segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

novo, antigo, 2013


Que as esperas sejam doces e iluminadas, pausa onde a demanda se transforma em desejo. Que os olhos e as mãos e as palavras e as bocas finalmente se encontrem. Que haja novos diálogos para os antigos e fatigados personagens. Desejos para 2013.

Vanessa Souza

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***

Carta para um novo e bom ano. Que sejamos novos. Sim.

"Tento não ficar assustado com a ideia de que o tempo aqui é curto... (...) Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. (...) de não sufocar: de continuar sentindo encantamento... (...) Ser novo. (...) Estou te querendo muito bem neste minuto. Tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas... (...) Fique feliz, fique bem feliz, queira ser feliz. (...) que seja bom o que vier, para você, para mim. Com carinho, com cuidado, te abraço forte e te beijo. Caio F.)

(10-08-1985, carta de Caio F. para Sérgio Keuchgerian - de Caio Fernando Abreu - Cartas, organizado por Italo Moriconi, p. 142. Ed. Aeroplano.)

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domingo, 30 de dezembro de 2012

Só podemos ser fiéis àquilo que nos lembramos


"Não é porque os outros morreram que a afeição que lhes dedicávamos se debilita, é porque nós mesmos morremos. (...) Só podemos ser fiéis àquilo que nos lembramos, e não nos lembramos senão daquilo que conhecemos."

(Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 5 - A Fugitiva. Tradução de Carlos Drummond de Andrade. Ed. Globo, p.141)

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Imagem Dane Shitagi

sábado, 29 de dezembro de 2012

a Imagem que


Adorável

"Não conseguindo nomear a especialidade do seu desejo pelo ser amado, o sujeito apaixonado chega a essa palavra um pouco tola: adorável! (...)

Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa a especialidade do meu desejo. Esta escolha, tão rigorosa que só retém o Único, estabelece, por assim dizer, a diferença entre a transferência analítica e a transferência amorosa; uma é universal, a outra é específica. Foram precisos muitos casos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis um enigma do qual nunca terei solução: por que desejo Esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que eu desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou é apenas uma parte desse corpo?"

(BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. P. 12-15.Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1977.)

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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

literatura bruta


"- Qual a porcentagem da literatura editada?
- Cerca de um por cento. Em cem manuscritos, noventa e nove nunca mais voltam às mãos de seus autores.
- É possível classificar, de um modo geral, esse enorme refugo?
- É. Podemos começar falando de uma literatura bruta. Ela constitui uma terça parte dos originais. Há muitos aposentados nessa categoria, e, depois, oficiais e funcionários. O seu defeito comum é pensarem: "Que romance daria a minha vida!" e não saberem distinguir aquilo que tem um interesse geral do que constitui uma mera recordação da família. Não conseguem conferir aos seus escritos um interesse geral. Muitos deles escrevem com o objetivo de corrigir lugares-comuns no espírito público."

(Marguerite Duras in: Outside. Ed.DIFEL, p. 38)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

usos da língua


"- Nada, é que as pessoas dizem coisas, inventam histórias, é por isso que eu gosto de ficar calado.
- Eu sei, Lino. Na escola primária Luiz Delfino tinha dias que você vinha com a língua, outras você esquecia ela em casa e mesmo quando trazia usava pouco.
- É que eu acho que a língua é pra gente dizer coisas necessárias, mas também para assuntar. Aqueles livros que dona Ednéia obrigava a gente a ler era para que os alunos gostassem das histórias e entendessem elas. Inventar histórias ou ouvir o cego Basílio contar coisas passadas é bom como naqueles livros. Agora, a língua não foi feita para inventar ruindade..."

(Godofredo De Oliveira Neto in: Marcelino. Ed. Imago, p. 156)

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domingo, 23 de dezembro de 2012

Vem


"Vem, Ana, vem, segura em mim. Vê como a fabulação, a imaginação, a arte vencem a brutalidade, a dor e a lógica dos outros. Vem, assobia comigo Stravisnky, Mozart, Brahms, Chopin, toca piano com eles, comigo, toca, meu amor, toca, isso, assim, me dá a tua boca, a tu língua, o teu ar, toca Beethoven".

(Godofredo De Oliveira Neto in: Menino Oculto. Ed. Record, p. 185)

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sábado, 22 de dezembro de 2012

O beijo


"O sorriso de Eve continuava travado, as sobrancelhas ainda apertadas. Os olhos impecavelmente azuis pousaram nos lábios hermeticamente fechados do hirto pescador, os lábios dela, ao contrário, se descerraram. A ponta encharcada da língua se insinuou, sangue vivo tentando umidificar beiços ressecados de medo, de anseios."

(Godofredo De Oliveira Neto in: Marcelino. Ed. Imago, p. 147)

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Imagem: Les felins

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

a chave para um relógio que era o próprio Tempo


"Tornamo-nos aquilo que sonhamos", disse Balthazar, ainda procurando nas frestas entre as pedras do calçamento a chave para um relógio que era o próprio Tempo. "Em realidade, em essência, alcançamos somente as figuras de nossa imaginação."

(Lawrence Durrel in: O quarteto de Alexandria - Clea. Ed. Ediouro: 2006, p.52)

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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

das musas


"Minha única musa é o prazo de entrega."

(Luis Fernando Veríssimo in: O livro do escritor. Imã Editorial)

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domingo, 16 de dezembro de 2012

leia


"Há áreas em que nenhum conselho vale: ninguém jamais pode servir-se do conselho de outro para fazer com que um pão com manteiga não caia com o lado da manteiga para baixo, como recriar um sonho em todos os seus detalhes, como argumentar com o Papa, como apaixonar-se. Virginia Woolf (ou talvez tenha sido Somerset Maughan) disse que para escrever um bom livro há três regras, mas que, infelizmente, ninguém sabe quais são. Forçado a dar conselho a quem escrever, sugiro seis coisas:

1- Ler;
2- Ler;
3- Ler;
4- Ler;
5- Ler e...
6- ... Ler.

(Alberto Manguel in: O livro do escritor. Imã Editorial)

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

da pele, das palavras


A conversa

"1-A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contacto: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, coloca em evidencia um significado único que é “eu te desejo”, e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação.

(...)

2-A pulsão do comentário se desloca, toma o caminho da substituições. De início é para o outro que eu discorro sobre a relação; mas pode ser também diante do confidente: de você passo a ele. E depois, de ele passo a nós; elaboro um discurso abstrato sobre o amor, uma filosofia da coisa, que seria apenas, em suma, um blá-blá-blá generalizado. Refazendo a partir daí o caminho inverso poder-se-ia dizer que todo dito que tem por objeto o amor (seja o que for que se queira destaca) comporta fatalmente uma alocução secreta (me dirijo a alguém, que vocês não sabem, mas que está lá na extremidade das minhas máximas). No Banquete, essa alocução talvez exista: seria Ágaton que Alcibíades interpelaria e desejaria sob a escuta de um analista, Sócrates.

(...) Há sempre no discurso sobre o amor uma pessoa a quem se dirige, mesmo que essa pessoa tivesse passado ao estado de fantasma ou de criatura a vir. Ninguém tem vontade de falar de amor, se não for para alguém.)”

(BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. P. 64-65. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1977.)

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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

frágeis porém mais vivos


"Mas quando nada mais subsiste de um passado remoto, após as mortes das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação. "

(Proust in: No Caminho de Swann. Tradução de Mario Quintana, ed. Globo, p. 51)

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A escritura dá conta do que a gente quer passar?


“Voar e experimentar essa sensação de liberdade falta à gente.
Se escrever recupera.
A sensação de liberdade?
Pelo menos em parte.
Mas escrevendo o quê?
Mitos, histórias milenares, amores tântalos, ódios calados, culpas.
A escritura dá conta do que a gente quer passar?
Dar conta do real não dá, mas vai desbravando, tentando, tateando, força bruta, lapidação indagada, queda, depressão, volta, retrabalho, assim, quente, como o sangue estuante bombado sem parar. Escrever só a partir de leituras, escrituras de autores, a biblioteca universal.”

(Godofredo De Oliveira Neto in: Extratextos 1 – Clarice Lispector, personagens reescritos. Escrito: É duro como regrar rochas. Org.: Luis Maffei e Mayara R. Guimarães, Editora: Oficina Raquel)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

esperas


"A espera levou um dia inteiro - um dia durante o qual eu fiquei tão aflito que não escrevi nem uma palavra. A campainha tocou. Lá estava ela, vestida de branco, os olhos baixos, braços cruzados ao peito. Minha querida Anya, eu disse, como fico contente de ver você!, e me afastei, tomando o cuidado de não estender a mão no caso de, como um pássaro arisco, ela fugir de novo".

(J.M. Coetzee in: Diário de um ano ruim. Companhia das Letras, p. 162-163)

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Espere a história falar por si só


"As histórias se contam sozinhas, não são contadas, ele disse. Isso ao menos eu aprendi depois de uma vida inteira trabalhando com histórias. Nunca tente se impor. Espere a história falar por si só. Espere e cruze os dedos para ela não nascer surda, muda e cega."

(J.M. Coetzee in: Diário de um ano ruim. Companhia das Letras, p. 65)

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