segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O momento mais bonito foi um delírio e jamais existiu

Trecho de “Demasiado tarde”, por Vanessa Souza. Escrito na primavera de 2012.

“Quase um ano depois, recebo um e-mail de Santiago. Falava de ausência, pedia explicações e usava uma palavra demasiado forte: desprezo. Des-pre-zo. Não prezo mais? A palavra neon no meio de tantas outras, sem muito sentido. Palavras jogadas no vazio de uma mensagem virtual. Lamentos dignos de fado. Respondi que não havia desprezo algum, que havíamos nos afastado e que eu estava levando minha vida. Nenhum cálculo exato e mirabolante para ferir o outro. Viver apenas, o que sempre me custava um esforço imenso. Devo ter escrito que gostava dele e desejado coisas boas e clichês, palavras de açúcar. Recebi como resposta um: - Estou no Brasil. Estranho, meu coração não parou. Santiago informou que queria me ver, perguntou se eu podia ir até ele. Não me senti tentada. Ele não era mais uma possibilidade. Em seguida ele me ligou, reiterando o desejo do encontro. Sem pensar muito, fui. No caminho até o aeroporto, um trânsito caótico. Meu avião decolou quando eu chegava, fiquei horas esperando o próximo. Com raiva, mandei uma mensagem colérica para ele, sobre trânsito e esperas sem fim. Desde que Benjamin me deixou, era cada vez mais difícil enxergar a leveza e a beleza. Quem pagava o preço eram os incautos que cruzavam meu caminho. Tendo consciência disso, tentava passar a maior parte do tempo apenas com minha própria companhia. No entanto, apesar de nunca ter sido genuinamente boazinha, havia uma centelha de doçura no fundo dos meus olhos verdes. Uma gentileza sutil em meus gestos. Nos últimos tempos meus olhos curiosos guardavam uma inquietude que beirava ao tédio. Os gestos eram contidos, as palavras ácidas previamente calculadas antes de serem proferidas.
Sim, Santiago havia despertado coisas tão boas quando surgiu em minha vida. Vontades grandiosas. Sentimentos superlativos. Quero-cuidar-de-você-de-mim-quero-ser-feliz. Quando partiu, levou consigo esse pedaço doce de mim. Agora queria a mesma Letícia de antes? Sim. A eterna busca pelo tempo perdido e jamais recuperado. Não leste Proust, rapaz? Irremediável. O momento mais bonito foi um delírio e jamais existiu.
Lá estava ele a me esperar no aeroporto vestido com um sorriso tímido e aqueles cabelos reluzentes de comercial de shampoo. Não o beijei, não o abracei. Fiquei parada diante dele, sem saber bem o que fazer. Queria sentir de novo aquele ardor de outrora. Nada aconteceu. Parecíamos dois estranhos. Personagens que esqueceram suas falas, atores de uma peça antiga com lapsos de memória, dançarinos esperando o passo seguinte sem música – sim, a canção cessou.
Santiago tinha o semblante tenso, triste, cansado. Eu estava irritada e com vontade, ah, tanta vontade, de dizer qualquer coisa que pudesse magoá-lo.
Nem o prato no restaurante ele acertou, a refeição veio repleta de um tempero que ele detestava. Ficou tateando os legumes com desânimo, tentando livrar-se do molho viscoso. Em vão.
Era sexta, ainda. Eu deveria voltar para casa no domingo. Eu não deveria ter ido. Tive receio dos dois dias que viriam. Fim de semana desastroso, anunciava o trânsito em fúria, o avião perdido, os olhares exaustos dos que já viram quase tudo, a comida no prato naufragando em molho espesso.
Santigo, gentil como sempre, cobriu-me de elogios. Também disse, reticente, entre um gole e outro de vinho, que eu parecia estar com raiva do mundo, das pessoas. E abre o manual simbólico do jogo-do-contente para me dar algumas lições.
- Letícia, você acredita que coisas negativas possam atrair coisas negativas?
Ah, não, não piore a noite. Tudo sempre pode ficar pior.
- Eu acredito em poucas coisas – respondo ríspida.”

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Imagem: 500 days of Summer

Ou em todas

sábado, 16 de fevereiro de 2013

imagens impregnadas do perfume da minha infância

"Uma viva emoção me invade só de pensar que vou passar para o papel imagens impregnadas do perfume da minha infância..."

(Godofredo De Oliveira Neto in: Ana e a margem do Rio. Ed. Record, p. 14)

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

trazer sempre o poeta pela mão

"Cruz e Sousa é o primeiro poeta moderno do Brasil. Hoje ele continua sob o lampião do porto, olhando a escuridão do mar e recitando versos. Não deve ser fácil, pois Florianópolis está "emparedada" por duas avenidas de alta velocidade à beira mar, que ameaçam, belicosas, por seus moradores e os afastam do espelho azul-esverdeado que cercava com carinho a cidade de Desterro. Não mais somente à criada alemã: cabe à nação brasileira trazer sempre o poeta pela mão."

(Godofredo de Oliveira Neto in: Cruz e Sousa, o poeta alforriado. Ed. Garamond, p. 144)

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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

a dependência infantil do amor


"Quanto maior o artista, maior a fraqueza emocional, maior a dependência infantil do amor".

(Lawrence Durrel in: O príncipe das trevas ou Monsieur. O quinteto de Avignon I. Ed. Estação Liberdade, p. 199)

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Existe, evidentemente, uma literatura urbana?


"- Existe, evidentemente, uma literatura urbana?
- Sim, a que se inspira nestes últimos modelos, Alain-Fournier à parte. Descreve o aborrecimento nas cidades, a solidão do indivíduo nos meios urbanos, sua revolta, suas aventuras."

(Marguerite Duras in: Outside. Ed.DIFEL: 1981, p. 40)

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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

das quedas


"Meu mundo acabou. Me vêm à cabeça trechos de Tchecov e aquela música brasileira, cantada por Maysa, que começa por "meu mundo caiu". Senti nas tripas a queda livre da sociedade simbolizada pelo envasamento da vida dos personagens, atolados em convenções sociais, em As três irmãs, a que assisti pouco antes de viajar para o Brasil. A peça é, no particular, idêntica a O jardim das cerejeiras e A gaivota. Sinto-me um personagem de Tchecov cantando "meu mundo caiu".

(Godofredo De Oliveira Neto in: O bruxo do Contestado. Ed. Record, p. 16)

Imagem: Dogville

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domingo, 3 de fevereiro de 2013

refugios


Lawrence Durrel in: O príncipe das trevas ou Monsieur. O quinteto de Avignon I. Ed. Estação Liberdade)

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

nossas virtudes, os nossos deslizes, os nossos medos.


"Para você, aquela beleza toda te deixava deprimida ao pensar na condição humana?
Pode parecer estranho, mas aquela comparação, a gente do tamanho de uma formiguinha, nos fazia bem, relativizava a nossa vida, as nossas virtudes, os nossos deslizes, os nossos medos. E principalmente, relativizava o tempo, como se as pedras acrescentassem nós vamos ficar para sempre, vocês vão durar pouco, logo, logo serão barro. E nós, em profundo e respeitoso silêncio, concordávamos resignados. Drogas, dinheiro, moral, poder, guerras, identidades, traições, tudo parecia ridículo comparado com a grandiosidade do cenário.”

(Godofredo De Oliveira Neto in: A Ficcionista. Imã Editorial)

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