas são muito parecidas. Não sei muita coisa. Quase nada. Pedi? Levei. Nunca tinha sido tão intenso, nem tão bonito. Nunca tinha tido um jeito assim, tão forever. Não me diga que vai passar, vai passar, vai passar, vai passar. Não me diga que foi ótimo, o que você queria, a eternidade? Não me peça para não te encher o saco lamuriando. Posso não saber nada do coração das gentes, mas tenho a impressão, de que, de tudo, o pior é quando entra a segunda parte da letra de “Atrás da porta”, ali no quando “dei pra maldizer o nosso lar pra sujar teu nome, te humilhar”. Chico Buarque é ótimo pra essas coisas. Billie Holiday é ótima pra essas coisas. E Drummond quando ensina que “o amor, caro colega, esse não consola nunca de núncaras”. Aí você saca que toda música, toda letra, todo poema, todo filme, toda peça, todo papo, todo romance, tudo e todos o tempo todo, antes, agora e depois, falam disso. Que o que você sente é único & indivisível e é exatamente igual à dor coletiva, da Rocinha a Biarritz. O coro de anjos de Antunes Filho levanta no ar, em triunfo, os corpos mortos de Romeu e Julieta enquanto os Beatles pedem um little help from my friends, e a platéia ainda aplaude de pede bis (o Gonzaguinha também é ótimo pra essas coisas). Meus amigos, abandonados para que eu pudesse mergulhar, voltaram a mil. Tem seus prazeres o fim do amor. Se é patologia, invenção cristã-judaico-ocidental-capitalista, ou maya, ego, se é babaquice, piração, se mudou-através-dos-tempos, puro sexo, carência, medo da morte: não interessa. Tenho certeza que estive lá, naquele terreno. Ele existe.
Por isso falo dele: Joyce e Paula me pediram elucubrações, as minhas são estas. Estou contando a vocês que estou fazendo elucubrações sobre o amor porque provavelmente, de uma outra forma vocês aí que me leem, talvez com tédio, também estão pensando a mesma coisa. O bicho homem não faz outra coisa a não ser pensar no amor. Até as relações de produção, a luta de classes, a ecologia, o jogo pelo poder: tudo, questão de amor. Formas de amor. Amor é palavra que inventamos para dar nome ao Sol abstrato em torno do qual giram nossos pequeninos egos ofuscados, entontecidos, ritmados. A vida toda. Mas se me perguntarem o que quero dizer com isso, não tenho resposta.

O que quero dizer é justamente o que estou dizendo. Não estou com pena de mim. Tá tudo bem. Tenho tomado banho, cortado as unhas, escovado os dentes, bebido leite. Meu coração continua batendo - taquicárdico, como sempre. Dá licença, Bob Dylan: it’s all right man, I’m just bleeding. Tá limpo. Sem ironias. Sem engano. Amanhã, depois, acontece de novo, não fecho nada, não fechamos nada, continuamos vivos e atrás da felicidade, a próxima vez vai ser ainda quem sabe mais celestial que desta, mais infernal também, pode ser, deixa pintar. Se tiver aprendido lições (amor é pedagógico?), até aproveito e não faço tanta besteira. Mas acho que amor não é cursinho pré-vestibular. Ninguém encontra seu nome no listão dos aprovados. A gente só fica assim. Parado olhando a medida do Bonfim no pulso esquerdo, lado do coração e pensando, pois é, vejam só, não me valeu".

(Caio F. em Para sempre teu, Caio F., de Paula Dip)

quarta-feira, 3 de março de 2010

De jeito nenhum


"Contei a Lacan... (...) considerei útil pontuar meu relato com um comentário sobre tudo o que havia acabado de acontecer: "É mesmo doideira afanar livros!" Eu, dizendo isto! E ele responde: "De jeito nenhum, meu caro, o que é louco não é afanar, é se deixar pegar!". O efeito foi inventer completamente a relação que eu tinha com minha própria história e todo o resto".

(Trabalhando com Lacan - na análise, na supervisão, nos seminários., P. 141 Este capítulo é de Jean-Pierre Winter, que foi analisando de Lacan)

Anyway...


"(...) Ou me quer e vem, ou não me quer e não vem. Mas me diga logo para que eu possa desocupar o coração. Avisei que não dou mais nenhum sinal de vida. E não darei. Não é mais possível. Não vou me alimentar de ilusões. Prefiro reconhecer com o máximo de tranquilidade possível do que ficar à mercê de visitas adiadas, encontros transferidos. No plano REAL: que história é essa? No que depende de mim, estou disposto & aberto. Perguntei a ele como se sentia. Que me dissesse. Que eu tomaria o silêncio como um não e que também ficaria em silêncio. (...) Anyway, me dói a possibilidade de um não, me dói a possibilidade de um silêncio, me dói não saber de que forma chegar a ele, sacudi-lo dizer me olha, me encara, vamos ou não vamos nessa? (...) ODEIO pessoas que dizem mas-todo-mundo-sempre-se-apaixona-por-mim. Parece a perua da Jessica Lange seduzindo a pobre Dorothy em Tootsie (essa é a interpretação de Ana C.), só para depois rejeitar, fazer cara de santa, dizer imagina, eeeeeeeeeeu?".

(Caio F. em carta para Juliana Cantore, 20/05/83 - Caio Fernando Abreu, Cartas, Ed. Aeroplano, organizado por Italo Moriconi)

Só... o que interessa


"Daqui desse momento

Do meu olhar pra fora

O mundo é só miragem

A sombra do futuro

A sobra do passado

Assombram a paisagem

Quem vai virar o jogo

E transformar a perda

Em nossa recompensa

Quando eu olhar pro lado

Eu quero estar cercado

Só de quem me interessa

Às vezes é um instante

A tarde faz silêncio

O vento sopra a meu favor

Às vezes eu pressinto e é como uma saudade

De um tempo que ainda não passou

Me traz o seu sossego

Atrasa o meu relógio

Acalma a minha pressa

Me dá sua palavra

Sussurra em meu ouvido

Só o que me interessa".

(Lenine)

terça-feira, 2 de março de 2010

Suscetível de desencaminhar-nos...


“Temos de contar com *ele como algo suscetível de desencaminhar-nos, e, em muitos casos, instantaneamente”.
*Ele, neste caso, é o desejo.

(Seminário 7 - A ética da Psicanálise, J. Lacan, p. 262)

Imagem: Mikhail Aleksandrovich Vrubel

Esforço


"Eu me esforço tanto para ser como sou, e fica todo mundo querendo que eu seja como eles".
(Bob Dylan)

Sobre gatos


"(...) você é como gata de telhado, pula rápida e certeira".
(Caio Martins)

OBS: O Caio escreve para http://caiovmartins.blogspot.com/e http://prosaeversodeboteco.zip.net/

segunda-feira, 1 de março de 2010

Mais fácil de arquivar


"Resumida a três postais velhos, ficas mais fácil de arquivar".

(Fazes-me falta, Inês Pedrosa)

Enfrenta com a escrita


"Todo poeta sofre de algo que, com a escrita, ele enfrenta. Não penso em dor física, ou em alguma dor de cotovelo romântica; mas em um incômodo vago - uma dor de existir - que, por fim, define sua relação instável, mas criativa, com o real".

(A arte de errar, José Castello)

Preciso compartilhar


Esta manhã recebi um depoimento LINDO-DE-VIVER da Ciça Moura, uma das poucas pessoas que possuem lugar cativo no meu coração, além de ser minha amiga carioca mais especial. As palavras poderiam ter virado o "quem sou eu" do perfil deste blog, porque ela me define como poucos. Mas, resolvi que vira post, para alegrar essa semana chuvosa, que já começou tão feliz. Obrigada Ciça ;)

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Um dia esbarrei com um recado que suscitava dúvidas acerca de seu propósito: uma linda menina loira de olhos de sonho evocava interessados em um clube de leitura à la Jane Austen. "Só pode ser vírus", pensei. Decidida a arriscar em nome do interesse, respondi o recado e, antes de ser de fato uma participante do Clube, ganhei uma amiga com A maiúsculo. Assim ao acaso, como todas as boas coisas da vida devem ser. Seria mentira dizer que essa menina com cara de anjo e sotaque gaúcho chegou de mansinho em minha vida. Foi um verdadeiro tsunami, afinal intensidade é seu nome do meio. Impressionei-me com a facilidade com que consegue mesclar inteligência, humor e sagacidade o tempo todo. Nunca espere dela frases feitas, clichês e afins. Espere desafios, abismos e perspicácia em estado bruto, a despeito da delidadeza com que leva a vida. Sorte minha, nesse mundo medíocre, ter esbarrado com essa figura sensacional. Dizer o quanto gosto de ti, minha amiga, não abrange o tamanho do meu bem-querer. Grande beijo.

Sonhar - tão bom, tão ruim



"- Mas eu nunca ouvi isso. Porque é que havia de sonhar com uma coisa que eu não sabia?
- Os sonhos são feitos daquilo que não sabemos. É por isso que é tão bom sonhar.
- Detesto sonhar.
Dinis invadia os sonhos de Claúdia, é não há maior poder do que o de invadir os sonhos de alguém".

(A instrução dos amantes, Inês Pedrosa, p. 160)