sábado, 30 de abril de 2016

do grito

Parágrafo de abertura do romance “Grito” (Ed. Record), do escritor Godofredo de Oliveira Neto.

Ele diz se tratar do grito que sua irmã gêmea não conseguiu dar no nascimento. Nasceu morta. Se chamaria Ifigênia de Sá Sintra. E isso liberta ele. Depois virou um costume; e a cada situação profissional nova Fausto solta o grito engasgado na garganta da gêmea. Meio tétrico eu também sempre achei, mas tudo bem, ele agora ri às gargalhadas. É grito de alegria. Um grito diferente. Parece mais um choro misturado com risada alta. Dá para sentir que o choro foi aos poucos perdendo espaço para o riso, e apenas no comecinho, e só para aqueles que o conhecem de perto, detecta-se o pranto.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

do que é essencial

O que censuro nos jornais é nos fazer prestar atenção, todos os dias, nas coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais.

Marcel Proust

segunda-feira, 18 de abril de 2016

do silêncio

Que força tem o silêncio quando se estende muito além do incômodo imediato, muito além da mágoa.

Julián Fuks in: A resistência. Companhia das Letras, p. 15.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

das certezas

Ninguém me tira
a certeza de ter te habitado.

Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu. Ed. Record, p. 33.

domingo, 3 de abril de 2016

do livro

(...) Conhece A. Lobo Antunes? Lobo Antunes enunciou, em conferência, O livro é o travesseiro que o escritor vai fazendo, durante a vida, para se deitar. E meu amigo Humberto Werneck, ele foi o mediador da conferência, disse-me Não é para se deitar e ver televisão, não, Felipe, é muito mais sério: é para se deitar e morrer. Morrer. É o corpo lavado com água, envolto em mortalha, colocado em uma simples caixa de madeira.

Felipe Franco Munhoz in: Mentiras. Ed. Nós, p. 13-14.

sábado, 2 de abril de 2016

do escrever

(...) e depois foi-me passando a raiva, digam o que disserem é sempre por causa disso que se escreve, a raiva é a gasolina do espírito, o engenho e a arte vêm por acréscimo, e a mim passou-me.

Inês Pedrosa in: Desnorte. Ed. Dom Quixote.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

disponibilidade distante

Marguerite é de uma disponibilidade distante, talvez altiva mas sem desprezo. Exatamente com aquele olhar que não consegue não ser de uma zombaria impiedosa. O homem compreende que a conquistará, mas a preço de sofrimento.

Frédérique Lebelley in: Marguerite Duras - uma vida por escrito.